Fernando Cerimedo, guru de Flávio Bolsonaro, é preso na Bolívia por atentado contra ex-companheira

Preso na Bolívia, Fernando Cerimedo é apontado como guru da extrema direita e atuou na disseminação de fake news contra as urnas eletrônicas na campanha de 2022
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Em julho de 2026, Eduardo Bolsonaro apareceu publicamente com Cerimedo para discutir as urnas eletrônicas. O encontro ocorreu pouco depois de Flávio Bolsonaro ter feito declarações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro em reunião com embaixadores - Imagem: reprodução / redes sociais

O estrategista argentino Fernando Cerimedo, apontado como guru da extrema direita latino-americana e aliado da família Bolsonaro, foi detido na madrugada de 18 de agosto no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, sob acusação de tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada boliviana Nadia Beller.

Beller foi baleada três vezes na noite anterior por dois homens disfarçados de entregadores em frente a um hotel próximo ao Canal Isuto e segue internada. A prisão ocorreu horas depois do atentado, quando Cerimedo tentava embarcar para a Argentina.

A detenção expõe a teia de influência de um operador político que atuou em campanhas eleitorais no Brasil, na Argentina e na Bolívia, construindo uma carreira baseada na disseminação de desinformação sobre sistemas eleitorais, na organização de milícias digitais e na assessoria a governos de extrema direita no continente.

Quem é Fernando Cerimedo e por que ele ganhou influência na extrema direita?

  • Quem é Fernando Cerimedo? Argentino, consultor político, estrategista digital, fundador da agência Numen e ligado ao portal ultradireitista La Derecha Diario. Sua atuação se expandiu por campanhas e disputas políticas na Argentina, Brasil, Chile e Bolívia.
  • Por que Fernando Cerimedo foi preso na Bolívia? Cerimedo foi detido durante a investigação sobre o ataque a tiros contra Nadia Beller. O Ministério Público boliviano passou a investigá-lo por suspeita de tentativa de feminicídio. A defesa nega que ele tenha ordenado ou participado do atentado.
  • Qual a relação de Fernando Cerimedo com a campanha de Flávio Bolsonaro: Cerimedo mantém uma relação política de longa data com a família Bolsonaro e, em julho de 2026, participou de uma live com Eduardo Bolsonaro, dois dias depois de Flávio Bolsonaro ter atacado a credibilidade das urnas em uma reunião com representantes diplomáticos. O Intercept Brasil afirma que Cerimedo voltou a atuar como parceiro da estratégia bolsonarista de questionamento do sistema eleitoral.

Por que Fernando Cerimedo foi preso

Cerimedo foi detido pela Força Especial de Combate ao Crime (FELCC) da Bolívia na madrugada de 18 de agosto, no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra. A prisão ocorreu poucas horas depois de sua ex-companheira, a advogada e analista política boliviana Nadia Beller, ser atingida por três disparos em frente a um hotel.

Segundo relatos da imprensa boliviana e argentina, a vítima recebeu uma mensagem que a levou ao local do atentado. Ela afirma que Cerimedo a convenceu a comparecer. Beller foi surpreendida por dois homens que usavam roupas semelhantes às de entregadores — um deles atirou três vezes contra ela.

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Policiais transferem Fernando Cerimedo, assessor argentino próximo do presidente Rodrigo Paz, do Palácio da Justiça para a prisão de Palmasola, em Santa Cruz, Bolívia, em 21 de agosto de 2026. Cerimedo foi preso pela polícia boliviana em 18 de agosto de 2026 por um ataque a tiros contra sua ex-companheira. (Foto de RODRIGO URZAGASTI / AFP)

O Ministério Público boliviano acusa Cerimedo de tentativa de feminicídio e pediu à Justiça uma prisão preventiva de 180 dias. A defesa de Cerimedo nega que ele tenha participado do ataque.

A investigação ganhou novos elementos depois que o advogado de Beller apresentou às autoridades uma imagem atribuída ao celular de Cerimedo. Segundo o ICL, a anotação fazia referência à possibilidade de “eliminar” a ex-companheira. A defesa contesta a acusação e nega que Cerimedo tenha participado do atentado.

