O Ministério da Saúde anunciou nesta segunda-feira (8) a suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue com o imunizante desenvolvido pelo Instituto Butantan. A decisão foi tomada após o registro de 42 casos de reações adversas consideradas severas, incluindo três ocorrências classificadas como graves — duas delas com evolução para óbito e uma que exigiu internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Saiba mais na TVT News.
A medida, que entra em vigor a partir desta terça-feira (9), foi apresentada durante coletiva de imprensa com representantes da pasta, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Butantan. Segundo o governo federal, a suspensão tem caráter preventivo e busca aprofundar a investigação sobre possíveis fatores de risco relacionados aos eventos registrados.
De acordo com o Ministério da Saúde, mais de 500 mil doses da vacina já haviam sido aplicadas no país desde o início da campanha, em janeiro deste ano. A imunização foi direcionada inicialmente a profissionais da atenção primária à saúde e também integrou projetos-piloto nos municípios de Botucatu (SP), Nova Lima (MG) e Maranguape (CE), além de ações específicas em Araguaína (TO).
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Apesar da interrupção temporária da vacinação, o governo ressaltou que ainda não existe comprovação de que os casos graves tenham sido causados pelo imunizante.
“Ainda não há comprovação de causalidade entre a vacina e os óbitos”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Durante a coletiva, Padilha destacou que a decisão segue os protocolos de segurança do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e do sistema de farmacovigilância do país.
“A descontinuidade tem um objetivo. Primeiro, é a ação de precaução, que deve sempre guiar quem respeita a vida, quem respeita a ciência, ainda mais quando a gente está falando de vacinação”, declarou o ministro.
Casos graves motivaram suspensão
Segundo os dados apresentados pelo Ministério da Saúde, entre janeiro e maio foram registradas 3.703 notificações de sintomas semelhantes aos da dengue após a vacinação. Desse total, 42 casos apresentaram sinais de alarme, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos.
Esses episódios representam cerca de 0,008% do total de vacinados e foram classificados como eventos muito raros. O que chamou a atenção das autoridades sanitárias é que tais manifestações não haviam sido observadas nos estudos clínicos que embasaram a aprovação da vacina nem estavam descritas em bula.
Entre os 42 casos, três foram considerados graves.
O primeiro envolve uma mulher de 39 anos que apresentou febre, dores musculares e náuseas seis dias após receber a vacina. Ela evoluiu para um quadro compatível com dengue grave, sofreu choque circulatório e precisou ser internada em UTI. Após tratamento, recebeu alta hospitalar.
Os outros dois casos terminaram em morte.
Uma mulher de 48 anos desenvolveu sintomas de dengue grave 19 dias após a vacinação. O quadro evoluiu com comprometimento neurológico, incluindo meningoencefalite, e a paciente morreu.
Já um homem de 58 anos apresentou febre cinco dias após receber a dose. Segundo o Ministério da Saúde, ele evoluiu rapidamente para dengue grave com choque refratário e também não resistiu.
“Nós tivemos três casos graves, desses dois óbitos, sem, até esse momento, nas investigações já feitas pelos sistemas municipais, de vigilância estadual, escutando os especialistas, ter dados suficientes para estabelecer uma causalidade da vacina com a ocorrência”, explicou Padilha.
Monitoramento será ampliado
Com a suspensão, estados e municípios interromperão a aplicação do imunizante enquanto as investigações avançam. O Ministério da Saúde informou que realizará reuniões com secretarias estaduais e municipais para reforçar a busca ativa de possíveis efeitos adversos e ampliar o monitoramento epidemiológico.
A orientação é que pessoas vacinadas nos últimos 21 dias observem atentamente possíveis sintomas e procurem atendimento médico caso apresentem sinais de alerta.
Entre os sintomas que devem ser monitorados estão:
- Febre;
- Dor abdominal intensa e contínua;
- Vômitos persistentes;
- Sangramentos;
- Sonolência intensa;
- Irritabilidade;
- Tontura;
- Sinais de desidratação;
- Piora do estado geral.
As doses já distribuídas aos estados e municípios deverão permanecer armazenadas sob refrigeração até nova orientação das autoridades sanitárias.
Vacina segue considerada eficaz contra dengue
O Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan enfatizaram que a suspensão não significa perda de confiança na eficácia da vacina nem invalida os resultados dos estudos clínicos realizados antes da aprovação.
A vacina do Butantan é considerada um marco para a saúde pública brasileira. Trata-se da primeira vacina contra a dengue produzida integralmente no Brasil e também da primeira do mundo com esquema de dose única. O imunizante foi aprovado pela Anvisa em novembro de 2025 e utiliza tecnologia de vírus atenuado para induzir resposta imunológica contra os quatro sorotipos da doença.
Antes da aprovação, a vacina foi testada em cerca de 16 mil voluntários acompanhados por cinco anos. Os resultados apontaram eficácia global de 79,6% e proteção de 89% contra formas graves da dengue.
O diretor do Programa Nacional de Imunizações, Eder Gatti, afirmou que as evidências disponíveis continuam indicando proteção contra a doença.
“Essa decisão não invalida a eficácia, mas busca ganhar tempo para fazer estudos adicionais e avaliar a vacina em diferentes cenários epidemiológicos e grupos populacionais para encontrar eventuais fatores de risco. Quem tomou a vacina continua protegido contra os quatro tipos da dengue”, afirmou.
Padilha também reforçou a confiança do governo na capacidade técnica do Instituto Butantan para conduzir as investigações.
“Queria reforçar aqui que o Ministério da Saúde tem toda a confiança na capacidade institucional, científica do Instituto Butantan de fazer essa investigação, de aprofundar esses estudos”, declarou.
Queda nos casos e mortes por dengue
Mesmo diante da suspensão preventiva, o governo destacou que a estratégia nacional de combate à dengue tem apresentado resultados expressivos. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 178 mortes pela doença até 30 de maio deste ano, contra 1.791 óbitos no mesmo período de 2025 — uma redução de aproximadamente 90%.
Os casos da doença também apresentaram forte queda nos primeiros cinco meses de 2026. Para o Ministério da Saúde, os resultados reforçam a importância da vacinação e das demais medidas de controle do mosquito transmissor, enquanto a investigação sobre os eventos adversos prossegue.
O Instituto Butantan informou que colaborará integralmente com a Anvisa e o Ministério da Saúde, fornecendo dados adicionais e realizando novos estudos para esclarecer os casos. A expectativa das autoridades é concluir a análise dos eventos adversos e definir, com base em evidências científicas, se a campanha poderá ser retomada nas próximas semanas.
