O jornalista e executivo de mídia Erick Bretas comparou publicamente o grau de influência do banqueiro Daniel Vorcaro sobre o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, com a atuação da própria Globo em uma coprodução cinematográfica. A declaração foi feita após a divulgação de novas reportagens da série “Vaza Flávio”, publicada pelo The Intercept Brasil, que revelaram mensagens, contratos e articulações financeiras envolvendo a produção do longa-metragem ligado à família Bolsonaro. Saiba mais na TVT News.
Bretas, que foi diretor responsável pelo Globoplay, afirmou nas redes sociais que o poder atribuído a Vorcaro nas decisões sobre “Dark Horse” ultrapassaria o nível normalmente exercido por um coprodutor em grandes produções audiovisuais.
“Vou contar uma coisa pra vocês: quando estava no Globoplay, eu assinei o cheque da participação da Globo na coprodução do Ainda Estou Aqui. Eu e as pessoas do Globoplay não tínhamos o poder de decisão na estratégia de divulgação do filme do que o Vorcaro tinha no Dark Horse, pelo que essa troca de mensagens revela. Ele mandava mais que um coprodutor”, escreveu.
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A comparação feita pelo ex-executivo da Globo ocorreu após a publicação de uma nova etapa da série investigativa do Intercept, que mostrou conversas entre Vorcaro e o empresário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, discutindo o controle da divulgação pública do filme sobre Bolsonaro.
Mensagens revelam tentativa de controlar divulgação do filme
Segundo a reportagem do Intercept, Vorcaro demonstrou irritação após o Portal Leo Dias publicar, em agosto de 2025, uma reportagem antecipando detalhes da produção de “Dark Horse”, quando o projeto ainda era mantido sob sigilo.
Nas mensagens obtidas pelo veículo, o banqueiro questiona Thiago Miranda sobre a publicação: “Achei que divulgar que tá fazendo o filme muito ruim, não acha?”. Miranda responde dizendo que “tinham combinado de não divulgar nada” e afirma que pediria a retirada da matéria do ar.
Pouco depois, a reportagem foi apagada do portal.
As conversas mostraram ainda referências diretas a Flávio Bolsonaro e ao deputado federal Mario Frias, apontados nas investigações como integrantes do núcleo de articulação do projeto cinematográfico.
Para Bretas, o conteúdo das mensagens sugere que Vorcaro não atuava apenas como financiador da produção, mas exercia influência direta sobre decisões estratégicas relacionadas à comunicação do filme.
Eduardo Bolsonaro no centro da gestão financeira
As novas revelações surgem após outra reportagem da série “Vaza Flávio” apontar que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro teria exercido funções de produtor-executivo do longa-metragem.
Documentos obtidos pelo Intercept indicam que Eduardo assinou contratos que lhe atribuíam participação em decisões ligadas ao financiamento, orçamento e captação de investidores para o filme, inicialmente chamado de “O Capitão do Povo”.
O material contradiz declarações públicas do parlamentar, que havia afirmado nas redes sociais ter apenas cedido os direitos de imagem relacionados à própria participação na história da família Bolsonaro.
Segundo os contratos revelados, Eduardo e Mario Frias teriam responsabilidades conjuntas com a produtora Go Up Entertainment sobre estratégias financeiras da produção, incluindo busca de investidores, incentivos fiscais, patrocínios e organização dos aportes financeiros.
Mensagens divulgadas pelo Intercept também mostram Eduardo discutindo mecanismos para transferir recursos aos Estados Unidos. Em um dos diálogos, ele afirma que “o ideal seria haver os recursos já nos EUA” e sugere acelerar remessas internacionais para evitar entraves regulatórios.
PF investiga destino de recursos milionários
As reportagens do Intercept desencadearam novas frentes de apuração na Polícia Federal, no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal de Contas da União.
Segundo as investigações, o banqueiro Daniel Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para financiar “Dark Horse”. Parte desses recursos teria sido transferida para o fundo offshore Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e administrado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
A PF apura se parte do dinheiro utilizado para o filme também teria servido para custear despesas pessoais de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde o ex-deputado passou a viver após se licenciar do mandato.
As investigações também analisam o papel da empresa Entre Investimentos e Participações, apontada como intermediária nas remessas financeiras ligadas ao projeto cinematográfico.
Filme também é alvo de apuração sobre emendas e contrato de wi-fi
Outra frente de investigação envolve o Instituto Conhecer Brasil, comandado pela empresária Karina Ferreira da Gama, também sócia da Go Up Entertainment.
A ONG é investigada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil por suspeitas de irregularidades em um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de pontos de wi-fi em periferias da capital paulista.
Além disso, o ministro Flávio Dino determinou abertura de apuração preliminar para investigar possível direcionamento de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e a projetos relacionados ao filme.
Mario Frias, que atua como produtor-executivo e roteirista de “Dark Horse”, destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares à entidade.
Comparação de Bretas amplia desgaste público
O comentário de Erick Bretas ganhou repercussão porque partiu de um executivo com experiência direta em grandes coproduções audiovisuais brasileiras. Ao citar sua atuação no filme Ainda Estou Aqui, Bretas procurou destacar que, em modelos tradicionais de mercado, investidores e coprodutores normalmente não exercem controle direto sobre estratégias editoriais e de divulgação pública.
A observação reforçou as suspeitas levantadas nas investigações e ampliou o desgaste político em torno do projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro e financiado pelo banqueiro investigado pela PF por supostos crimes financeiros, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
