Após denúncia, Ouvidoria pede afastamento de PMs envolvidos em ação em Piracicaba

Alerta foi feito pela deputada estadual Bebel; também será apurada a abordagem em que policiais são acusados de obrigar detidos a vestir camisetas de apoio a Lula
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Moradoras relatam que PMs intimidaram para elas tirarem as camisetas; suspeita é que o material foi usado para gerar imagens falsas com outros menores apreendidos em Piracicaba - Foto: Divulgação / Deputada Bebel

A Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo pediu o afastamento imediato do serviço operacional dos policiais militares (PMs) envolvidos na ação em Piracicaba denunciada pela deputada estadual Professora Bebel (PT). Acompanhe o caso com a TVT News.

Em resposta encaminhada à equipe da parlamentar nesta quinta-feira (22), o órgão informou que abriu protocolo e oficiou a Corregedoria da PM para cobrar informações sobre a abordagem e solicitar que os agentes identificados permaneçam afastados das ruas até a conclusão das apurações.

A medida foi solicitada após denúncias de que policiais agrediram militantes que faziam campanha pela reeleição do presidente Lula, retiraram suas camisetas e obrigaram três jovens detidos, entre eles um adolescente de 17 anos, a vestir peças do mesmo modelo. A Ouvidoria também pediu que a Corregedoria encaminhe os relatórios de conclusão dos procedimentos instaurados. O pedido de afastamento ainda depende de cumprimento pelas autoridades responsáveis.

Veja o que aconteceu com a PM de Piracicaba

No documento, assinado a Ouvidoria afirma ter recebido com “extrema preocupação” a denúncia de Bebel e os relatos divulgados publicamente, incluindo o depoimento da mãe do adolescente, Edna Souza Barbosa.

A manifestação aponta possíveis violações de direitos fundamentais, como violência policial, abuso de autoridade e constrangimento ilegal, além de condutas que, caso confirmadas, podem configurar tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante.

“A polícia não pertence a partidos, governos ou correntes ideológicas. Sua missão é servir à sociedade e garantir o cumprimento da lei, com absoluta neutralidade político-partidária”, afirma em nota a Ouvidoria. O órgão também cobra uma investigação rápida e independente, com coleta de depoimentos, imagens e registros operacionais.

Para Bebel, o encaminhamento reforça a necessidade de esclarecer tanto a atuação dos agentes quanto o uso político das imagens dos detidos. A deputada critica o governador Tarcísio de Freitas e o senador eleito Guilherme Derrite, ex-secretário da Segurança Pública, por compartilharem, a publicação difundida pelo vereador de Piracicaba Renan Paes sem verificar as denúncias sobre as circunstâncias da abordagem.

“O mínimo que se espera de autoridades como eles é a checagem dos fatos. A postura deles tem o claro objetivo de atacar a campanha do presidente Lula e se assemelha ao episódio do sequestro de Abílio Diniz, em 1989. É inaceitável o que fizeram”, afirma Bebel.

Entenda o caso de violência e falsidade eleitoral de PMs em Piracicaba

Tanto a ação violenta, quanto a interferência eleitoral aconteceram na manhã de quarta-feira (21), na comunidade Vitória Pantanal, na região do Jardim Monte Líbano, em Piracicaba. Bebel esteve no local após receber relatos de duas mulheres que faziam campanha pela reeleição de Lula e denunciaram ter sido intimidadas, agredidas e obrigadas por policiais a entregar as camisetas que vestiam.

Na mesma manhã, um adolescente de 17 anos foi apreendido e dois homens foram detidos por suspeita de tráfico de drogas. Imagens dos três algemados, usando camisetas idênticas de apoio a Lula, passaram a circular nas redes sociais. A mãe do adolescente e um dos adultos detidos afirmaram que os agentes os obrigaram a trocar de roupa após a abordagem. Também foram denunciadas agressões durante a ocorrência.

Bebel levou o caso à Ouvidoria, e a coligação Brasil Pronto pra Mais acionou o Tribunal Superior Eleitoral para pedir a retirada de publicações que utilizam as imagens para associar Lula ao crime organizado. A parlamentar cobra o esclarecimento dos fatos e a responsabilização dos envolvidos nas irregularidades que forem comprovadas.

Bebel classificou o episódio como violência política e ideológica e disse que cobrará providências para que os agentes envolvidos respondam por sua atuação.

PMs teriam colocado camisetas em menores apreendidos

As camisetas do Lula teriam sido retiradas das mulheres para serem colocadas em menores que foram apreendidos pela polícia. As informações são da TV TODODIA, de Piracicaba.

Em depoimento à TVT TODODIA, “a mãe de um adolescente de 17 anos detido durante uma ocorrência relacionada a entorpecentes em Piracicaba afirma que policiais teriam colocado camisetas alusivas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos três detidos após a abordagem nesta quarta-feira (21”).

Edna Souza Barbosa, de 33 anos, disse à TV TODODIA que “o filho não usava a camiseta no momento em que foi abordado. Segundo ela, os três detidos teriam recebido peças iguais posteriormente”.

De acordo com a reportagem da TV TODODIA, A versão apresentada pela mãe diverge do registro inicial da ocorrência, que descreve “três homens de camiseta branca do Lula”.

“Eles não estavam com as camisetas. Colocaram as três blusas iguais”, afirmou Edna à TV. De acordom com a reportagme, “a mulher também acusa policiais de agredirem o filho durante a ação e afirma que uma filha de 14 anos teria sido empurrada no peito ao tentar se aproximar do irmão. Segundo Edna, familiares também teriam sido ameaçados caso acompanhassem a abordagem.”

Caso lembra a falsificação com os sequestradores do empresário Abílio Diniz

O caso dos sequestradores do empresário Abílio Diniz, em 1989, é um dos episódios mais sujos da história política brasileira, especialmente pela tentativa de associar o sequestro à campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, que disputava a Presidência naquele ano.

O que aconteceu em dezembro de 1989?

  • 11 de dezembro de 1989: Abílio Diniz, então proprietário do Grupo Pão de Açúcar, foi sequestrado em São Paulo.
  • 16 de dezembro: a polícia localizou o cativeiro, libertou o empresário e prendeu os envolvidos. A operação ocorreu na véspera do segundo turno da eleição presidencial, disputado por Lula e Fernando Collor de Mello.
  • A repercussão política: imagens dos sequestradores usando camisetas do PT foram divulgadas pela imprensa, e a polícia informou ter encontrado materiais de campanha de Lula nos imóveis ligados ao grupo.

As camisetas foram colocadas pela polícia?

Essa foi a denúncia feita pelos próprios sequestradores e pelo PT na época. O caso ganhou uma dimensão política porque a associação entre o partido e o crime surgiu às vésperas da votação presidencial.

Em depoimento à Justiça, o líder do grupo, o argentino Humberto Paz, afirmou que policiais haviam tirado suas roupas e colocado nele uma camiseta do PT. O relato foi publicado pela Folha de S.Paulo em janeiro de 1990. A PM, na época negou as acusações de tortura e de que tivesse vestido os presos com camisetas do partido.

A investigação sobre a suspeita de que os presos teriam sido fotografados com as camisetas por iniciativa da polícia foi arquivada dois anos depois, por falta de provas, segundo reportagem da Folha.

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