O historiador italiano Carlo Ginzburg, considerado um dos principais intelectuais da historiografia contemporânea e referência mundial da chamada micro-história, morreu nesta quarta-feira (17), aos 87 anos, em Bolonha, na Itália. Leia em TVT News.
Autor de obras que influenciaram gerações de pesquisadores em diferentes países, Ginzburg ficou conhecido por desenvolver uma abordagem que deslocou o foco da história tradicional das grandes figuras políticas, militares e econômicas para personagens comuns, frequentemente excluídos dos registros oficiais.
Ao investigar a vida de camponeses, moleiros, curandeiros e pessoas perseguidas por instituições de poder, o historiador demonstrou que era possível compreender processos sociais mais amplos a partir de trajetórias individuais.
Seu trabalho renovou profundamente a pesquisa histórica nas últimas décadas do século XX e ajudou a consolidar uma perspectiva que passou a valorizar experiências populares, culturas subalternizadas e grupos historicamente invisibilizados.
Uma vida marcada pelo antifascismo
Carlo Ginzburg nasceu em Turim, em 15 de abril de 1939, em uma família profundamente ligada à produção intelectual e à resistência ao fascismo italiano. Era filho do escritor, editor e militante antifascista Leone Ginzburg e da escritora Natalia Ginzburg, considerada uma das maiores autoras italianas do século XX.
Durante a infância, viveu parte dos anos da Segunda Guerra Mundial em uma pequena vila italiana para onde sua família havia sido enviada em exílio interno devido à oposição ao regime de Benito Mussolini.
A experiência familiar foi marcada pela violência política da época. Seu pai foi preso pelos fascistas e morreu em 1944, durante a ocupação nazista na Itália.
Filho de uma família judia em meio às perseguições do Holocausto, desenvolveu desde cedo sensibilidade para investigar personagens e comunidades que haviam sido silenciados pelos relatos oficiais.
O nascimento da micro-história
Ao longo dos anos 1960, quando a historiografia ainda era amplamente voltada para grandes acontecimentos e lideranças políticas, Ginzburg passou a explorar arquivos pouco estudados em busca de personagens anônimos.
Foi nesse contexto que encontrou registros dos chamados benandanti, um grupo de camponeses da região do Friuli que afirmava travar batalhas espirituais para garantir a fertilidade das colheitas. Considerados uma espécie de curandeiros populares, eles acabaram perseguidos pela Inquisição sob acusações de heresia.
A investigação resultou no livro I benandanti (Os Andarilhos do Bem), publicado em 1966.
A obra tornou-se uma referência para os estudos sobre religiosidade popular, cultura camponesa e mecanismos de repressão religiosa na Europa moderna.
Mais do que reconstruir a história daquele grupo específico, Ginzburg demonstrou como documentos aparentemente secundários podiam revelar conflitos sociais, crenças coletivas e formas de resistência presentes em uma determinada sociedade.
A partir desses trabalhos, consolidou-se a chamada micro-história, campo que busca compreender fenômenos históricos de grande escala por meio da análise detalhada de indivíduos, pequenas comunidades ou acontecimentos localizados.
O Queijo e os Vermes

Dez anos após a publicação de Os Andarilhos do Bem, Ginzburg lançou a obra que o transformaria em um dos historiadores mais influentes do mundo: O Queijo e os Vermes.
Publicado em 1976, o livro reconstrói a trajetória de Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, um moleiro do século XVI que foi julgado pela Inquisição por defender ideias consideradas incompatíveis com a doutrina católica.
O tema central que dá título ao livro é a crença de Menocchio de que o mundo surgiu do caos, de forma análoga a como o queijo nasce do leite e os vermes (anjos e Deus) surgem do queijo.
Menocchio denunciava o monopólio do saber pelos clérigos e o uso do latim como uma “traição aos pobres”, servindo para manter as classes subalternas na ignorância.
O moleiro defendia que amar ao próximo era mais importante do que amar a Deus e que todas as religiões (cristãos, turcos, judeus) tinham o Espírito Santo e poderiam ser salvas, utilizando a lenda dos três anéis para justificar a equivalência entre as fés.
A disponibilidade de livros em língua vulgar permitiu que Menocchio confrontasse a tradição oral com a cultura escrita, organizando suas “fantasias” em um sistema de pensamento coerente e desafiador, o que revelou o impacto da reforma e da imprensa na vida das pessoas.
A partir dos autos do processo inquisitorial, documentos criados para reprimir, Ginzburg recuperou os sentimentos e interpretações das classes que a história tradicional costumava ignorar.
O historiador mostrou como Menocchio elaborava explicações próprias para a origem do universo, da religião e da sociedade, misturando leituras fragmentadas, tradições orais e experiências pessoais.
Ginzburg utiliza a micro-história para investigar um caso individual e singular (Menocchio) não como um exemplo estatístico, mas como um fragmento que revela as estruturas ocultas da cultura popular.
O conceito de circularidade
A obra propõe que existia uma influência recíproca entre a cultura das classes dominantes e a das classes subalternas, rompendo com a ideia de que a cultura popular seria apenas uma versão degradada da cultura de elite.
Ginzburg propõe que esse fluxo cultural não era unidirecional, já que ele se movia tanto de cima para baixo quanto de baixo para cima, isto é, da elite para o povo e vice-versa.
