O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se nesta quarta (15) com lideranças das centrais sindicais para reforçar o compromisso do governo com a agenda trabalhista. O intuito do encontro era que Lula recebesse uma carta com 68 reivindicações de trabalhadores para 2026-2030. Leia em TVT News.
No evento com as centrais, Lula anunciou o envio da proposta pelo fim da escala 6×1 ao Congresso Nacional e fez duras críticas às reformas implementadas em gestões anteriores.
Lula relembra importância da luta sindical e discute reformas trabalhistas
O Fim da Escala 6×1
Após fala de ministros, líderes sindicais e do vice-presidente, Lula recebeu Rick Azevedo, criador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e uma das figuras que impulsionaram o debate público pelo fim da escala 6×1. Em seu discurso, Rick agradeceu Lula por o receber e seguir escutando a demanda dos trabalhadores:
“Meu sonho era chegar ao senhor, era que essa damanda chegasse até o governo. E hoje eu estou aqui. Então a mensagem que eu quero passar é que a Classe Trabalhadora pode tudo”, disse Rick
Um dos momentos de maior aplauso foi quando Lula assumiu o microfone e anunciou formalmente sobre a movimentação do Executivo para alterar a jornada de trabalho no país, com o envio da PL em regime de urgência.
Lula ressaltou, no entanto, que a mudança não depende apenas da vontade da presidência, mas de uma mobilização política profunda.
“Nesse dia eu acabo de mandar para o Congresso Nacional o fim da escala 6×1. É importante ter clareza de algo que chamamos de correlação de forças, e a política é feita disso. Então é importante que a gente comece a pensar como é que a gente faz para termos um Senado e uma Câmara comprometidos com os direitos do povo brasileiro.“, disse Lula

Críticas à Reforma de 2017 e à “Pejotização”
Lula utilizou o Brasil como um exemplo de retrocesso social após o golpe de Dilma Rousseff. Ele criticou a Lei 13.467 (Reforma Trabalhista de Temer), afirmando que as promessas de geração de empregos não se concretizaram, resultando apenas em precarização.
“A reforma trabalhista legalizou o trabalho precário, o bico, a terceirização, o pagamento por hora, mas não regulamentou o trabalho por aplicativo. (…) Quem quiser se aposentar com salário integral tem que contribuir no mínimo por 40 anos hoje.”
Além disso, Lula retomou sobre a política de valorizalção do salário mínimo, implementada durante seu governo, mas que sumiu no governo Temer e governo Bolsonaro:
“De 2006 a 2009, os benefícios foram corrigidos pelas normas vigentes de 1998. Entre 2006 e 2017, os benefícios cresceram devido à política de aumento real do salário mínimo. No meu período, o salário mínimo aumentou 151% contra a inflação de 79%, medida pelo INPC. A partir de 2017, Temer, e depois a coisa que vem depois dele, sepultaram essa política. Até 2022, o salário mínimo foi corrigido somente pelo INPC, interrompendo a curva de crescimento real dos benefícios”, disse Lula.
O presidente também demonstrou preocupação com o fenômeno da pejotização, sugerindo que as centrais busquem diálogo com o Supremo Tribunal Federal (STF).
“As centrais sindicais têm que marcar uma reunião com o ministro Gilmar, da Suprema Corte, para falar que a ‘pejotização’ não ajuda apenas o trabalhador, como não ajuda o país, não ajuda o fundo de garantia, não ajuda a previdência social.”
“É preciso que a Classe Trabalhadora aprenda que ela precisa fazer parte do Parlamento”, disse Lula
Ao relembrar as greves de 1978 no ABC Paulista e a repressão durante o governo Geisel, Lula explicou por que decidiu fundar um partido político.
Lula relembrou “aos mais jovens” que seu partido foi criado em 1978, porque um ministro do Trabalho, Arnaldo da Costa Prieto, ainda no governo Geisel, fez uma lei criando as chamadas “categoras essenciais”. Essa lei definia diversas categorias de trabalhadores como frentistas, professores, bancários como essenciais para o país, e por isso ficavam proibidos de fazer greve.
Na época, Lula era era o presidente do sindicato de São Bernardo e decidiu convocar sinidcalistas para irem até Brasília:
“Então o ministro foi na televisão e fez um pronunciamento ameaçando que o presidente sindical que fosse até Brasília seria cassado. Eu pedi licença do meu sindicato, coloquei meu vice-presidente na presidência e vim para cá, como cidadão, fazer protestos. (…) Fomos de gabinete em gabinete pedir para não aprovarem essa lei, e os deputados falaram: ‘Você não vota em mim, por que não vou aprovar a lei?’. E foi isso que me deu a ideia de fundar um partido político de trabalhadores, para não ficar passando vergonha de bater em gabinete de gente que não tinha compromisso conosco”, disse Lula.
O petista também lembrou que não é sempre que a Classe Trabalhadora pode chegar no palácio do presidente, como ontem e contou que, em 1975, tentou entregar ao Geisel uma carta com reivindicações dos trabalhadores, mas que o segurança dele sequer deixou Lula se aproximar. “É preciso valorizar as conquistas de vocês”.
Desafios
Finalizando sua fala, o presidente alertou para a complexidade da luta sindical nos dias de hoje, onde a comunicação digital e a desinformação dificultam a mobilização de massa. Ele defendeu que o descanso do trabalhador não deve ser visto como um problema, mas como um direito à vida digna.
“Tem gente defendendo que ficar muita gente em casa ajuda a beber… Ninguém fala que o cara quer tempo com a família, quer estudar, que a mulher quer ter mais tempo. A mulher trabalha o dobro.”
O evento encerrou-se com uma convocação à vigilância constante. Para o presidente, o movimento sindical não morreu, mas enfrenta sua fase mais dura: “O pacto que vocês deram hoje é um alerta para muita gente. A luta não termina com isso, ela começa com isso.”
As Centrais Sindicais e o evento
Luiz Marinho, ministro do Trabalho, abriu o evento com o presidente Lula, saudando as lidrenças sindicais presentes, Ministro Boulos, vice presidente Geraldo Ackmin e ministro José Guimarães. A carta reúne 68 reivindicações de trabalhadores para 2026-2030.
“Eles [os trabalhadores] apresentam pautas importantes (…) o projeto de redução da jornada de trabalho sem redução de salário com duas folgas na semana. Portanto, fim da escala 6×1, a mais cruel das escalas de trabalho principalmente para as mulheres”, disse Marinho.
A primeira fala da noite de entrega da carta ao presidente Lula foi a do coordenador do fórum das centrais, Clemente Ganz, que destacou que objetivo com a entrega da carta é olhar para o mundo do passado pensando que é um mundo em profunda transformação.
“Essa pauta olha para o futuro e nós partimos do pressuposto de que não podemos continuar olhando o futuro pelo retrovisor. Nós temos que continuar olhando para o mundo do trabalho em profunda transformação tecnológica”, disse o coordenador.
Ao entregar os documentos que detalham as propostas a longo prazo e a agenda legislativa no Senado, Clemente destacou que o objetivo é consolidar um processo de construção coletiva iniciado no governo atual, celebrando o fato de que o país conseguiu “sair da página policial e voltar para a página da política, economia e trabalho”.
Em seguida, Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) foi quem recebeu a palavra. Patah destacou sua preocupação com a questão dos motoristas de aplicativo, que para ele deve ser um esforço e uma preocupação central do governo.
“Enquanto eu estou falando, está morrendo um motoboy. Quem é que está se preocupando com a saúde dessas pessoas? O ministro Marinho tem essa preocupação; é fundamental se preocupar com a vida, com a juventude, que representa o futuro do nosso país. E viva os trabalhadores!”, disse.
Miguel Torres, presidente da força sindical, relembrou a importância do movimento sindical e destacou a importância da redução da jornada, já que a última foi há 38 anos.
Presidenta da nova central sindical de trabalhadores (NCST), Sonia Zerino, destacou a luta do combate ao feminicídio.
“Hoje a gente sabe que o Brasil tem um número muito expressivo de feminicídio. A cada dia morrem 6 mulheres em nosso país vítimas de feminicídio (…) Nós precisamos fazer esse combate por meio das centrais sindicais…”, disse Sonia
A presidenta também pediu ao Lula que ajudasse nesse trabvalho com acordos coletivos para que se tenha o combate da violência contra mulher, já que o feminicídio se potencializou nos últimos anos.
Presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, saudou líderes do governo a agradeceu pelo trabalho realizado.
“Só um governo com sensibilidade poderia ter esse compromisso com o nosso povo”, disse o líder
Em sua fala, Adilson também ressaltou as dificuldades na vida das famílias que devem ser destacadas, como o encarecimento dos preços. “Não foi fácil a gente estar aqui, mas eu sei do compromisso do presidente Lula”, disse.
Adilson lamentou pelo fato do Banco Central não ter escutado o povo e manter taxas de juros tão altas que prejudicam o trabalhador e pediu que algo fosse feito. “A gente quer um Brasil preparado para os desafios que não são pequenos…”, completou.
“Nós vamos lutar pelo fim da escala 6×1, mas vamos precisar de juros moderados para que possamos enfrentar essas batalhas”, completou.
Já José Gozze, presidente da Pública Central do Servidor, falou da importância de um projeto de mesa de negociação com os estados.
Presidente da Central dos Sindicatos brasileiros (CSB), Antonio Neto, saudou todos presentes na entrega da carta ao Lula antes de ressaltar um tema, que para ele é central: a pejotização. Para ele, a dignidade do trabalho e o direito do povo brasileiro não podem ser negociados.
Neto alertou para os riscos da “pejotização irrestrita”, classificando o fenômeno como o “enterro dos direitos laborais” e uma “radicalização mais profunda da reforma trabalhista”, realizada não pelo debate democrático, mas por “via interpretativa”.
Ao definir a transformação de funcionários em pessoas jurídicas como uma “fraude com ‘sabor de modernidade’”, o discurso enfatizou que tal prática é uma “afronta ao Estado Democrático” que “institucionaliza a barbárie”, gerando impactos que vão além do campo trabalhista para se tornar uma “bomba fiscal” que desorganiza o FGTS e a Previdência.
“Se esse entendimento avançar no STF, todo o esforço do seu governo corre o risco de ser completamente esvaziado; não haverá política pública capaz de segurar direitos se a base do vínculo de trabalho for destruída”, alertou o presidente da CSB.
A Nilza Almeida, Secretária-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora, deu continuidade ao debate sobre a pejotização. Para ela, foi a reforma trabalhista de 2017 que abriu um cardápio de possibilidade de contratação inclusive a pejotização.
“Eu tenho um menino em casa que é MEI e eu falei para ele: ‘Vamos viajar e emendar o feriado de segunda-feira’ e ele disse ‘Não posso se não eles me descontam 4 dias de férias’ e eu falei ‘como assim? Tu é MEI, cara…”, disse a Secretária.
Quem seguiu foi Sérgio Nobre, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), falou da reorganização do modelo sindical que nasceu para representar os trabalhadores que tem carteira assinada, mas que metade dos trabalhadores hoje não possuem carteira assinada e fogem desse modelo de negociação.
“Nós queremos revereter, queremos sindicatos mais amplos e mais fortes e não sindicatos que estão se fragmentando como nos últimos anos… Nós apresentamos uma pauta que pensa o futuro, mas nós temos muito claro que essa pauta só vai ser conquistada se o senhor continuar a nos governar nesse período…“, disse.
Depis de Nobre, Boulos recebeu a palavra e ressaltou que está vivendo um dia histórico para os trabalhadores brasileiros e parabenizou as centrais e os sindicatos por mostrarem a força da Classe Trabalhadora. Além disso, parabenizou o presidente Lula pela atitude corajosa de enviar o projeto de lei com regime de urgência sobre a redução da jornada 6×1.
“Hoje foi publicado no Diário Oficial a atitude corajosa de Lula, com regime de urgência para acabar com a jornada 6×1 nesse país. Às vezes, quando a gente não olha na perspectiva histórica, a gente pode não valorizar a grandeza desse gesto: há 38 anos, desde a Constituição, que não se muda a jornada de trabalho”, disse Boulos
A Marcha dos Trabalhadores

Antes do encontro, as ruas da capital federal haviam sido tomadas pela Marcha da Classe Trabalhadora. Milhares de manifestantes, vindos de diversas regiões do país marcharam até a Esplanada dos Ministérios para pressionar os Três Poderes por reformas trabalhistas, com foco no fim da escala 6×1 e na redução da jornada de trabalho sem redução salarial.
Com organização da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e demais centrais sindicais, a Marcha da Classe Trabalhadora 2026 reuniu diversas caravanas pelo país. A concentração começou por volta das 8 horas no estacionamento do Teatro Nacional e a plenária, que estava prevista para às 9h, começou com um pouco de atraso, por volta das 10h e a marcha começo 11h.

