A Stellantis, grupo responsável por marcas como Fiat, Jeep e Peugeot, vê com preocupação o cenário da indústria automotiva argentina. Para Herlander Zola, presidente da companhia na região, a situação argentina preocupa especialmente devido à redução das vendas e aos custos elevados de fabricação. A empresa considera a possibilidade de fechar duas unidades no país: as fábricas de Córdoba e Buenos Aires.
É essa Argentina do tesuoração que é considerada modelo econômico para Flávio Bolsonaro. Entenda com a TVT News.
Argentina em recessão
- Por que a Stellantis quer fechar fábricas na Argentina? O grupo enfrenta queda nas vendas, custos de mão de obra que chegam ao dobro do Brasil e concorrência crescente de veículos chineses importados.
- Que empresas fazem parte do grupo Stellantis? A Stellantis reúne marcas como Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën, Ram, Dodge, Opel e Maserati, entre outras.
- O que isso tem a ver com o Brasil? Flávio Bolsonaro cita a Argentina de Milei como modelo para a política econômica do seu governo, mas o país vizinho enfrenta recessão, fechamento de empresas e aumento da pobreza.
- No Brasil, a Stellantis aumenta investimento. Enquanto considera fechar unidades na Argentina, a montadora anunciou R$ 30 bilhões em investimentos no Brasil entre 2025 e 2030.
Por que a Stellantis quer fechar fábricas na Argentina?
O presidente da Stellantis para a América do Sul, Herlander Zola, admitiu que a empresa avalia diferentes cenários para suas duas fábricas na Argentina: manter ambas, concentrar a produção em uma, fechar uma delas ou encerrar as operações nas duas unidades. As plantas de El Palomar, em Buenos Aires, e Ferreyra, em Córdoba, empregam cerca de 5 mil trabalhadores.
A principal justificativa está nos custos de produção. Segundo Zola, a mão de obra argentina, medida em dólares, é praticamente o dobro da brasileira. Além disso, a cadeia de fornecedores local é reduzida, e a maioria das peças precisa ser importada do Brasil.

A participação de mercado da Peugeot, principal marca do grupo na Argentina, caiu de 9% para 5% em apenas um ano. A produção nacional argentina registrou queda de 16,9%, e a competição com veículos chineses importados se intensificou.
O executivo também destacou que a produção de picapes em Córdoba é mais competitiva do que a de automóveis em El Palomar. Isso indica que a fábrica de Buenos Aires, responsável pelos modelos Peugeot 208 e 2008, enfrenta risco maior.
O que isso tem a ver com o Brasil? Flávio Bolsonaro cita a Argentina de Milei como modelo para a política econômica do seu governo
A situação da indústria automotiva argentina ganha peso no debate político brasileiro porque Flávio Bolsonaro tem apresentado a Argentina de Javier Milei como referência para seu programa econômico. A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, afirmou que o presidente argentino é “um ótimo exemplo” e revelou que a equipe mapeou mais de mil normas para revogar, inspirada nas medidas adotadas no país vizinho.
O plano de Flávio Bolsonaro inclui desregulamentação, redução de impostos e enxugamento da máquina pública, com a promessa de eliminar ao menos dez ministérios. A campanha usa a imagem de uma tesoura como símbolo dos cortes de despesas.
- Leia também: Flávio Bolsonaro mira modelo econômico de Milei apesar de crise e desemprego na Argentina
No entanto, os indicadores econômicos argentinos sob o governo Milei mostram um cenário preocupante. O banco JP Morgan revisou para baixo sua projeção para a economia argentina e passou a prever contração de 4% no terceiro trimestre de 2026. A instituição reduziu sua estimativa de crescimento para o ano de 2,7% para 1,5%.

Os dados sociais também são alarmantes. A pobreza atingia 32,3% da população argentina no primeiro semestre de 2026, cerca de 15 milhões de pessoas. A pobreza extrema alcançava 7,5% da população, aproximadamente 3,5 milhões de argentinos. Mais de 31 mil empresas fecharam as portas e cerca de 245 mil empregos formais foram perdidos sob a gestão “libertária”.
O senador Jaques Wagner (PT-BA) alertou que a economia brasileira pode seguir o mesmo rumo da Argentina caso Flávio Bolsonaro seja eleito.
No Brasil, a Stellantis aumenta investimento
Enquanto avalia o fechamento de fábricas na Argentina, a Stellantis segue na direção oposta no Brasil. Em julho de 2026, a empresa anunciou um ciclo de investimentos de R$ 30 bilhões no país entre 2025 e 2030. O anúncio foi feito durante reunião no Palácio do Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O plano prevê a contratação de 2 mil novos funcionários, sendo 1.500 em Betim (MG) e 500 em Porto Real (RJ), além da geração estimada de 20 mil empregos indiretos na cadeia de fornecedores. A empresa compra anualmente cerca de R$ 60 bilhões em insumos de fornecedores brasileiros, e 95% dos componentes utilizados nos veículos são produzidos localmente.

A Stellantis emprega cerca de 35 mil trabalhadores no Brasil, e sua cadeia de fornecimento gera outros 350 mil postos de trabalho. A ampliação da capacidade industrial inclui a implantação do segundo turno na unidade do Rio de Janeiro e do terceiro turno na fábrica de Betim.
O contraste entre os dois países é evidente: enquanto a Argentina enfrenta recessão, fechamento de empresas e possibilidade de encerramento de fábricas, o Brasil recebe investimentos bilionários e amplia a geração de empregos no setor automotivo.
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, participou, em julho, de reunião com o CEO e diretor executivo da Stellantis, Antonio Filosa, na qual foi apresentado um plano de investimentos R$ 30 bilhões no Brasil, entre 2025 e 2030, em novos produtos, tecnologias e ampliação da geração de empregos, tanto nas fábricas quanto na cadeia de fornecedores.
A Stellantis reforçou recentemente sua estrutura institucional na região, sinalizando que o mercado brasileiro, responsável por 65% dos negócios do grupo na América do Sul, segue como prioridade estratégica.

Também foi anunciada a contratação de 2 mil novos empregados como resultado dos investimentos e da ampliação da produção no Brasil. Leia em TVT News.
A empresa compra, anualmente, cerca de R$ 60 bilhões em insumos de fornecedores brasileiros, reforçando o impacto da indústria automotiva na economia nacional. A companhia informou que 95% da produção é nacional. Todo o aço, plástico e componentes químicos utilizados nos veículos são fornecidos por empresas brasileiras, enquanto motores e transmissões são produzidos pela própria montadora no país.
A decisão final sobre as fábricas argentinas ainda não foi tomada. A empresa afirmou que seus projetos industriais no país seguem vigentes e confirmou a inauguração de uma nova planta de motores em Córdoba para novembro de 2026. No entanto, as declarações de Zola deixam claro que o cenário argentino inspira cautela — e que o modelo econômico citado por Flávio Bolsonaro como referência enfrenta dificuldades concretas na indústria.