Itamaraty acusa “traidores da Pátria” por tarifaço de Trump e reforça que governo brasileiro atuou contra sanções dos EUA

Publicação do Ministério das Relações Exteriores afirma que sanções dos EUA nasceram de articulações contra o Brasil e cobra responsabilização dos envolvidos
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Após visita de Eduardo e Flávio Bolsonaro, envolvidos em esquema bilionário de desvio de dinheiro do Master, Trump decide classificar organizações criminosas como terroristas e, agora, o tarifaço – Foto: Instagram @bolsonarosp

O Ministério das Relações Exteriores divulgou na manhã desta quinta-feira (25) uma manifestação pública nas redes sociais em que atribui a origem do tarifaço anunciado pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros à atuação de setores políticos ligados ao bolsonarismo junto ao governo do presidente Donald Trump. Leia em TVT News.

Na publicação, o Itamaraty afirma que “os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história” e sustenta que a investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos teve origem em uma tentativa de interferência externa em assuntos internos do Brasil, especialmente em temas relacionados ao Poder Judiciário.

A manifestação ocorre em meio ao agravamento da disputa comercial entre Brasília e Washington e poucos dias após a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no processo relacionado à articulação do tarifaço norte-americano.

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Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o governo brasileiro participou ativamente de todas as etapas da investigação aberta pelos Estados Unidos e apresentou argumentos técnicos para contestar as acusações formuladas pela gestão Trump.

O governo brasileiro tem participado ativamente nessa investigação pelos canais diretos de interlocução entre governos”, afirmou o Itamaraty.

A nota também destaca que o Brasil apresentou duas defesas formais por escrito e realizou consultas governamentais em Washington com uma delegação de alto nível para demonstrar que as políticas brasileiras não prejudicam o comércio com os Estados Unidos.

Ao final da publicação, o ministério faz uma crítica direta aos responsáveis pela articulação das medidas comerciais.

O que os traidores da Pátria devem ao Brasil é um pedido de desculpas pelas tarifas e pelos prejuízos causados a milhares de brasileiros”, declarou o órgão.

Como surgiu o tarifaço de Trump contra o Brasil

A atual crise comercial entre Brasil e Estados Unidos ganhou força após a abertura de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo frequentemente utilizado por Washington para justificar medidas unilaterais contra parceiros comerciais.

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Em 2 de junho deste ano, o governo Trump anunciou a possibilidade de impor tarifas adicionais de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros.

A medida foi apresentada após encontro realizado na Casa Branca entre Trumo, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro.

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Após encontro com Flávio e Eduardo, Trump anunciou tarifaço contra o Brasil – Foto: Divulgação

Ao comentar o episódio, Lula afirmou que as conversas entre os dois governos avançavam após uma reunião bilateral realizada com Trump.

Depois do sucesso da minha visita com o Trump (…) o bolsonarismo ficou muito bravo. O que aconteceu? Eles foram lá”, declarou o presidente em evento realizado no Instituto Federal Goiano.

O governo brasileiro passou então a sustentar que o tarifaço foi impulsionado por interesses políticos ligados ao bolsonarismo e não por razões econômicas objetivas.

O que os Estados Unidos alegam

O relatório elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) apresenta críticas a diversas políticas brasileiras para justificar tarifaço.

Um dos principais alvos do documento é o Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado e operado pelo Banco Central.

As autoridades norte-americanas afirmam que o modelo brasileiro favoreceria uma plataforma pública em detrimento de empresas privadas de tecnologia financeira.

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O relatório também questiona decisões judiciais brasileiras envolvendo plataformas digitais norte-americanas, acordos tarifários firmados pelo Brasil com países como México e Índia, políticas ambientais relacionadas ao combate ao desmatamento e até decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo a Operação Lava Jato.

O documento chega a citar a anulação de sentenças da operação pelo STF como um dos elementos utilizados para justificar a investigação comercial.

Para o governo brasileiro, porém, a inclusão de temas judiciais internos demonstra o caráter político da iniciativa.

Governo Lula reagiu com indignação

Quando o relatório preliminar foi divulgado, o Palácio do Planalto publicou uma nota classificando o tarifaço como injustificável.

Segundo o governo, os Estados Unidos acumulam superávits comerciais expressivos na relação bilateral e não possuem fundamento econômico para impor sanções ao Brasil.

