Fachin define André Mendonça como relator de pedido para investigar Flávio Bolsonaro no caso “Dark Horse”

Presidente do STF seguiu parecer da área técnica e da PGR ao escolher relator da investigação "Dark Horse" que envolve Flávio Bolsonaro
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Flávio teria recebido pelo menos 10 milhões de dólares do dono do Master para produção de Dark Horse. Foto: Ton Molina /Agência Senado

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, decidiu que o ministro André Mendonça será o relator da notícia-crime que pede a investigação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por sua suposta relação com o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e com as investigações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. Leia em TVT News.

A decisão foi tomada após manifestação da área técnica do Supremo e da Procuradoria-Geral da República (PGR), que defenderam que o caso fosse encaminhado ao gabinete de Mendonça em razão da existência de outros procedimentos considerados conexos já sob sua relatoria.

Na decisão, Fachin afirmou que “as circunstâncias justificam a redistribuição destes autos, por parâmetro de prevenção, ao Ministro André Mendonça”.

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O pedido de investigação foi apresentado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) e busca apurar uma possível ligação entre os recursos destinados ao filme Dark Horse, as investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas envolvendo o Banco Master, e a atuação internacional do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro. O documento também menciona uma suposta participação do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A notícia-crime havia sido inicialmente protocolada no inquérito relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, responsável pela investigação sobre a atuação de Eduardo Bolsonaro no exterior. No entanto, Moraes determinou o desmembramento da petição e encaminhou o caso à Presidência do STF para que fosse definida a relatoria.

Antes de tomar a decisão, Fachin solicitou esclarecimentos à Secretaria Judiciária do Supremo. Após consulta aos sistemas da Corte, o setor informou que já existiam duas petições relacionadas aos valores destinados ao filme Dark Horse distribuídas por prevenção ao gabinete de André Mendonça desde maio deste ano.

O entendimento também foi acompanhado pela Procuradoria-Geral da República, que avaliou que os fatos apresentados por Lindbergh Farias possuem relação com investigações em andamento conduzidas por Mendonça, especialmente aquelas ligadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro.

A decisão de Fachin não representa abertura automática de investigação nem analisa o mérito das acusações. A medida apenas define qual ministro ficará responsável por examinar a notícia-crime e decidir os próximos passos processuais. Caberá agora a André Mendonça avaliar se determina diligências, solicita nova manifestação da PGR, autoriza a abertura de investigação ou rejeita os pedidos apresentados.

O que é investigado no caso Dark Horse

Flávio pediu dinheiro para Vorcaro do Banco Master para financiamento de Dark Horse, filme sobre seu pai – Foto: Jefferson Rudy_Agência Senado e Policia Federal

O caso ganhou repercussão nacional após reportagens revelarem que Flávio Bolsonaro teria buscado recursos junto ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção do filme Dark Horse, obra que conta a trajetória política de Jair Bolsonaro.

Segundo reportagem publicada pelo The Intercept Brasil, mensagens privadas, áudios, comprovantes bancários e cronogramas de pagamento indicariam uma negociação de aproximadamente US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, para custear a produção cinematográfica.

Os documentos apontam que ao menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, teriam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para o projeto.

Entre os materiais divulgados está uma mensagem enviada por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro em novembro de 2025.

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”, escreveu o senador.

Também veio a público um áudio em que Flávio demonstra preocupação com atrasos nos repasses destinados ao filme.

“Eu fico sem graça de ficar te cobrando, está em um momento muito decisivo aqui do filme. Tem muita parcela para trás, está todo mundo tenso”, afirma o senador na gravação divulgada pela imprensa.

No mesmo áudio, Flávio menciona compromissos assumidos com integrantes internacionais da produção.

“Imagina a gente dando calote no Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos do cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim.”

Segundo o The Intercept, as negociações envolveriam também Eduardo Bolsonaro e o ex-secretário especial de Cultura Mario Frias.

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Reprodução da conversa com o pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro, do Banco Master, obtida pelo Intercet. O dinheiro seria para a produção do filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, “Dark Horse” Reprodução / Intercept

Flávio admite contato com Vorcaro

Após negar inicialmente as informações divulgadas pela imprensa, Flávio Bolsonaro reconheceu posteriormente que procurou Daniel Vorcaro para buscar patrocínio privado destinado ao filme sobre seu pai.

Em nota, o senador afirmou que a conversa ocorreu “exclusivamente no contexto da busca de patrocínio privado para o filme Dark Horse”.

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“O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, declarou.

Na mesma manifestação, Flávio defendeu a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master, afirmando que ela seria necessária para “separar os inocentes dos bandidos”.

Diferenças entre os valores divulgados

As investigações ganharam novos elementos após documentos anexados a outro processo indicarem que o custo declarado da produção foi inferior ao montante discutido nas conversas reveladas pela imprensa.

Segundo perícia privada anexada aos autos de investigação envolvendo a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme, Dark Horse teria custado pouco mais de R$ 75 milhões.

O valor é significativamente inferior aos cerca de R$ 134 milhões mencionados nas negociações atribuídas a Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.

A perícia aponta que aproximadamente R$ 54,2 milhões foram gastos nos Estados Unidos e outros R$ 20,9 milhões no Brasil.

Também informa que Daniel Vorcaro teria destinado cerca de US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, ao projeto por meio da empresa Entrepay.

O relatório afirma que os recursos analisados possuíam origem privada e estavam respaldados por contratos e documentos financeiros apresentados pela produtora.

Apesar disso, permanecem questionamentos levantados pelas investigações sobre a diferença entre os valores efetivamente declarados pela produtora e aqueles mencionados nos documentos obtidos pelo The Intercept Brasil.

Banco Master é alvo de investigações

O caso também se conecta às investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes financeiros, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e violação de sigilo funcional.

Segundo as investigações, o esquema teria provocado prejuízo superior a R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

O processo passou a tramitar no STF após surgirem indícios de envolvimento de autoridades com foro privilegiado.

As investigações também apuram a existência de uma estrutura paralela destinada ao monitoramento e intimidação de adversários, incluindo jornalistas e ex-funcionários.

Foi justamente em razão dessas apurações que a Procuradoria-Geral da República considerou haver conexão entre a notícia-crime apresentada por Lindbergh Farias e os procedimentos já conduzidos por André Mendonça.

Próximos passos

Com a redistribuição determinada por Edson Fachin, André Mendonça passa a concentrar tanto os procedimentos relacionados ao Banco Master quanto a notícia-crime envolvendo o financiamento de Dark Horse.

O ministro deverá analisar se os elementos apresentados justificam a adoção de medidas investigativas, a solicitação de novas informações ou eventual arquivamento do pedido.

A definição da relatoria representa um novo capítulo das investigações que envolvem Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro, o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro e possíveis conexões entre recursos privados, o Banco Master e personagens do entorno do ex-presidente.

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