Havengate: qual é o fundo que liga Vorcaro, Flávio e Eduardo Bolsonaro

Fundo offshore registrado no Texas tornou-se peça central das investigações sobre os repasses milionários ligados ao filme “Dark Horse”
Ao menos parte dos US$ 10,6 milhões para financiar “Dark Horse” teria passado pela estrutura offshore nos EUA. Foto: Andressa Anholete/Agência Senado Marcelo Camargo/Agência Brasil/Banco Master/Divulgação

O fundo offshore Havengate Development Fund LP, registrado no estado do Texas, nos Estados Unidos, tornou-se um dos principais focos das investigações que apuram a relação entre o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e a família Bolsonaro. O veículo financeiro aparece no centro das suspeitas sobre a transferência de recursos destinados oficialmente ao filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que agora também levantam questionamentos sobre eventual financiamento indireto da permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Saiba mais na TVT News.

A nova linha investigativa da Polícia Federal ganhou força após reportagens do site The Intercept Brasil revelarem documentos, contratos, comprovantes de pagamento e trocas de mensagens envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, Vorcaro, empresas ligadas ao grupo Entre Investimentos e o fundo americano Havengate.

Segundo as apurações, ao menos parte dos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões na cotação da época — transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar “Dark Horse” teria passado pela estrutura offshore sediada nos Estados Unidos.

Flávio Bolsonaro nega qualquer desvio de finalidade dos recursos. Em entrevista à GloboNews, o senador afirmou que todo o dinheiro recebido foi destinado exclusivamente à produção cinematográfica.

“Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, declarou o parlamentar.

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A declaração, porém, passou a ser confrontada por novos documentos revelados posteriormente pelo Intercept. Segundo a reportagem, Eduardo Bolsonaro assinou contratos ligados diretamente à produção do longa-metragem e exerceu funções executivas na estrutura do projeto, contrariando declarações públicas anteriores em que afirmava ter apenas cedido seus direitos de imagem.

O contrato citado pela reportagem, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente em janeiro de 2024, aponta a empresa GoUp Entertainment como produtora da obra e coloca Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias como produtores-executivos do filme.

Os documentos ampliaram as suspeitas sobre a verdadeira função do Havengate dentro da engrenagem financeira que sustentou o projeto cinematográfico.

O que é o Havengate

O Havengate Development Fund LP é um fundo offshore registrado no Texas. Nos registros públicos americanos, o fundo aparece vinculado ao escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, administrado pelo advogado Paulo Calixto.

Calixto atua há mais de duas décadas nos Estados Unidos e é conhecido por sua proximidade com Eduardo Bolsonaro, especialmente em questões migratórias e empresariais ligadas à permanência do ex-deputado no país.

Os documentos públicos mostram ainda que o Havengate possui como empresa gestora a Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial do escritório de Calixto, em Dallas. A sociedade tem como integrantes o próprio advogado e o corretor de imóveis Altieris Santana.

Santana afirma em seu perfil profissional ter atuado anteriormente no setor bancário em Miami, incluindo passagens pelo Banco Espírito Santo e Banco do Brasil.

A ligação entre o fundo offshore e aliados próximos de Eduardo Bolsonaro passou a ser tratada por investigadores como um dos principais elementos a serem aprofundados.

A rota do dinheiro

Segundo os documentos obtidos pelo Intercept Brasil, os recursos ligados a Vorcaro teriam sido enviados inicialmente pela empresa Entre Investimentos e Participações, comandada pelo empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”.

A empresa aparece no radar da Polícia Federal em investigações sobre lavagem de dinheiro, fraudes financeiras e operações consideradas suspeitas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Relatórios do Coaf classificaram movimentações da Entre como indicativas de “conta de passagem”, expressão utilizada para descrever estruturas usadas para circular dinheiro sem relação clara com a atividade econômica declarada.

A PF investiga se a Entre foi utilizada como intermediária para remeter valores ao exterior após dificuldades operacionais enfrentadas pelo próprio Banco Master para executar transferências internacionais.

Mensagens obtidas pelos investigadores indicam que Vorcaro teria orientado operadores financeiros a realizar os pagamentos “via Entre”, o que acabou direcionando os recursos para o fundo Havengate nos Estados Unidos.

A partir daí, investigadores passaram a questionar quem seriam os verdadeiros beneficiários finais da estrutura financeira.

Eduardo no centro das suspeitas

Eduardo Bolsonaro nega ter recebido recursos do fundo ou ter exercido controle sobre a estrutura financeira utilizada no projeto. Em manifestações públicas, afirmou que apenas participou do início da produção do filme e posteriormente deixou a gestão da obra.

“Passei então a ser somente uma pessoa que assinou sua cessão de direitos autorais”, afirmou.

As investigações, no entanto, ocorrem paralelamente ao acompanhamento da permanência de Eduardo nos Estados Unidos.

O ex-deputado vive no país desde fevereiro de 2025. Na semana passada, a Procuradoria-Geral da República pediu sua condenação por coação no curso do processo, acusando-o de articular, do exterior, ações para pressionar autoridades brasileiras e interferir no julgamento envolvendo Jair Bolsonaro.

Em 2025, o próprio Jair Bolsonaro transferiu R$ 2 milhões ao filho nos Estados Unidos, movimentação que o Supremo Tribunal Federal considerou indício relevante da articulação política e financeira entre pai e filho.

Agora, investigadores tentam esclarecer se parte dos recursos ligados ao Havengate também pode ter servido para sustentar despesas pessoais ou políticas de Eduardo Bolsonaro em território americano.

Cooperação internacional e dificuldades de rastreamento

Especialistas ouvidos por veículos de imprensa destacam que fundos offshore como o Havengate são estruturas complexas justamente porque dificultam a identificação dos beneficiários reais dos recursos.

Os Estados Unidos não aderiram ao sistema internacional CRS, mecanismo da OCDE que prevê troca automática de informações financeiras entre países. Isso torna mais difícil para autoridades brasileiras acessarem dados bancários de estrangeiros que movimentam recursos em solo americano.

Para avançar nas investigações, o Supremo Tribunal Federal poderá depender de pedidos formais de cooperação internacional entre Brasil e Estados Unidos, via Departamento de Justiça americano (DOJ), utilizando os mecanismos previstos no tratado MLAT.

A eventual quebra de sigilo bancário do Havengate dependeria de autorização judicial nos dois países.

Enquanto isso, a crise política provocada pelas revelações continua ampliando o desgaste da pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Pesquisas recentes já apontam queda nas intenções de voto do senador após a divulgação dos áudios e documentos envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master e o financiamento do filme “Dark Horse”.


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