O documento destacou que, entre 2011 e 2025, os norte-americanos registraram superávit superior a US$ 424 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil.

O governo também saiu em defesa do Pix, classificando o sistema como uma infraestrutura pública que beneficia milhões de brasileiros.

O Pix é infraestrutura pública e gratuita de pagamentos instantâneos”, afirmou o Planalto.

Na ocasião, a nota oficial já associava a investigação à atuação da família Bolsonaro junto a autoridades dos Estados Unidos.

A investigação teve início por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país”, declarou o governo federal.

Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF

Nest mês, no dia 16 de junho, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou por unanimidade o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro pelo crime de coação no curso do processo do tarifaço.

Segundo a Procuradoria-Geral da República, Eduardo atuou junto ao governo norte-americano para estimular medidas de pressão econômica contra o Brasil, o tarifaço, com o objetivo de beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado no processo da trama golpista.

A acusação sustenta que o ex-deputado buscou incentivar sanções econômicas, restrições diplomáticas e medidas contra ministros do STF.

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No julgamento, os quatro ministros da Primeira Turma acompanharam o voto do relator Alexandre de Moraes.

A PGR argumentou que a estratégia adotada por Eduardo produziu consequências concretas para a economia brasileira.

A estratégia criminosa culminou em prejuízos concretos a diversos setores produtivos onerados pelas sobretarifas norte-americanas, alcançando trabalhadores vinculados a essas cadeias econômicas”, afirmou a Procuradoria.

A condenação representou um marco jurídico importante no debate sobre a responsabilidade política pelas tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

Lula levou discussão ao G7

Em paralelo às negociações bilaterais, Lula buscou ampliar a pressão internacional contra as medidas adotadas pela gestão Trump.

Durante participação na cúpula do G7, realizada na França entre os dias 15 e 17 de junho, o presidente brasileiro defendeu o multilateralismo e criticou o avanço de práticas protecionistas.

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A estratégia do governo consistiu em dialogar com líderes europeus para reforçar a defesa de regras internacionais estáveis de comércio e ampliar o isolamento diplomático da política tarifária norte-americana.

O Planalto passou a tratar o tarifaço não apenas como uma questão econômica, mas também como um tema relacionado à soberania nacional.

Nos bastidores do governo, a avaliação é que a utilização de mecanismos comerciais para pressionar instituições brasileiras representa uma tentativa de interferência em assuntos internos do país.

Impactos do tarifaço para trabalhadores e setores produtivos

Embora diversos produtos tenham sido excluídos da sobretaxa anunciada pelos Estados Unidos, como carnes, café, frutas, aeronaves e insumos farmacêuticos, a ameaça de novas barreiras comerciais gera preocupação em setores exportadores.

Empresários e trabalhadores ligados às cadeias produtivas dependentes do mercado norte-americano acompanham com atenção o andamento da investigação da Seção 301.

O governo brasileiro argumenta que medidas desse tipo podem afetar empregos, investimentos e renda em diversos segmentos da economia nacional.

Por isso, Brasília mantém negociações diplomáticas para evitar a implementação definitiva das tarifas, ao mesmo tempo em que prepara eventuais respostas com base na Lei da Reciprocidade aprovada pelo Congresso Nacional.

Publicação do Itamaraty

A seguir, a íntegra da manifestação divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores nesta quinta-feira (25):

“Investigação da 301 e tarifas contra o Brasil

Os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história. O Brasil sabe que o tarifaço tem sua origem em uma tentativa de interferência externa na justiça brasileira.

As audiências públicas da Seção 301 nos Estados Unidos são espaço de atuação do setor privado e da sociedade civil. Outros importantes parceiros comerciais dos Estados Unidos, como China e União Europeia, tampouco enviam representantes às audiências públicas.

O governo brasileiro tem participado ativamente nessa investigação pelos canais diretos de interlocução entre governos, desde sua abertura em 15 de julho de 2025.

Apresentou duas defesas escritas demonstrando que as políticas brasileiras não prejudicam o comércio com os Estados Unidos e realizou reunião de consultas governamentais com os EUA, em Washington, com delegação de alto nível.

O que os traidores da Pátria devem ao Brasil é um pedido de desculpas pelas tarifas e pelos prejuízos causados a milhares de brasileiros.”

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