“Exigiam uma capitulação”, diz chanceler ao reagir a novo tarifaço dos EUA

Mauro Vieira afirma que tarifas impostas por Donald Trump não têm justificativa comercial, acusa Washington de tentar interferir no Judiciário brasileiro e rebate críticas ao Pix
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"Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix", afirmou. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, elevou nesta quinta-feira (16) o tom da resposta do governo brasileiro ao novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra produtos nacionais. Em declaração à imprensa, o chanceler afirmou que ao novo tarifaço de 25% anunciado pela administração de Donald Trump não possuem justificativa comercial, acusou Washington de utilizar argumentos “sem lastro na realidade” e afirmou que, durante as negociações, os Estados Unidos chegaram a exigir do Brasil o que classificou como uma “capitulação”. Saiba mais na TVT News.

“Em outras palavras, exigiam uma capitulação”, afirmou Vieira ao relatar as demandas apresentadas pelos negociadores norte-americanos. Segundo ele, Washington pretendia obter “abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros”.

A declaração representa a manifestação mais contundente do Itamaraty desde que o governo Trump confirmou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, aprofundando a disputa comercial entre os dois países. A medida foi adotada após investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana.

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Vieira rejeitou a própria legitimidade do procedimento. Segundo ele, investigações baseadas na Seção 301 constituem mecanismos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não justificam sanções comerciais contra o Brasil.

“O governo dos Estados Unidos anunciou sua decisão de aplicar tarifas de 25% contra produtos brasileiros como resultado da investigação da Seção 301. As investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros”, declarou.

Brasil diz que negociou desde antes do primeiro tarifaço

O ministro também rebateu diretamente a narrativa apresentada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, de que o governo brasileiro não teria negociado de boa-fé.

Segundo Vieira, Brasília manteve diálogo permanente com Washington desde antes mesmo da primeira rodada de tarifas anunciada em abril de 2025.

De acordo com o chanceler, foram realizadas mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades brasileiras e norte-americanas em diferentes níveis de governo. Apenas com o secretário Marco Rubio e com o representante comercial Jamieson Greer ocorreram 11 contatos, incluindo reuniões entre os presidentes dos dois países.

“O Brasil está, portanto, negociando com os Estados Unidos desde antes do tarifaço original”, afirmou.

Ele lembrou ainda que, no próprio dia 2 de abril de 2025, horas antes do anúncio das primeiras tarifas, manteve conversa telefônica com Jamieson Greer na tentativa de evitar o agravamento da disputa.

Chanceler acusa Trump de motivação política

Vieira afirmou que a escalada das tarifas deixou de ter caráter comercial após a carta enviada por Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho de 2025.

Segundo ele, o documento condicionava a retirada das tarifas de 50% à interrupção do processo judicial envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para o ministro, a exigência caracterizou uma tentativa explícita de interferência nas instituições brasileiras.

“As tarifas foram elevadas a 50%, por expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro”, afirmou.

O chanceler observou ainda que foi justamente nessa carta que Trump determinou a abertura da investigação baseada na Seção 301, posteriormente utilizada como fundamento jurídico para a nova rodada de sanções comerciais.

“Rubio ataca de forma grosseira e arrogante”

Mauro Vieira também respondeu às declarações publicadas por Marco Rubio nas redes sociais logo após o anúncio das novas tarifas.

O ministro classificou as manifestações como “inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro”.

Segundo ele, Rubio “ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo”.

Na avaliação do chanceler, o verdadeiro motivo do endurecimento norte-americano é o fato de o governo brasileiro não ter aceitado as exigências apresentadas durante as negociações.

“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações”, declarou.

Governo rebate críticas ao Pix e ao desmatamento

Vieira dedicou parte da declaração a responder os argumentos utilizados pelo USTR para justificar as novas tarifas.

Em relação ao Pix, alvo de críticas da investigação comercial norte-americana, o ministro afirmou que as alegações são “descabidas”.

Segundo ele, o sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central constitui infraestrutura pública aberta a todas as instituições financeiras que atuam no país.

“Não é sério falar em competição desleal gerada pelo Pix”, afirmou.

O chanceler também rejeitou as acusações relacionadas à política ambiental brasileira.

“As acusações sobre desmatamento também são absurdas”, declarou, lembrando que os índices de destruição da Amazônia e do Cerrado registraram queda significativa desde 2022.

Para o ministro, os exemplos demonstram que os fundamentos apresentados pelos Estados Unidos não correspondem aos fatos.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade”, afirmou.

Itamaraty destaca superávit dos EUA

Outro ponto enfatizado por Mauro Vieira foi o histórico da balança comercial entre os dois países.

Segundo ele, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, o que, na avaliação do governo brasileiro, enfraquece qualquer argumento de prejuízo econômico provocado pela relação comercial bilateral.

O ministro acrescentou que, apenas em 2025, cerca de 76% das importações provenientes dos Estados Unidos ingressaram no Brasil sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos exportados pelos norte-americanos ao mercado brasileiro.

Ao encerrar a declaração, Vieira reiterou que o governo brasileiro participou de todas as etapas da investigação conduzida pelo USTR, apresentou duas defesas formais e manteve negociações em alto nível ao longo de todo o processo. Para o chanceler, porém, a decisão anunciada por Washington não decorreu de critérios técnicos nem econômicos.

“Não houve, portanto, racionalidade na aplicação de tarifas”, concluiu.

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