O deputado federal Mário Frias (PL-SP) passou a enfrentar questionamentos sobre contradições e falta de clareza nas explicações dadas para sua viagem internacional ao Bahrein e aos Estados Unidos. O caso ganhou dimensão após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinar que a Câmara dos Deputados esclareça, em até 48 horas, a situação funcional do parlamentar fora do país. Saiba mais na TVT News.
A crise se agravou porque Frias é alvo de uma apuração preliminar no STF relacionada ao envio de R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Além disso, oficiais de Justiça tentam há mais de um mês intimar o parlamentar para que ele apresente esclarecimentos no processo, mas não conseguiram localizá-lo nem no gabinete da Câmara nem nos endereços fornecidos oficialmente.
“Agenda oficial” virou múltiplas versões
Horas depois da decisão de Flávio Dino, Mário Frias publicou mensagem nas redes sociais afirmando que estava em “agenda oficial” no exterior, com conhecimento do presidente da Câmara, Hugo Motta.
“Estou em agenda oficial, com conhecimento do meu presidente Hugo Motta. Chegarei ao Brasil dia 25 de maio”, escreveu o deputado.
A declaração, porém, foi colocada em dúvida após informações divulgadas pela própria Câmara. Segundo a Casa, Frias apenas apresentou pedidos de afastamento para missões internacionais “sem ônus” ao Legislativo, mas nenhum deles havia sido formalmente autorizado até o momento.
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Um dos pedidos tratava de viagem ao Bahrein entre os dias 12 e 18 de maio. O segundo previa deslocamento para Dallas, no Texas, entre 19 e 21 de maio.
Na prática, o procedimento apresentado pelo parlamentar corresponde inicialmente apenas a uma comunicação administrativa. A autorização depende de deliberação posterior da Câmara, o que ainda não ocorreu.
A própria nota oficial evitou confirmar que Frias estivesse efetivamente em missão oficial autorizada.
Diferença de datas amplia dúvidas
Outro ponto que passou a chamar atenção foi a divergência entre as datas divulgadas pela Câmara e aquelas anunciadas pelo próprio deputado.
Enquanto a Casa Legislativa informou que a agenda nos Estados Unidos ocorreria até 21 de maio, Frias afirmou publicamente que retornaria apenas no dia 25.
A coincidência da permanência nos EUA com a viagem do senador Flávio Bolsonaro ao país levantou questionamentos sobre possíveis compromissos políticos paralelos não informados oficialmente.
O cenário aumentou a pressão porque Mário Frias aparece no centro das investigações relacionadas ao financiamento do filme “Dark Horse”, alvo de reportagens da série “Vaza Flávio”, publicada pelo The Intercept Brasil.
As reportagens revelaram mensagens, contratos e negociações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, apontado como principal financiador do longa-metragem sobre Bolsonaro.
Segurança pública, investimentos e Bahrein
À medida que aumentavam os questionamentos sobre a viagem, Mário Frias passou a apresentar justificativas diferentes para sua permanência no exterior.
Em entrevista ao SBT News, o parlamentar afirmou que esteve no Bahrein para “propor investimentos no Brasil” e que, posteriormente, seguiu para os Estados Unidos para “prospecção de investimento em segurança pública”.
“Como deputado, estive agora no Bahrein propondo alguns investimentos no Brasil e agora estou nos Estados Unidos para fazer também uma prospecção de um investimento em segurança pública”, declarou.
As novas versões passaram a ser confrontadas com a justificativa inicialmente apresentada à Câmara, segundo a qual a viagem aos EUA ocorreu a convite do grupo Yes Brazil USA.
A organização é conhecida pela atuação política junto à comunidade bolsonarista nos Estados Unidos e já promoveu eventos com Jair Bolsonaro na Flórida.
O perfil do grupo passou a gerar dúvidas sobre a coerência da justificativa apresentada por Frias. Isso porque o Yes Brazil USA não possui histórico institucional ligado a segurança pública, relações diplomáticas ou desenvolvimento econômico.
STF tenta intimar deputado há mais de um mês
As inconsistências sobre a viagem surgem paralelamente à dificuldade do STF em localizar o deputado Mário Frias para notificações judiciais.
Segundo registros do processo, oficiais de Justiça fizeram ao menos cinco tentativas de contato com Mário Frias.
O gabinete do parlamentar informou inicialmente que ele estava em “missão internacional” e sem previsão de retorno. Em outra diligência, um porteiro do prédio indicado como residência do deputado afirmou que Frias não mora no local há cerca de dois anos.
Diante da situação, Flávio Dino determinou que a Câmara esclareça detalhes da viagem de Mário Frias, incluindo duração, custos, pagamentos e situação funcional do parlamentar durante o período no exterior.
Emendas e filme de Bolsonaro
Mário Frias é apontado como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro financiada com recursos articulados junto a Daniel Vorcaro, segundo documentos e mensagens divulgados pelo Intercept.
As investigações também apuram o envio de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, presidido pela empresária Karina Ferreira da Gama.
A entidade está ligada à Go Up Entertainment, responsável pelo longa-metragem.
O caso chegou ao STF após representação da deputada Tabata Amaral, que pediu investigação sobre possível desvio de finalidade no uso das emendas.
Na última semana, Flávio Dino determinou abertura de apuração preliminar sobre repasses parlamentares a organizações relacionadas à produção do filme.
Enquanto isso, o deputado bolsonarista Mário Frias mantém o discurso de que não há irregularidades nas emendas enviadas à ONG e afirma estar “à disposição da Justiça” para prestar esclarecimentos.