Além da investigação sobre o ataque, as autoridades bolivianas abriram uma apuração por suposto enriquecimento ilícito após encontrarem dinheiro, documentos e equipamentos em imóveis relacionados ao consultor.

O ICL informou que foram encontrados mais de US$ 44 mil, além de valores em moeda boliviana e euros, e equipamentos descritos pelas autoridades como possível estrutura para operação coordenada de contas nas redes sociais. A defesa contesta também essa acusação.

Mensagens sobre “eliminar” a ex e investigação por enriquecimento

O advogado de Nadia Beller entregou às autoridades uma captura de tela do bloco de notas do celular de Fernando Cerimedo com anotações que faziam referência a “eliminar” a ex-companheira. Uma das frases atribuídas ao conteúdo diz: “Ou a eliminamos ou estamos ferrados”.

Além da acusação de tentativa de feminicídio, Cerimedo também é investigado por suposto enriquecimento ilícito. Durante operações de busca em imóveis ligados ao consultor, as autoridades encontraram cerca de US$ 44 mil, além de outros valores em moeda boliviana e euros.

Também foram localizados equipamentos descritos como uma possível “granja de bots” — estrutura usada para operar ou coordenar grande quantidade de contas nas redes sociais.

Quem é Fernando Cerimedo

Cerimedo é um consultor político e estrategista digital argentino que ganhou projeção nos últimos anos como um dos nomes ligados à comunicação da extrema direita latino-americana. Sua trajetória, no entanto, não começou na direita: antes de se aproximar do bolsonarismo e do movimento de Javier Milei, atuou na organização da militância digital do peronismo em La Matanza, ajudando a estruturar estratégias para redes sociais, segmentação de usuários e posicionamento de conteúdos.

Fundador da agência Numen e do portal La Derecha Diario, sua especialidade passou a ser a operação política no ambiente digital, combinando comunicação, mobilização de públicos e estratégias para ampliar o alcance de determinadas narrativas. Trabalhou para nomes como Patricia Bullrich, Jair Bolsonaro e Javier Milei.

O que Cerimedo fez na campanha de 2022 no Brasil

Em outubro de 2022, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, Cerimedo recebeu Eduardo Bolsonaro em Buenos Aires e organizou encontros do deputado com lideranças da extrema direita argentina, incluindo Javier Milei e Victoria Villarruel. A agenda foi apresentada como uma iniciativa para aproximar grupos da direita na região e fortalecer a campanha de Jair Bolsonaro.

Poucas semanas depois da derrota de Bolsonaro, Cerimedo transmitiu pelo La Derecha Diario a live “Brazil Was Stolen” (O Brasil Foi Roubado), vista por mais de 400 mil pessoas, na qual apresentou um dossiê anônimo com alegações falsas sobre as urnas eletrônicas.

A tese foi refutada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que afirmou que todos os equipamentos utilizados nas eleições haviam passado por auditoria e fiscalização.

Cerimedo procurou apresentar sua atuação como independente do bolsonarismo, afirmando que “nem os militares nem ninguém do partido” havia entrado em contato com ele antes da transmissão. As declarações, porém, contrastam com a proximidade registrada entre o consultor e o grupo político.

Qual a relação de Fernando Cerimedo com Eduardo Bolsonaro

A relação de Cerimedo com Eduardo Bolsonaro ganhou força durante a campanha de 2022. O argentino foi apontado como responsável por organizar a viagem de Eduardo à Argentina, e o próprio La Derecha Diario afirmou que o consultor havia “patrocinado” a agenda.

Giovanni Larosa, funcionário ligado a Cerimedo e correspondente do La Derecha Diario no Brasil, recebeu R$ 3,9 mil da campanha de reeleição de Eduardo Bolsonaro para atuar na divulgação de propaganda e no apoio à campanha.

