Deputados de SP repassaram R$ 700 mil empresas ligadas a “Dark Horse”

Levantamento mostra repasses de parlamentares bolsonaristas para instituto e academia de cultura geridos por sócia de produtora de filme sobre Bolsonaro
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Expressão “BolsoMaster” passou a dominar a repercussão política digital. Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

Um levantamento realizado no portal de transparência do estado de São Paulo revelou que deputados estaduais destinaram emendas parlamentares que somam R$ 700 mil para empresas e entidades que possuem vínculos diretos com a produtora do filme “Dark Horse”. Leia em TVT News.

A obra cinematográfica consiste em uma homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O fluxo de recursos públicos direcionados a essa rede empresarial ocorreu no período compreendido entre os anos de 2023 e 2026.

As conexões financeiras e políticas em torno da produção ganharam repercussão após revelações do site Intercept Brasil. A apuração jornalística indicou que o senador Flávio Bolsonaro manteve contatos com Daniel Vorcaro, então proprietário do Banco Master, para solicitar apoio financeiro destinado a viabilizar a realização do longa-metragem.

Conforme as informações publicadas, mensagens eletrônicas enviadas pelo senador cobravam o pagamento de parcelas de R$ 134 milhões até a véspera da prisão do ex-banqueiro, ocorrida em novembro de 2025.

A produtora responsável pelo filme é a empresa Go Up, que possui como sócia-administradora Karina Gama. Além da produtora, Karina controla outras firmas e entidades do setor cultural que recebem repasses de verbas públicas.

A empresária nega a existência de aportes financeiros de investidores nacionais, do Banco Master ou de Vorcaro na produção cinematográfica. Paralelamente, a Polícia Federal abriu uma linha de investigação para apurar se os valores solicitados foram movimentados por meio de um fundo sediado nos Estados Unidos, denominado Havengate, e se tais recursos custearam despesas de Eduardo Bolsonaro em território norte-americano.

Parlamentares bolsonaristas repassaram emendas para filme “Dark Horse”

No âmbito da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), três parlamentares de perfil bolsonarista direcionaram verbas orçamentárias para a estrutura controlada por Karina Gama, que produz o filme. O Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida pela empresária, foi o destinatário principal de indicações de emendas impositivas, cuja execução é obrigatória por parte do poder executivo estadual.

R$ 100 mil emendas parlamentares desviadas pela deputada Valéria Bolsonaro

Em 2023, a deputada estadual Valéria Bolsonaro, que ocupou o cargo de secretária da Mulher na administração do governador Tarcísio de Freitas, destinou R$ 100 mil à instituição. A verba pública, cuja finalidade declarada era a aquisição de equipamentos, teve o seu pagamento efetuado em dezembro daquele mesmo ano.

Deputado Lucas Bove desviou R$ 213 mil de projeto esportivo para crianças

Outro integrante da bancada de apoio ao ex-presidente, o deputado estadual Lucas Bove, formalizou a indicação de R$ 213 mil para o Instituto Conhecer Brasil em 2025.

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O objetivo do recurso era o desenvolvimento de um projeto esportivo voltado para o atendimento de crianças. Contudo, o Governo de São Paulo barrou o pagamento do montante devido a impedimentos de ordem técnica.

De acordo com a gestão estadual, entraves dessa natureza ocorrem em função de ausência de documentos, descumprimento de prazos regimentais ou falta de licenças ambientais e projetos de engenharia. O parlamentar declarou em nota que redirecionou a verba após constatar a falta de documentação por parte da entidade proponente.

Gil Diniz desviou R$ 200 mil para financiar outra série de produtora do filme de Bolsonaro

A rede de entidades gerida pela administradora da produtora também recebeu recursos de Gil Diniz, deputado estadual e ex-assessor de Eduardo Bolsonaro. Em 2025, o parlamentar destinou uma emenda no valor de R$ 200 mil para financiar a produção de uma série documental intitulada “Heróis Nacionais – filhos do Brasil que não se rende”.

O montante foi depositado em agosto de 2025 para a Academia Nacional de Cultura (ANC), instituição também presidida por Karina Gama. Os deputados Gil Diniz e Valéria Bolsonaro não encaminharam respostas aos questionamentos enviados sobre as destinações orçamentárias.

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Flávio teria recebido pelo menos 10 milhões de dólares do dono do Master. Foto: Ton Molina /Agência Senado

A transparência pública registrou ainda a indicação de R$ 190 mil realizada pelo deputado estadual Luiz Fernando, integrante da bancada do PT, destinada a projetos culturais do mesmo Instituto Conhecer Brasil.

O valor aguarda empenho por parte do estado. Interrogada sobre o repasse, a assessoria do parlamentar comunicou que a emenda atende a um pedido formulado por um grupo de teatro de São Bernardo do Campo.

A nota ressalta que o montante será aplicado de forma estrita em aulas de teatro no município e que a organização não governamental em questão foi indicada pelos próprios artistas locais que buscavam o fomento.

Contratos municipais

A apuração dos dados financeiros demonstra que os repasses à estrutura ligada à produtora do documentário não se limitaram à esfera do legislativo paulista. O Instituto Conhecer Brasil expandiu sua atuação na administração pública por meio de contratos com o poder executivo municipal e verbas do orçamento federal.

Na capital paulista, a entidade firmou um termo de colaboração com a Prefeitura de São Paulo, sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes, após participar de um chamamento público realizado em 2024. O termo prevê o recebimento de R$ 108 milhões com a finalidade de implantar o fornecimento de sinal de internet wi-fi em comunidades de baixa renda da cidade.

No Congresso Nacional, o deputado federal Mario Frias destinou, no ano de 2025, emendas parlamentares no valor total de R$ 2,04 milhões para o Instituto Conhecer Brasil, direcionados a programas de letramento digital e práticas esportivas.

Ademais, a série documental produzida pela Academia Nacional de Cultura captou recursos federais significativos em 2024. Os deputados federais Marcos Pollon, Bia Kicis, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem destinaram, em conjunto, R$ 2,6 milhões por meio do mecanismo conhecido como “emenda Pix”. O repasse financeiro teve o estado de São Paulo como intermediário antes de chegar ao caixa da entidade cultural privada.

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