Quase R$ 8 mi em emendas abasteceram entidades ligadas a filme de Bolsonaro

Apuração aberta pelo ministro Flávio Dino aponta que deputados e vereadores destinaram ao menos R$ 7,7 milhões em recursos públicos para organizações vinculadas à produtora de “Dark Horse”
Instituto ligado ao filme recebeu R$ 2 mi de Mario Frias (PL-SP). Foto: Reprodução/Instagram

A crise envolvendo o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, ganhou uma nova dimensão após denúncias revelarem que deputados federais, estaduais e vereadores de São Paulo destinaram ao menos R$ 7,7 milhões em emendas parlamentares para entidades ligadas à produtora do filme. O caso levou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, a determinar abertura de apuração preliminar para investigar possíveis irregularidades na destinação dos recursos. Saiba mais na TVT News.

As informações foram reunidas a partir de denúncias apresentadas pelos deputados federais Tabata Amaral (PSB-SP) e Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), além de levantamentos publicados pelos portais Metrópoles, Folha de S.Paulo e The Intercept Brasil com base em dados de transparência do governo federal, do Governo de São Paulo e da Prefeitura da capital paulista.

O foco das investigações é um conjunto de organizações ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme sobre Bolsonaro. Entre as entidades citadas estão o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Academia Nacional de Cultura (ANC) e a Conhecer Brasil Assessoria.

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Segundo as denúncias, parlamentares ligados ao bolsonarismo direcionaram recursos públicos para projetos administrados por essas organizações enquanto integrantes do próprio grupo político atuavam diretamente na produção de “Dark Horse”.

Mario Frias (PL-SP) no centro da investigação

O principal caso apontado pelas denúncias envolve o deputado federal Mario Frias (PL-SP), que acumula as funções de produtor-executivo e roteirista do filme.

De acordo com os documentos encaminhados ao STF, Frias destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil — sendo R$ 1 milhão para um projeto de “letramento digital” e outro R$ 1 milhão para iniciativas esportivas.

Desde abril, oficiais de Justiça tentam intimar o parlamentar para prestar esclarecimentos sobre os repasses. Diante da dificuldade em localizá-lo, Flávio Dino determinou que a Câmara dos Deputados informe os endereços residenciais de Frias em Brasília e São Paulo.

A assessoria do deputado negou qualquer irregularidade e afirmou que os recursos foram destinados dentro da legalidade.

Rede de repasses em São Paulo

O levantamento também identificou uma rede mais ampla de destinação de emendas envolvendo deputados estaduais e vereadores paulistanos ligados ao campo bolsonarista.

Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a deputada estadual Valéria Bolsonaro (PL-SP) destinou R$ 100 mil ao Instituto Conhecer Brasil para aquisição de equipamentos.

O deputado estadual Lucas Bove (PL-SP) indicou R$ 213 mil para um projeto esportivo ligado à entidade, mas o repasse acabou barrado por impedimentos técnicos. Segundo o parlamentar, a verba foi redirecionada após problemas documentais apresentados pela instituição.

Outro aliado próximo da família Bolsonaro, o deputado estadual Gil Diniz (PL-SP) destinou R$ 200 mil à Academia Nacional de Cultura para custear parte da série documental “Heróis Nacionais — filhos do Brasil que não se rende”.

A mesma produção também recebeu R$ 1 milhão em emenda da deputada federal Carla Zambelli (PL-SP).

Na Câmara Municipal de São Paulo, o ex-vereador Atílio Francisco (Republicanos-SP) aparece como responsável por quase R$ 3,6 milhões em emendas destinadas a projetos ligados às entidades investigadas, incluindo eventos literários gospel e atividades culturais.

O vereador André Santos (Republicanos-SP) destinou R$ 750 mil para realização de um congresso de inovação em educação promovido pela Conhecer Brasil.

Já a vereadora Cris Monteiro (Novo-SP) liberou R$ 100 mil para oficinas tecnológicas voltadas à juventude. Em nota, ela afirmou desconhecer qualquer vínculo entre a entidade beneficiada e a produtora do filme.

A investigação também cita parlamentares federais bolsonaristas como Bia Kicis (PL-DF), Marcos Pollon (PL-MS) e o ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ).

Investigação envolve dinheiro público e privado

A nova frente de investigação se soma às denúncias já reveladas pela série “VAZA FLÁVIO”, do The Intercept Brasil, sobre o financiamento privado de “Dark Horse”.

Reportagens publicadas pelo site mostraram que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria articulado junto ao banqueiro Daniel Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões na cotação da época — para viabilizar a produção cinematográfica.

Até o momento, documentos revelados indicariam transferências de aproximadamente R$ 61 milhões para contas ligadas aos realizadores do filme no exterior.

As investigações da Polícia Federal buscam esclarecer se parte desses recursos teria sido enviada por meio de estruturas financeiras nos Estados Unidos e se valores ligados ao projeto foram utilizados para custear despesas do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no exterior.

Eduardo nega as acusações.

STF mira possível desvio de finalidade

A decisão de Flávio Dino ocorre diante de suspeitas de que recursos públicos destinados formalmente a projetos culturais, esportivos e educacionais possam ter alimentado um ecossistema de organizações ligadas à produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

Segundo os parlamentares autores das denúncias, há indícios de desvio de finalidade na aplicação das emendas parlamentares.

A apuração tramita sob sigilo no STF e deverá analisar documentos, contratos, fluxos financeiros e vínculos societários entre as entidades investigadas e a Go Up Entertainment.

Com o avanço das investigações, cresce a pressão sobre parlamentares do PL e aliados bolsonaristas envolvidos tanto no financiamento público quanto nas negociações privadas relacionadas à cinebiografia do ex-presidente.

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