Dia das mães está chegando… Vamos falar sobre economia do cuidado e do trabalho não remunerado?
De acordo com pesquisa da ONG Think Olga, mulheres brasileiras dedicam, em média, 21 horas semanais a tarefas domésticas e de cuidado não remuneradas, equivalente a mais de 1.100 horas por ano. Já o IBGE aponta que elas gastam quase 10 horas a mais por semana que os homens nessas atividades. No mundo, mulheres realizam 75% do trabalho não remunerado. Leia em TVT News.
O trabalho de cuidado, que compreende a manutenção do domicílio e a assistência a filhos, idosos, pessoas doentes ou com deficiência, é um pilar estruturante das sociedades. Essa atividade, realizada majoritarimente por mulheres, no entanto, permanece invisibilizada. De acordo com o relatório “Tempo de Cuidar”, publicado pela organização global Oxfam, as mulheres realizam mais de três quartos de todo o trabalho de cuidado não remunerado no planeta.
Os dados globais indicam que esse esforço equivale a 12,5 bilhões de horas trabalhadas todos os dias sem qualquer contrapartida financeira. Quanto dinheiro essas horas trabalhadas ajudaram a movimentar?
O papel das mães no cotidiano familiar
Dentro dessa estrutura de tarefas não pagas, a figura das mães aparece como o ponto central de referência para o funcionamento do núcleo familiar. Mesmo em casos em que existe uma rede de apoio ou a presença de outros responsáveis, as mães costumam deter a carga mental e a responsabilidade primária pela saúde e bem-estar dos dependentes.

A prática cotidiana revela que, em muitas famílias, as mães são as principais guardiãs de informações médicas e escolares. Quando há necessidade de uma consulta ao pediatra, administração de medicamentos ou acompanhamento de sintomas, o sistema familiar frequentemente depende da memória e da organização materna. Em situações em que outros membros da família assumem o cuidado direto, é comum a necessidade de buscar instruções prévias com as mães sobre dosagens, horários e histórico clínico, evidenciando que a gestão do cuidado não é compartilhada de maneira equânime.
Desigualdade social
O relatório da Oxfam relaciona o trabalho de cuidado não remunerado à manutenção da desigualdade social e à concentração de riqueza. Enquanto 2.153 bilionários detêm mais dinheiro do que os 4,6 bilhões de pessoas mais pobres do mundo, o sistema econômico atual depende da retaguarda oferecida por cuidadoras, faxineiras e enfermeiras. Estas profissionais, além de lidarem com a carga doméstica em seus próprios lares, no mercado de trabalho são frequentemente mal pagas e possuem poucos benefícios.
A subestimação desse trabalho é visível no suporte que ele oferece ao desenvolvimento nacional. O trabalho de cuidado possibilita que outros indivíduos, muitas vezes em posições de liderança e alta remuneração, tenham a tranquilidade necessária para desempenhar suas funções e tomar decisões. Sem a infraestrutura de apoio doméstico e familiar garantida pelas mulheres, a dinâmica produtiva tradicional sofreria interrupções severas.
Envelhecimento populacional: quem cuidará dos nossos idosos?
A demanda por cuidados deve sofrer um aumento significativo nos próximos anos, impulsionada pelo envelhecimento da população e pelo crescimento demográfico. Estima-se que, até 2030, cerca de 2,3 bilhões de pessoas no mundo precisarão de assistência, um crescimento de 200 milhões de indivíduos em relação a 2015.
No Brasil, as projeções do IBGE indicam que, em 2050, aproximadamente 77 milhões de pessoas dependerão de cuidados. Esse número representa pouco mais de um terço da população estimada para o período, englobando crianças e idosos que demandarão mãos amparadoras para lidar com as privações naturais do corpo envelhecido ou com as necessidades do desenvolvimento infantil.
A artista visual Camila Silva desenvolveu um mini doc sobre a realidade de sua família. A história gira em torno do cuidado que filhas e netas tem com a anciã da família. Luciana, uma professora aposentada de 56 anos, e Thelma, que tem 50 anos e trabalha em uma empresa de internet e também faz uma graduação, revezam turnos de cuidado da mãe, que tem 87 anos.
“Tem que verificar se ela está comendo, incentivar ela a comer, dar as medicações, orientar ela no banho, separar as roupas que ela vai colocar. Precisa ficar de olho nas coisas que ela está fazendo, dar bastante atenção para ela, conversar, tem que relevar, orientar, levar na bricnadeira alçgumas coisas, lavo cozinho para ela. (…) Você tem que ter um processo muiotas vezes de convencimento para que ela faça alguma coisa…”, conta Luciana em documentário sobre o seu trabalho de cuidado com a mãe.
“Nos dias em que eu estou cuidando da minha mãe eu chego cedo na casa dela, eu preparo o café e quando ela acorda o café já está na mesa. Ela toma o cafézinho dela e em seguiuda os remédios. Também é necessário fazer o almoço dela e garantir que ela coma tudo”, contou Thelma.
A dedicação exaustiva a tarefas de manutenção da vida sem o devido reconhecimento financeiro ou social gera impactos profundos na saúde das trabalhadoras. O relatório da Oxfam destaca que as cuidadoras enfrentam frequentemente problemas físicos e emocionais decorrentes de jornadas extensas e horários irregulares.
A falta de benefícios e a baixa remuneração no setor formal do cuidado, somadas às horas de trabalho gratuito no setor informal (doméstico), impedem que muitas mulheres, especialmente as mães, tenham tempo disponível para o aperfeiçoamento profissional, lazer ou autocuidado. Essa estrutura perpetua um ciclo de desigualdade em que o tempo dedicado ao bem-estar alheio limita as oportunidades de ascensão socioeconômica de quem cuida.
Historiadora aborda a importância do trabalho doméstico em movimentos de resistência a ditadura
Mesmo que o trabalho doméstico seja fundamental para a estruturação das sociedades, raramente ele é abordado em estudos históricos. Rafaela Bastos, mestranda em História pela Unifesp, pesquisa sobre o trabalho doméstico em organizações de resistência a ditadura militar, como a VPR.
Em seu estudo “Pilotando o fogão e o tanque: Dinâmicas de trabalho doméstico na Vanguarda
Popular Revolucionária (1968-1971)”, Bastos usa a Teoria da Reprodução Social (TRS) para argumentar que o trabalho doméstico é a base invisível que sustenta a produção e manutenção da força de trabalho, sendo, portanto, essencial para a organização de qualquer sociedade.
No contexto da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), esse trabalho foi o que permitiu a sobrevivência e a atuação militar dos guerrilheiros homens. Historiadores ignoraram essa questão por décadas porque as memórias sobre a Ditadura Militar foram hegemonizadas por depoimentos de militantes intelectuais, geralmente oriundos do movimento estudantil ou artístico.
Essa perspectiva privilegiou as ações armadas e discussões teóricas, deixando de lado o cotidiano e os trabalhadores que garantiam a infraestrutura. Segundo a autora, a historiografia focou no “extraordinário” e negligenciou o “ordinário”, resultando em um silêncio sobre como a divisão sexual do trabalho se manteve viva dentro das organizações revolucionárias.
Bastos contou à TVT que, no mestrado, está organizando a vida de duas mulheres em específico envolvidas com a VPR que exerceram funções de trabalho doméstico para a organização:

