Endividados das bets relatam perdas financeiras e impactos nas famílias

Relatos de apostadores, dados do SUS e manifestações do governo mostram os efeitos das plataformas de apostas online sobre as finanças e o cotidiano de famílias
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Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil

As histórias de pessoas endividadas pelas apostas online ajudam a dimensionar um problema que deixou de ser apenas financeiro. Relatos divulgados nas redes sociais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostram apostadores que perderam grandes quantias, recorreram a empréstimos, acumularam dívidas com bancos, familiares e agiotas e passaram a apostar novamente na tentativa de recuperar o dinheiro perdido. Leia em TVT News.

Em um dos depoimentos, um homem afirma ter realizado 26 mil apostas ao longo de três meses e meio. No período, segundo seu relato, foram cerca de 1,1 mil transferências bancárias e uma perda aproximada de R$ 1,5 milhão. Em outro caso, uma pessoa conta ter apostado R$ 30 mil em apenas um dia e acumulado posteriormente R$ 700 mil em dívidas com agiotas, bancos e pessoas próximas.

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A tentativa de recuperar o dinheiro aparece como parte de um ciclo difícil de interromper. “Quanto mais eu perdia, mais tentava recuperar e quanto mais tentava recuperar, mais perdia”, relata um dos apostadores.

Os depoimentos também mostram consequências que ultrapassam o endividamento. Uma mulher aparece segurando um porta-retrato com a fotografia do filho, que tirou a própria vida após acumular dívidas relacionadas a jogos. Em outro relato, uma mulher faz um alerta a quem ainda não aposta:

“Se você nunca jogou, não jogue, não entre. E se joga, pare, porque isso acaba com a vida de qualquer pessoa”.

Apostas também afetam relações familiares

O impacto das dívidas provocadas pelas apostas também passou a ser abordado pelo presidente Lula em discursos e reuniões. Durante um ato de campanha em Guarulhos (SP), na sexta-feira (18), ele relacionou as apostas ao endividamento e ao comportamento compulsivo.

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No dia seguinte, em Florianópolis (SC), Lula afirmou que as dívidas de jogo podem atingir as relações dentro das famílias. “Quando a pessoa está endividada com dívida de jogo, as pessoas mentem, mulher mente para o marido, marido mente para a mulher, filho e filha mentem para a mãe e para o pai”, declarou.

A preocupação também foi discutida no Palácio do Planalto. Em 1º de setembro, Lula reuniu representantes de diferentes setores para tratar dos efeitos das apostas sobre a saúde, as famílias, a economia e a cultura. Na ocasião, o presidente afirmou que pretendia avaliar os diferentes impactos antes de definir os próximos passos do governo.

SUS registra aumento da procura por atendimento

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que o crescimento das apostas também aumentou a pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo ele, o governo havia inicialmente projetado 600 atendimentos mensais relacionados à dependência em apostas. A demanda, porém, já teria alcançado 100 mil atendimentos por mês.

Embora os homens sejam maioria entre os apostadores, as mulheres representam 55% das pessoas que procuram atendimento, de acordo com Padilha.

O ministro também afirmou que uma proposta de resolução sobre os impactos das apostas está em discussão na Organização Mundial da Saúde (OMS), em uma iniciativa liderada por Brasil, Espanha e Canadá.

Outra possibilidade apresentada é o uso do SUS Digital para solicitar atendimento e iniciar um plano terapêutico para pessoas com dependência em apostas.

Padilha também mencionou as dificuldades de fiscalização diante da existência de plataformas clandestinas e da presença das apostas em campanhas publicitárias. Segundo ele, o governo tentou regular e proibir determinadas práticas, mas enfrenta um cenário com grande quantidade de plataformas e forte exposição publicitária, inclusive com participação de artistas e durante transmissões esportivas.

Apostas como destino de recursos do consumo popular

O impacto econômico das bets foi abordado pelo rapper Emicida durante a reunião no Palácio do Planalto. Para ele, as plataformas funcionam como um “dreno de dinheiro”, retirando recursos que antes poderiam ser destinados ao consumo de produtos e atividades culturais.

Emicida citou como exemplos a compra de ingressos, camisetas e discos. Na avaliação apresentada pelo artista, parte desse dinheiro estaria sendo redirecionada para as plataformas de apostas.

Ele também chamou atenção para consequências que podem aparecer além dos números sobre endividamento. Segundo Emicida, famílias podem assumir novas dívidas para cobrir os prejuízos provocados pelas apostas, enquanto pessoas afetadas podem enfrentar dificuldades relacionadas ao sono.

O rapper defendeu uma ação conjunta entre Estado e sociedade para enfrentar os efeitos das apostas e afirmou ser necessário avançar em medidas mais restritivas.

Jovens estão entre os grupos mais expostos

A facilidade de acesso às plataformas por meio do celular também aparece nas discussões sobre a expansão das bets entre os jovens.

Dados do Unicef citados no material de apoio indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos. A proporção chega a 78% a partir dos 12 anos, segundo dados de 2021 apresentados no levantamento.

No Brasil, uma pesquisa realizada neste ano e divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação ouviu 1.912 estudantes dos ensinos fundamental e médio. Segundo os dados, 9,5% disseram ter feito a primeira aposta aos 11 anos. Entre os estudantes do 3º ano do ensino médio, quase metade afirmou já ter realizado apostas.

Os números colocam a relação dos jovens com as plataformas entre os pontos de atenção do debate sobre os efeitos sociais das bets.

Regulamentação ampliou regras para as plataformas

O governo já adotou medidas para regulamentar o setor. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar.

As regras estabeleceram critérios para autorização e fiscalização das empresas, além de normas sobre tributação, publicidade e proteção dos apostadores.

Em julho deste ano, o governo também ampliou as exigências para a publicidade das apostas. Entre as advertências estabelecidas estão as frases “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” e “Aposta não é investimento”.

As medidas, porém, não encerraram o debate sobre os efeitos das plataformas. A expansão das bets e seus impactos sobre o endividamento e a saúde passaram a integrar as discussões sobre novas ações do governo.

A presença das empresas de apostas na publicidade, no futebol, na comunicação e nas redes sociais também aparece entre os fatores que ampliam a exposição da população às plataformas.

Em Florianópolis, Lula voltou a defender novas medidas diante do cenário. “Eu estou determinado. Não vou permitir que as pessoas continuem se endividando, que as pessoas continuem se matando. Não é possível a gente permitir que a sociedade brasileira se autodestrua”, afirmou.

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