EXCLUSIVO: Minha Casa, Minha Vida na China: modelo foca no “dia seguinte da moradia”

Enquanto o programa brasileiro prioriza a entrega das chaves, a política pública chinesa, em Ningxia, amarra habitação à renda permanente
Liu Kerui e a filha na casa onde moravam e a família unida após o realocação e a melhora da qualidade de vida. Liu recebeu em casa o presidente Xi Jinping numa visita à província de Ningxia – Foto: Reprodução/ Talita Galli

Por Talita Galli, da província de Ningxia, China*

Imagine viver em um lugar tão seco, isolado e castigado por crises climáticas que a própria Organização das Nações Unidas (ONU) chegou a carimbar a região como “inadequada para a sobrevivência humana”. Esse era o cenário de Xihaigu, uma área montanhosa no interior da China onde a terra simplesmente não conseguia dar de comer a quem morava nela. Leia em TVT News.

Diante de um problema desse tamanho, o governo chinês decidiu que a solução não era enviar ajuda paliativa para sempre, mas sim fazer algo muito mais radical: mudar as populações dali e reconstruir suas vidas em outro mapa. As pessoas realocadas vinham de comunidades isoladas no topo das montanhas, locais onde a escassez extrema de água e a falta de solo produtivo tornavam absolutamente impossível manter uma vida estável, segura e decente.

Foi essa engrenagem impressionante que pude analisar de perto através dos relatórios, mapas e fotos expostos no Centro de Apresentação do Programa de Realocação de Ningxia, onde conheci a experiência em Hongsibao, que hoje é a maior área de reassentamento desse tipo no país.

Para um brasileiro, a primeira associação mental é inevitável: parece uma versão gigantesca do programa “Minha Casa, Minha Vida”. No entanto, a grande curiosidade jornalística que o modelo chinês desperta é o seu efeito de “cauda longa” voltado inteiramente para o “dia seguinte da moradia”. Na China, a entrega da chave da casa nova é apenas o começo de uma esteira de políticas públicas que se estende por anos, desenhada para que as famílias nunca mais dependam de auxílio governamental. O segredo exposto nos painéis não está na assistência social contínua, mas na economia prática.

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O que fazer depois de ganhar a casa?

O grande desafio de qualquer projeto de habitação no mundo é garantir o que as pessoas vão fazer no dia seguinte à mudança. Na Vila de Hongde (uma das comunidades planejadas que nasceu em 2011), a estratégia apresentada para resolver isso foi transformar os antigos camponeses em “sócios” do desenvolvimento local.

Casas precárias nas montanhas de Ningxia onde viviam as famílias que foram realocada
Casas do reassentamento
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Casas precárias nas montanhas de Ningxia onde viviam as famílias que foram realocada

A lógica funciona em um sistema de três pilares:

  1. A Terra virou Ação: Toda a área agrícola da vila foi arrendada para grandes empresas do agronegócio. Em vez de cada família tentar plantar em um solo difícil, as empresas gerenciam a terra e pagam pelo uso. Só esse arrendamento gera mais de 3,8 milhões de yuans por ano, valor que é distribuído entre os moradores.
  2. Gado de Corte Cooperativo: Foi criado um grande parque de criação de gado de corte, onde mais de 870 famílias participam e conseguem uma renda extra anual que passa dos 20 mil yuans.
  3. Emprego na Porta de Casa: Para quem não pode trabalhar no campo — como os idosos —, o projeto criou em 2018 as chamadas “oficinas de alívio à pobreza”. São galpões dentro da própria vila voltados para a fabricação de caixas de papelão. Assim, quem tem mobilidade reduzida garante seu próprio sustento sem precisar sair da comunidade.

A Radiografia da Mudança (em Números)

Os dados compilados no centro de exposição mostram que a matemática do projeto funcionou na prática: em 2014, a renda média anual de um morador da região de Hongde era de apenas 1.800 yuans. Em 2025, os relatórios oficiais fecharam esse número em 20.600 yuans por habitante — um salto que tirou a comunidade da linha da extrema pobreza.

Das 1.355 famílias que vivem lá (cerca de 5.900 pessoas), mais de 3.300 trabalhadores já estão inseridos no mercado de trabalho formal ou em parques industriais da região.

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A economia interna da vila gerou mais de 2,82 milhões de yuans em 2025. Esse dinheiro não fica parado: ele é usado para manter o asfalto limpo, os serviços públicos funcionando e a governança da vila ativa.

O Rosto na Parede: A História de Liu

Para além dos gráficos, o centro de apresentação humaniza esses dados mostrando a trajetória de moradores reais através de fotografias. Uma das mais marcantes é a de Liu Kerui.

O painel faz um “antes e depois” visual: de um lado, uma foto antiga e analógica mostra Liu (junto com sua filha) em frente a uma precária casa de barro e palha nas montanhas, com as malas prontas para partir. Do outro, imagens antigos e atuais exibem a nova rotina da família em uma casa moderna, com saneamento, aquecimento para o inverno rigoroso, energia solar e até um pequeno pátio transformado em “casa de chá” para receber os mais de 10 mil turistas que visitam a região anualmente.

Hoje, a família vive uma rotina tranquila na vila planejada, onde os netos vão à escola e crescem ouvindo a história de quando o próprio presidente do país sentou no sofá daquela nova casa para entender como a vida delas havia mudado.

*Talita Galli está na China a convite do Comitê Internacional do Partido Comunista da China

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