Ginzburg fundamenta sua hipótese na obra de Mikhail Bakhtin sobre Rabelais e a cultura popular. Bakhtin demonstrou como a visão de mundo carnavalesca e popular (de baixo) influenciou profundamente a obra erudita de Rabelais (de cima).
Ginzburg expande essa ideia ao sugerir que essa circularidade foi particularmente intensa na primeira metade do século XVI.
O conceito rompe com a ideia de uma passividade da população comum diante da classe dominante, como se apenas um grupo seleto de pessoas fizessem parte da história e ela influenciassem.
Ginzburg recusou, assim, a ideia de que a cultura popular é apenas um subproduto ou uma versão “degradada” e simplificada da cultura de elite.
Além disso, o italiano rebateu a noção de que a cultura camponesa era totalmente isolada e independente.
A circularidade mostra que as classes populares não aceitavam passivamente o que lhes era imposto, elas reelaboravam as informações recebidas de acordo com suas próprias tradições, como é o caso de Menocchio.
A metodologia de Ginzburg foca em reconstruir o crivo ou rede interpretativa que Menocchio interpunha entre ele e os textos que lia.
Ginzburg demonstra que a cultura oral camponesa agia como um filtro que deformava e ressignificava as leituras eruditas de Menocchio, revelando um estrato cultural profundo e muitas vezes pré-cristão.
A obra teve repercussão internacional porque demonstrou que indivíduos das classes populares também produziam visões complexas sobre o mundo, contrariando interpretações que reservavam a elaboração intelectual apenas às elites letradas.
Ao colocar um moleiro do século XVI no centro da narrativa, Ginzburg abriu espaço para novas formas de investigação histórica voltadas às experiências dos trabalhadores, dos camponeses e de outros grupos frequentemente ausentes da documentação tradicional.
O livro foi traduzido para dezenas de idiomas e permanece como uma das obras mais lidas e discutidas da historiografia mundial.
Sinais e raízes de um paradigma indiciário
Em 1979, após o Queijo e os Vermes, Ginzburg desenvolveu uma das principais contribuições teóricas sobre a metodologia da micro-história ao publicar seu ensaio “Sinais: raízes de um paradigma indiciário”.
O paradigma indiciário é um modelo epistemológico identificado e analisado peue se consolidou nas ciências humanas no final do século XIX.
Ele se baseia na ideia de que a análise de detalhes marginais, resíduos ou dados aparentemente insignificantes permite o acesso a uma realidade profunda e oculta que não pode ser atingida diretamente.
Ginzburg fundamenta a existência desse paradigma observando uma analogia impressionante entre três figuras que operavam na mesma década (1870-1880): Giovanni Morelli, Sherlock Holmes e Sigmund Freud.
Morelli era um médico e historiador da arte que propôs identificar a autoria de pinturas através do exame de pormenores secundários, como lóbulos de orelhas e unhas, que são elementos que o artista executa de forma automática e inconsciente, dificultando a imitação por copistas.
De forma similar, o detetive resolvia crimes interpretando indícios infinitesimais como cinzas de cigarro, pegadas na lama ou marcas de dentes, reconstruindo uma sequência de eventos invisível para outros.
Enfim, foi o criador da psicanálise que reconheceu no método de Morelli uma semelhança com sua própria técnica de investigar o inconsciente através de “refugos” da observação, como lapsos, sonhos e pequenos gestos involuntários.
O que Ginzburg argumentou no ensaio é que esse modo de pensar não era novo, pelo contrário, têm raízes multimilenares como o caçador ancestral, os mesopotâmicos e suas práticas de adivinhação ou até mesmo a medicina, que diagnóstica doenças invisíveis por meio de sintomas superficiais.
Contrapondo o paradigma indiciário com o paradigma galileano, Ginzburg defendia que o historiador não deveria se basear no quantificável para analisar a realidade, mas sim no qualitativo e individualizante.
Inspirado por áreas como a antropologia, a crítica literária, a história da arte e até mesmo investigações policiais, o historiador defendia que pequenos indícios poderiam revelar aspectos fundamentais de uma sociedade.
Para Ginzburg, o historiador deveria justamente atuar como alguém capaz de interpretar sinais dispersos, conectando documentos fragmentários e experiências individuais para compreender estruturas sociais mais abrangentes.
A proposta influenciou pesquisadores em diversas áreas das ciências humanas e ampliou os horizontes da pesquisa histórica nas últimas décadas.
Defesa da verdade histórica
Ao longo de sua carreira, Ginzburg também dedicou atenção aos debates sobre método e conhecimento histórico.
Em um período marcado pela ascensão de correntes teóricas que enfatizavam os aspectos narrativos da escrita da história, ele sustentou que o trabalho do historiador precisava permanecer ancorado em evidências concretas.
Para o intelectual italiano, embora toda narrativa histórica envolvesse interpretações, isso não significava abandonar a busca pela verdade factual.
Essa posição aparece de forma clara em O Juiz e o Historiador, publicado em 1991.
No livro, Ginzburg analisou o processo relacionado ao assassinato do comissário italiano Luigi Calabresi, examinando documentos judiciais a partir das ferramentas da pesquisa histórica.
A obra tornou-se uma referência nos debates sobre memória, justiça e produção do conhecimento.

