O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu duramente à ameaça de um novo tarifaço dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Em nota divulgada nesta terça-feira (2), o Palácio do Planalto manifestou “indignação” diante da conclusão preliminar da investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), que poderá resultar na imposição de tarifas adicionais de 25% sobre exportações brasileiras a partir de julho. Saiba mais na TVT News.
A resposta brasileira ocorre após o governo de Donald Trump avançar mais uma etapa na investigação baseada na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento frequentemente utilizado por Washington para justificar sanções comerciais unilaterais. O tarifaço é sustentado por acusações de supostas práticas comerciais desleais do Brasil, envolvendo temas como o Pix, acordos tarifários do Mercosul, políticas ambientais e até decisões do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na avaliação do governo brasileiro, porém, o tarifaço não possui fundamento econômico ou jurídico e está associado a interesses políticos ligados ao bolsonarismo.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
“A investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país”, afirma a nota oficial.
O Planalto também acusa aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro de atuarem diretamente para favorecer a escalada das tensões comerciais entre os dois países.
“Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, acrescenta o documento.
A manifestação reforça críticas já feitas por Lula após a visita do senador Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. Para o governo brasileiro, as articulações da família Bolsonaro junto à Casa Branca contribuíram para inviabilizar avanços nas negociações que buscavam justamente evitar o tarifaço.
Governo afirma que tarifaço é injustificável
Ao longo da nota, o governo insiste que não existe qualquer justificativa para a aplicação do tarifaço contra o Brasil.
“Não havia e não há justificativa para essas medidas unilaterais contra o nosso país ou contra patrimônios brasileiros como o Pix”, afirma o texto.
O governo destaca que os Estados Unidos acumulam há anos expressivos superávits comerciais nas relações com o Brasil, desmontando o argumento de que haveria prejuízo aos interesses econômicos norte-americanos.
Segundo dados citados na nota, os EUA registraram superávit de US$ 424,5 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil entre 2011 e 2025.
Somente no ano passado, o saldo favorável aos norte-americanos alcançou US$ 40,52 bilhões quando considerados bens e serviços.
Diante desses números, o Planalto sustenta que o tarifaço possui motivação essencialmente política.
“O principal efeito das tarifas unilaterais, politicamente motivadas, aplicadas ao nosso país tem sido impor danos à economia nacional e à geração de emprego e renda”, afirma a nota.
O governo também chama atenção para a redução da importância dos Estados Unidos como destino das exportações brasileiras. No primeiro trimestre de 2026, a participação norte-americana nas vendas externas do Brasil caiu para 9,4%, o menor percentual da série histórica.
Defesa do Pix ganha destaque na reação brasileira
Um dos principais alvos do tarifaço anunciado por Trump é o Pix, sistema público de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central.
O governo brasileiro dedicou parte significativa da nota à defesa da plataforma, que se tornou um símbolo da soberania tecnológica e financeira do país.
Segundo o Planalto, as acusações norte-americanas ignoram o caráter público, universal e não discriminatório do sistema.
“O Pix é infraestrutura pública e gratuita de pagamentos instantâneos, operada pelo Banco Central do Brasil e de grande aceitação pela população”, destaca o texto.
A nota acrescenta que empresas dos Estados Unidos atuam normalmente dentro do ecossistema de pagamentos brasileiro e que não existe qualquer restrição à atuação das chamadas big techs ou das grandes bandeiras de cartões de crédito.
Ao rebater o argumento central do tarifaço, o governo afirma que o Brasil é atualmente o segundo maior mercado mundial das duas maiores operadoras de cartões norte-americanas.
Brasil rebate críticas sobre meio ambiente e corrupção
A nota também responde aos demais argumentos utilizados pelo governo Trump para justificar o tarifaço.
No campo ambiental, o Planalto lembra que o governo Lula estabeleceu a meta de zerar o desmatamento até 2030 e aponta resultados expressivos desde 2023.
Segundo o documento, o desmatamento na Amazônia Legal foi reduzido em cerca de 50% em relação aos níveis observados em 2022. Além disso, dados recentes indicam que o desmatamento total nos seis biomas brasileiros atingiu em 2025 o menor patamar dos últimos sete anos.
Já em relação às acusações sobre corrupção, o governo afirma que o país possui uma estrutura legal robusta e alinhada aos principais tratados internacionais de combate a crimes dessa natureza.
Governo mantém negociações, mas ameaça reagir ao tarifaço
Apesar da forte reação, o governo Lula afirma que continuará buscando uma solução negociada para evitar a implementação do tarifaço.
De acordo com a nota, as conversas iniciadas após a reunião entre Lula e Trump realizada em Washington, no dia 7 de maio, seguem em andamento.
“Estão em curso negociações tarifárias entre os dois países em busca de soluções que resultem no encerramento da investigação da Seção 301 sem imposição de medidas contra o Brasil”, informa o texto.
Ao mesmo tempo, o governo deixa claro que poderá responder caso o tarifaço seja efetivamente implementado.
“O Brasil se reserva o direito de recorrer aos instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional”, destaca a nota.
A legislação autoriza o país a adotar medidas equivalentes contra parceiros comerciais que imponham restrições consideradas injustas ou incompatíveis com as regras internacionais.
No encerramento da manifestação, o Planalto reafirma a defesa da soberania nacional e volta a associar o avanço do tarifaço à atuação de setores da extrema direita brasileira.
“É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”, conclui o governo.
Com pouco mais de um mês até o prazo final estabelecido pelo USTR, o futuro do tarifaço permanece em aberto. Enquanto Brasília tenta preservar as negociações diplomáticas, cresce a preocupação de setores produtivos com os impactos que uma nova rodada de sanções comerciais dos Estados Unidos poderá provocar sobre a economia, os empregos e a renda dos brasileiros.
