O cineasta norte-americano Oliver Stone negou que o documentário “Lula”, lançado em 2024, tenha recebido recursos do banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por suspeita de participação em um esquema apontado como a maior fraude financeira da história do país. A negativa foi divulgada em nota enviada à coluna da jornalista Monica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Saiba mais na TVT News.
A manifestação ocorre em meio à crise política enfrentada pelo senador Flávio Bolsonaro após a série “VAZA FLÁVIO”, publicada pelo The Intercept Brasil, revelar mensagens, áudios e documentos que apontam negociações milionárias entre integrantes do clã Bolsonaro e Vorcaro para financiar produções audiovisuais sobre Jair Bolsonaro.
Segundo a coluna, aliados de Flávio passaram a disseminar reservadamente a versão de que Vorcaro também teria destinado dinheiro ao documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva, numa tentativa de relativizar o desgaste provocado pelas denúncias envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Em resposta, os produtores e diretores da obra dirigida por Oliver Stone e Rob Wilson divulgaram uma nota contundente negando qualquer vínculo financeiro com o banqueiro ou com o Banco Master.
“Não houve quaisquer recebimentos de recursos, investimentos, patrocínios ou contribuições de qualquer natureza originados a partir de negociações com Daniel Vorcaro, com o Banco Master ou de qualquer empresa ou fundo a eles associados”, afirma o comunicado enviado à Folha.
A equipe do documentário informou ainda que estuda medidas judiciais diante da circulação das informações. Segundo os responsáveis pela produção, a associação do filme ao escândalo financeiro envolvendo Vorcaro seria falsa e prejudicial à reputação da obra.
Tentativa de reação ao escândalo
A negativa pública ocorre depois de uma sequência de revelações que ampliaram o desgaste político do bolsonarismo.
Na primeira reportagem da série “VAZA FLÁVIO”, o The Intercept Brasil revelou que Flávio Bolsonaro teria negociado diretamente com Daniel Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Documentos obtidos pelo site indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões, já haviam sido transferidos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações ligadas à produção.
A reportagem também divulgou um áudio enviado por Flávio ao banqueiro cobrando novos pagamentos e alertando para o risco de colapso da produção caso os recursos não fossem liberados. Na gravação, o senador afirma que o projeto poderia perder contratos, elenco e equipe internacional.
“Irmão, estou e estarei contigo sempre”, escreveu ainda Flávio em uma das mensagens obtidas pelo Intercept.
Já a segunda publicação da série revelou conversas sobre a articulação de um encontro reservado entre Jair Bolsonaro e Vorcaro em uma mansão em Brasília. O encontro teria sido organizado com participação do deputado federal Mario Frias e do empresário Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias.
Coluna de Lauro Jardim ampliou repercussão
Antes da nota divulgada à Folha, a repercussão ganhou força após coluna do jornalista Lauro Jardim afirmar que pessoas ligadas a Vorcaro relataram investimentos do banqueiro em filmes sobre presidentes de diferentes espectros políticos.
Entre os projetos mencionados estavam o documentário “Lula”, de Oliver Stone, e “963 dias — A história de um presidente que recolocou o Brasil nos trilhos”, obra sobre Michel Temer dirigida por Bruno Barreto.
No caso do filme sobre Temer, o produtor Elsinho Mouco negou ter solicitado recursos ao banqueiro. Já a Secretaria de Comunicação da Presidência da República afirmou que não houve qualquer pedido do governo federal ou do presidente Lula para financiar o documentário de Oliver Stone.
Banco Master e investigações
Daniel Vorcaro é investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça.
Segundo as investigações, o esquema ligado ao Banco Master pode ter provocado prejuízo superior a R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito.
A apuração também identificou suspeitas de monitoramento clandestino e intimidação de jornalistas e adversários empresariais, incluindo conversas em que Vorcaro discutiria ações violentas contra profissionais da imprensa.
Nesse contexto, a tentativa de associar produções sobre Lula ao banqueiro passou a ser interpretada nos bastidores políticos como uma estratégia para reduzir os danos causados pelas revelações envolvendo diretamente Flávio Bolsonaro e o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.