Em 23 de julho de 2026, Cerimedo participou de uma transmissão no canal de Eduardo Bolsonaro no YouTube, na qual retomou alegações já utilizadas em 2022, como uma suposta concentração de votos após as 17h e diferenças entre urnas novas e antigas.

Ao ser questionado sobre a quantidade de equipamentos que precisariam ser adulterados para alterar uma eleição, Fernando Cerimedo respondeu que era necessário “de 5% ou 10% das máquinas para trocar o resultado, nada mais”.

Por que Fernando Cerimedo é considerado o Steve Bannon latino-americano

Cerimedo é frequentemente comparado a Steve Bannon, estrategista da extrema direita norte-americana e ex-assessor de Donald Trump. Assim como Bannon, Cerimedo é um especialista em criar estratégias políticas em ambiente digital sem se balizar por qualquer critério ético.

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Esta imagem, divulgada por democratas do Comitê de Supervisão da Câmara em 18 de dezembro de 2025, mostra o falecido criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein (à direita) conversando com o estrategista político americano Steve Bannon.
Parlamentares democratas divulgaram um novo conjunto de fotos e documentos em 18 de dezembro de 2025, provenientes do espólio de Jeffrey Epstein.

O argentino atua para desestabilizar democracias no continente sul-americano, combinando milícias digitais, violência e corrupção. Segundo o Intercept Brasil, Cerimedo “é um gangster internacional da extrema direita” e “um golpista profissional cuja missão é desestabilizar as democracias do continente e faturar com a corrupção de governos para os quais presta serviços obscuros”.

Fernando Cerimedo chegou a ser indiciado pela Polícia Federal em 2024 durante a investigação que apurou a tentativa de golpe de Estado no Brasil, mas acabou sendo poupado pela Procuradoria-Geral da República.

Brasil corre o risco de interferência estrangeira?

A prisão de Cerimedo expõe um problema mais amplo: a atuação de operadores políticos transnacionais que atuam em diferentes países da América Latina, levando consigo estratégias, métodos e conexões que influenciam processos eleitorais.

Cerimedo é a peça de um projeto internacional de desestabilização das democracias na América do Sul. Sua trajetória demonstra como a extrema direita latino-americana opera de forma integrada, compartilhando milícias digitais, fazendas de cliques e estratégias de desinformação.

O caso levanta perguntas sobre a interferência estrangeira nas eleições brasileiras. Cerimedo, um argentino, atuou diretamente na campanha de 2022 no Brasil e estava programado para ser parceiro importante da campanha de Flávio Bolsonaro em 2026. Sua prisão, portanto, não é apenas um fato policial na Bolívia — é um episódio que revela os riscos da influência externa sobre a democracia brasileira.

50% dos brasileiros acreditam em risco de interferência estrangeira

Pesquisa Datafolha divulgada em 23 de agosto de 2026 mostra que, para 50% dos eleitores brasileiros, há chance de outros países interferirem na eleição brasileira. Desse total:

  • 32% avaliam que há chance de interferência e que isso é um problema
  • 18% avaliam que há chance, mas que isso não é um problema
  • 43% acham que não há chance de interferência estrangeira
  • 8% não sabem ou não responderam

Entre os eleitores de Lula, 36% avaliam que há chance de interferência estrangeira e que isso é um problema; entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, esse percentual é de 25%.

A pesquisa ocorre em meio a conflitos diplomáticos abertos com Argentina e Estados Unidos. O governo Donald Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, e o Itamaraty reduziu o nível das relações com a Argentina após ataques de Javier Milei a Lula.

Especialistas apontam que os Estados Unidos vêm exercendo pressão sobre a América Latina, com a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas e o cerco a governos progressistas.

O contexto torna ainda mais relevante o debate sobre interferência estrangeira nas eleições brasileiras — e a prisão de Cerimedo é um alerta sobre como essa interferência pode se dar por meio de operadores políticos que atuam nas sombras, conectando governos, campanhas e milícias digitais em vários países do continente.

Com informações do ICL, Agência Pública e The Intercept Brasil

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