A diferença entre nascer em um município ou outro da Região Metropolitana de São Paulo pode significar viver, em média, 16 anos a mais ou a menos. Esse é um dos retratos mais contundentes apresentados pelo primeiro Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo, divulgado nesta quinta-feira (6) pela Rede Nossa São Paulo e pelo Instituto Cidades Sustentáveis. Saiba mais na TVT News.
O levantamento, considerado inédito por reunir indicadores específicos para os 39 municípios da Grande São Paulo, analisou 40 indicadores distribuídos em nove áreas – saúde, educação, segurança pública, habitação, transporte e mobilidade, infraestrutura, meio ambiente, cultura e pobreza, trabalho e renda – para medir como o acesso a direitos e serviços públicos varia entre cidades que compartilham a mesma dinâmica econômica e urbana.
Com mais de 21 milhões de habitantes, a Região Metropolitana de São Paulo concentra a maior economia do país, mas os dados mostram que a riqueza produzida convive com desigualdades territoriais profundas.
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São Caetano lidera; capital aparece apenas em 16º lugar
Na classificação geral do estudo, São Caetano do Sul, no ABC Paulista, aparece como o município com melhor desempenho, somando 29 pontos. O ranking é seguido por Santana de Parnaíba (27,6), Ribeirão Pires (27,3), Vargem Grande Paulista (25,7) e Poá (25,6).

Na outra ponta da lista estão os municípios com piores resultados gerais:
- Pirapora do Bom Jesus – 17,0 pontos;
- Francisco Morato – 18,1 pontos;
- Juquitiba – 20,1 pontos;
- Itapecerica da Serra – 20,1 pontos;
- Embu das Artes – 20,4 pontos.
A cidade de São Paulo, apesar de concentrar grande parte da infraestrutura, dos empregos e da produção econômica da região, aparece apenas na 16ª posição, com 23,5 pontos.
Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que o ranking não significa que os municípios mais bem colocados apresentem bons resultados em todos os indicadores. Mesmo cidades no topo da classificação ainda enfrentam desafios importantes em áreas específicas.

CEP influencia até quanto tempo se vive
Entre todos os indicadores analisados, a diferença na idade média ao morrer é considerada uma das evidências mais fortes das desigualdades metropolitanas.
Em São Caetano do Sul, a população vive, em média, 76 anos. Já em Francisco Morato, a média é de apenas 60 anos.
A distância entre as duas cidades é de pouco mais de 60 quilômetros, mas a diferença na longevidade chega a 16 anos.
O levantamento mostra ainda que apenas São Caetano do Sul e Santo André registram idade média ao morrer superior a 70 anos. A capital paulista aparece logo atrás, com média de 69 anos, enquanto outras 14 cidades apresentam expectativa inferior a 65 anos.
Segundo os organizadores, o dado sintetiza como fatores como renda, acesso aos serviços públicos, infraestrutura urbana, saneamento, transporte e condições de moradia impactam diretamente a qualidade de vida da população.
Vacinação também revela desigualdade
Outro indicador que chama atenção é a cobertura vacinal.
Enquanto Vargem Grande Paulista imunizou 99,8% da população-alvo, Rio Grande da Serra registrou cobertura de apenas 29%.
Também aparecem entre os menores índices:
- São Lourenço da Serra – 32%;
- Jandira – 34%.
Na maior parte dos municípios analisados, a cobertura permanece abaixo dos níveis considerados ideais para garantir proteção coletiva.
Além da vacinação, o estudo também analisou mortalidade infantil, mortalidade materna, desnutrição infantil, gravidez na adolescência e indicadores com recorte racial.
Saneamento continua sendo um dos maiores gargalos
Os dados mostram que o acesso ao saneamento básico permanece extremamente desigual na região metropolitana.
Na rede de esgoto, Poá, Santo André e Taboão da Serra alcançam atendimento universal.
Já Juquitiba possui cobertura de apenas 19,5% da população.
O abastecimento de água também apresenta diferenças significativas.
Onze municípios oferecem atendimento integral, enquanto São Lourenço da Serra e Juquitiba atendem somente cerca de metade dos moradores.
A coleta seletiva segue a mesma lógica.
Há cidades com cobertura praticamente universal, enquanto municípios como Suzano, onde apenas 1,7% da população possui acesso ao serviço, e São Lourenço da Serra, com apenas 3%, figuram entre os piores desempenhos.
Mauá concentra maior percentual de moradores em favelas
Na área da habitação, o estudo evidencia forte concentração da vulnerabilidade urbana.
Mauá lidera o percentual de moradores vivendo em favelas e comunidades urbanas, com 27,5% da população, o equivalente a aproximadamente 115 mil pessoas.
Na sequência aparecem:
- Itaquaquecetuba – 24,7%;
- Diadema – 22,3%.
Na capital paulista, cerca de 15% dos moradores vivem em favelas ou comunidades urbanas.
