Um relatório elaborado no âmbito da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que JK não morreu em um simples acidente automobilístico, em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra, mas sim em uma ação promovida pelo regime autoritário que governava o país à época. A história oficial construída durante a ditadura militar sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek pode estar próxima de ruir de forma definitiva. Saiba os detalhes na TVT News.
O parecer, produzido pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso na comissão, está em análise pelos demais conselheiros do colegiado e deverá ser votado em próxima reunião. Com mais de 5 mil páginas entre texto principal e anexos, o documento reúne investigações anteriores, perícias técnicas e fundamentos jurídicos para sustentar a tese de que a morte de JK foi resultado de perseguição política praticada pelo Estado brasileiro.
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A possível aprovação do relatório representa uma reviravolta histórica em um dos episódios mais controversos do período ditatorial. Criada em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, a CEMDP é um órgão de Estado responsável por reconhecer mortes e desaparecimentos ligados à repressão política entre 1961 e 1988, além de subsidiar ações de memória, verdade e reparação.
A versão oficial da ditadura
Juscelino Kubitschek morreu quando viajava de carro entre Rio de Janeiro e São Paulo. O Opala em que estava era conduzido por seu amigo e motorista, Geraldo Ribeiro. Segundo a versão apresentada na época pelas autoridades do regime militar, o carro teria sido tocado por um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem. Após o suposto choque, o veículo perdeu o controle, atravessou o canteiro central e colidiu com uma carreta na pista contrária.
Essa narrativa foi mantida por décadas e chegou a ser reproduzida em apurações posteriores, como por uma comissão externa da Câmara dos Deputados, em 2001, e também pela Comissão Nacional da Verdade, em 2014.
No entanto, sucessivas investigações independentes passaram a apontar inconsistências graves nessa explicação. O novo relatório da CEMDP se apoia justamente nesse conjunto de elementos para afastar a tese de acidente casual.
Perícias desmontam tese do choque com ônibus
Entre os principais fundamentos do parecer está um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019, tornado público em 2021. Considerada uma das apurações mais detalhadas já realizadas sobre o caso, a investigação descartou que tenha havido colisão entre o ônibus e o Opala de JK.
O procurador da República Paulo Sérgio Ferreira Filho afirmou, à época, que houve “falhas severas nas investigações realizadas pelo Estado brasileiro”. Entre elas, a ausência de exames toxicológicos adequados e problemas nos procedimentos periciais adotados durante a ditadura.
Outro ponto central foi o trabalho técnico do engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes convidado pelo MPF para revisar os antigos laudos. Utilizando reconstruções em 3D e análise mecânica, ele concluiu que não havia base técnica para sustentar a hipótese de que o ônibus teria provocado a perda de controle do carro.
Para a relatora Maria Cecília Adão, o conjunto das provas indica que houve uma ação externa responsável por tirar o veículo da pista e causar a colisão fatal.
Contexto político reforça suspeita de atentado
O relatório também destaca que a morte ocorreu em ambiente de intensa repressão política. Cassado após o golpe de 1964, JK teve seus direitos políticos suspensos e permaneceu como uma das principais lideranças civis capazes de articular a redemocratização do país.
Em 1976, ele era associado à Frente Ampla, movimento oposicionista que reuniu nomes como João Goulart e Carlos Lacerda contra o regime militar. O documento cita ainda o contexto da Operação Condor, aliança entre ditaduras do Cone Sul para perseguir, sequestrar e eliminar opositores políticos em toda a região.
Segundo documentos históricos já revelados, o nome de JK aparecia entre lideranças vistas como ameaça à estabilidade dos governos autoritários sul-americanos.
Verdade histórica e reparação simbólica
Caso o parecer seja aprovado, a comissão poderá recomendar a retificação da certidão de óbito de Juscelino Kubitschek e também a de Geraldo Ribeiro, registrando oficialmente que ambos morreram em decorrência de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro.
A medida teria forte peso simbólico e histórico. Diferentemente de outros processos analisados pela comissão, não deve haver indenização financeira à família do ex-presidente, pois os prazos legais para pedidos de reparação já se encerraram.
Ainda assim, o reconhecimento oficial representaria passo importante na reconstrução da memória nacional e no enfrentamento das mentiras produzidas pela ditadura. A revisão do caso JK se soma a outros episódios em que mortes tratadas como acidentes foram posteriormente identificadas como crimes políticos, como ocorreu com a estilista Zuzu Angel.
Legado democrático de JK
Presidente entre 1956 e 1961, JK marcou a história brasileira com o projeto desenvolvimentista sintetizado no lema “50 anos em 5” e pela construção de Brasília. Sua trajetória política, interrompida pelo golpe militar, continuou a incomodar setores autoritários mesmo após a cassação.
Cinco décadas depois, o Brasil segue revisitando crimes cometidos pelo regime instaurado em 1964. O caso Juscelino Kubitschek mostra que a busca por verdade e justiça permanece aberta — e necessária.

