A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, e o advogado e empresário Willer Tomaz é alvo de questionamentos em diferentes frentes de investigação. Documentos reunidos em reportagem da Folha de S.Paulo apontam que os dois compartilharam viagens em jatos executivos, vínculos bancários e conexões empresariais ligadas ao mercado de apostas on-line. Leia em TVT News.
Ambos negam irregularidades. Flávio afirma que mantém uma relação de amizade com Tomaz, enquanto o advogado sustenta que seus negócios são legais.
A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o setor de apostas e apura possíveis irregularidades no processo de licenciamento de empresas do ramo no Rio de Janeiro. Flávio, Tomaz e o governador Cláudio Castro (PL) estão entre os investigados nesse contexto.
Conta bancária e apostas on-line
Uma das conexões identificadas pela investigação envolve a Alcazar Holdings, empresa de Tomaz registrada na Ilha da Madeira, território português. Segundo informações divulgadas pelo UOL e confirmadas pela Folha, Flávio figurava como usuário master da conta bancária da companhia, condição que permitia acesso à conta.
A empresa pode ter financiado a Cathedral, apontada como acionista do conglomerado de apostas Rede Loto, que operava o site BestBet. A Rede Loto foi constituída em fevereiro de 2023, cerca de dois meses antes de o governo fluminense iniciar o licenciamento de plataformas de apostas.
Em abril daquele ano, a empresa apresentou documentos à Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), responsável pelo processo. Na época, as regras estaduais não exigiam a identificação dos beneficiários finais nos mesmos moldes da legislação federal. Por isso, a documentação não informava os acionistas da Cathedral, entre eles Tomaz.
O processo de licenciamento também envolve o então presidente da Loterj, Hazenclever Cançado, nomeado por Cláudio Castro por indicação de Flávio. Cançado foi colega de advocacia de Tomaz. Os envolvidos negam irregularidades.
Tomaz também aparece como beneficiário final da RioPag, empresa responsável pelo processamento de pagamentos do setor de apostas fluminenses desde maio de 2023. Dados da Loterj indicam que a companhia faturou quase R$ 188 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026.
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Parte da receita deveria ser destinada aos cofres públicos do estado. A autarquia cobra da empresa R$ 9,4 milhões por valores que considera não repassados integralmente, além de uma multa de R$ 4,8 milhões. A RioPag contesta a cobrança na Justiça, enquanto Tomaz afirma não responder pela administração da companhia.
Viagens internacionais pagas por empresas ligadas a Tomaz


As apurações da Polícia Federal também identificaram viagens de Flávio e Tomaz em aeronaves executivas, acompanhados de familiares, para destinos nos Estados Unidos e na Europa.
Em janeiro de 2025, Flávio, a esposa e as duas filhas viajaram com Tomaz de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília. O deslocamento foi feito em um jato Legacy 650, pertencente à Fraction 024 Administração de Bem Próprio, sociedade controlada pela Prime You, fundada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Segundo Tomaz, o trajeto foi pago com horas de voo de sua própria cota, e os passageiros eram seus convidados. Para quitar R$ 8,72 milhões referentes à aeronave, o advogado utilizou recursos da Alcazar Holdings, empresa na qual Flávio figurava como usuário master da conta bancária.
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A partir de abril de 2025, a Cathedral, ligada ao conglomerado de apostas Rede Loto, passou a custear deslocamentos. No dia 11 daquele mês, Flávio e Tomaz viajaram de Lisboa para Nice, na França. Em maio, voltaram a voar juntos, desta vez de Cascais para Nice, acompanhados de familiares, seguindo depois para Paris. A apuração aponta que a Cathedral pagou pelo menos três trechos aéreos na Europa para o senador.
Disputa por imóvel de luxo em Angra dos Reis
A ligação entre os dois também aparece em uma disputa judicial envolvendo uma propriedade de luxo em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro, avaliada em R$ 10 milhões. Flávio é testemunha no processo entre Tomaz e o jogador Richarlison, que afirma ter comprado o imóvel em 2020.
A propriedade teve seus direitos de posse cedidos, em 2022, à WT Administração, empresa de gestão de ativos imobiliários de Tomaz. Naquele ano, uma liminar reconheceu o direito de uso do espaço em favor do advogado. Richarlison e moradores da região, no entanto, afirmam que Flávio é quem mais frequenta o local.
No dia 17 de outubro, o jogador e um grupo de advogados pediram que a Polícia Federal investigasse a participação do senador na disputa. Richarlison sustenta que o imóvel foi tomado por meio de manobras judiciais. Flávio nega atuação irregular, e Tomaz afirma ter adquirido legalmente os direitos sobre o terreno e desembolsado R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais.
A aproximação entre Flávio e o advogado começou em 2019, quando Tomaz defendeu Marcelo Álvaro Antônio, então ministro do Turismo do governo Jair Bolsonaro, em uma denúncia relacionada ao uso de candidaturas laranjas. Dois anos depois, durante a CPI da Covid, Flávio se referiu publicamente a Tomaz como amigo.
Endereços comerciais e conexões com investigados do INSS
Outra frente de questionamentos envolve empresas associadas a Flávio e a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, investigado em apurações sobre fraudes contra aposentados e pensionistas. Segundo informações divulgadas pelo site ICL, a Bravo Grafeno, empresa de capacetes de grafeno da qual Flávio e Jair Bolsonaro são sócios, funciona no mesmo endereço comercial que a construtora RPLD, ligada a Camilo.
O principal sócio de Camilo é Alexandre Caetano dos Reis. A irmã dele, Letícia Caetano dos Reis, ocupa o cargo de diretora estatutária no escritório de advocacia de Flávio, que funciona em uma casa avaliada em R$ 6 milhões. O senador quitou o imóvel após antecipar R$ 3,4 milhões ao Banco de Brasília (BRB), segundo reportagem da Folha.
O escritório emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, de acordo com informações divulgadas pelo UOL. Metade das notas foi emitida para pagamentos de outros advogados.
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