Em contraste, sete municípios não registraram moradores vivendo nesses territórios segundo a metodologia utilizada pelo levantamento:
- Guararema;
- Juquitiba;
- Salesópolis;
- Santa Isabel;
- São Caetano do Sul;
- São Lourenço da Serra;
- Vargem Grande Paulista.
Mobilidade pesa principalmente para trabalhadores pobres
O deslocamento diário até o trabalho também aparece como um importante fator de desigualdade.
Entre os moradores com renda inferior a meio salário mínimo, 37% dos paulistanos gastam mais de uma hora apenas para chegar ao emprego.
O pior desempenho é de Francisco Morato, onde 52% dos trabalhadores de baixa renda enfrentam viagens superiores a 60 minutos.
Em seguida aparecem:
- Ferraz de Vasconcelos – 42%;
- Embu das Artes – 39%;
- São Paulo – 37%.
Na outra ponta está Guararema, onde apenas 4% da população de baixa renda enfrenta deslocamentos superiores a uma hora.
Segundo os pesquisadores, esse indicador revela como a distribuição desigual dos empregos, aliada às deficiências do transporte coletivo e da integração metropolitana, amplia as desigualdades sociais.
PIB elevado não garante qualidade de vida
O levantamento também demonstra que riqueza econômica não significa, necessariamente, melhores condições para a população.
Cajamar possui o maior PIB per capita da Região Metropolitana, chegando a R$ 312,7 mil por habitante.
Na outra extremidade aparece Francisco Morato, com R$ 13,5 mil, cerca de 23 vezes menor.
A cidade de São Paulo registra PIB per capita em torno de R$ 93 mil.
Segundo os responsáveis pelo estudo, esse indicador mede a produção econômica realizada dentro do município, mas não representa automaticamente distribuição de renda nem redução das desigualdades.
Municípios com grandes centros logísticos ou industriais podem apresentar elevado PIB sem que essa riqueza se converta em melhores serviços públicos ou qualidade de vida para seus moradores.
Infraestrutura apresenta diferença superior a 500 vezes
Os investimentos municipais em infraestrutura urbana também variam drasticamente.
Barueri lidera os investimentos, destinando R$ 1.157,30 por habitante em 2023.
Na sequência aparecem Guararema, Cajamar, Itapevi e Santana de Parnaíba.
Já Pirapora do Bom Jesus, Biritiba Mirim e Diadema não registraram investimentos no período analisado.
Entre os grandes municípios, Guarulhos investiu cerca de R$ 298 por habitante, enquanto Osasco destinou apenas R$ 50.
Segundo o estudo, a diferença entre o maior e o menor investimento supera 500 vezes, evidenciando disparidades na capacidade de investimento das administrações municipais.
Violência também possui forte componente territorial
O Mapa da Desigualdade amplia a análise da segurança pública ao incluir indicadores além dos homicídios.
Entre eles está a taxa de notificações de violações de direitos humanos contra a população LGBTQIA+, registradas pelo Disque 100.
Itaquaquecetuba apresenta o maior índice da região, com 47,1 notificações por 100 mil habitantes.
Na capital paulista, a taxa é de 11,52 notificações por 100 mil habitantes.
Em relação aos homicídios, Biritiba Mirim e São Lourenço da Serra registraram taxa zero no período analisado, enquanto Pirapora do Bom Jesus apresentou o maior índice, com 16,3 homicídios por 100 mil habitantes.
Educação ainda apresenta desafios
Na educação, o levantamento mostra que apenas 66,5% dos jovens entre 18 e 19 anos concluíram o ensino médio na Região Metropolitana de São Paulo.
Os melhores desempenhos foram registrados em:
- Guararema – 86%;
- Juquitiba – 79%;
- Poá – 79%.
Já Salesópolis aparece na última posição, com apenas 52% dos jovens concluindo a educação básica nessa faixa etária.
Na cidade de São Paulo, o índice é de 59,8%, abaixo da média metropolitana.
Ferramenta para orientar políticas públicas
Elaborado com base em dados oficiais do IBGE, DataSUS, Inep, Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa) e outras bases públicas, o Mapa da Desigualdade busca subsidiar políticas públicas capazes de reduzir as diferenças entre os municípios da maior região metropolitana do país.
Para o coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis, Jorge Abrahão, o estudo demonstra que cidades conectadas pelos mesmos fluxos econômicos podem oferecer condições muito distintas de acesso a direitos básicos.
A expectativa dos organizadores é que o diagnóstico fortaleça a cooperação entre os municípios e o governo estadual, orientando investimentos em áreas como mobilidade, saneamento, habitação, saúde, educação e infraestrutura, de forma a priorizar os territórios onde as vulnerabilidades sociais são mais intensas. O levantamento reforça que reduzir as desigualdades metropolitanas depende de políticas universais combinadas com ações focalizadas nos municípios e bairros que acumulam os maiores déficits sociais.