“Quero chorar o seu choro/ Quero sorrir seu sorriso Valeu por você existir, amigo”, já cantava Fundo de Quintal em Amizade do álbum “Aí é que Quebra a Rocha”, de 1991. Dia 20 de julho é o dia internacional da amizade e do amigos e a TVT separou aqui algumas amizades icônicas da nossa história.
Na literatura brasileira, por exemplo, amizades estimularam movimentos culturais inteiros. Na música, artistas encontraram parceiros que mudaram suas carreiras. No esporte, jogadores construíram relações que ultrapassaram a rivalidade dentro de campo. Em comum, todas essas histórias revelam que laços de amizade podem fortalecer pessoas e ampliar o impacto de suas contribuições para a sociedade.
Modernismo brasileiro nasceu entre amigos: Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Oswald de Andrade
Entre as amizades mais conhecidas da cultura brasileira está a relação entre Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Embora cada um tenha desenvolvido uma obra própria, os três participaram da transformação da literatura nacional durante o Modernismo.
Mário e Oswald estiveram entre os principais organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, marco da renovação artística brasileira. A convivência entre eles foi intensa, alternando momentos de proximidade e divergências, algo comum entre intelectuais envolvidos em debates sobre os rumos da produção cultural do país.
Já a relação entre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade foi marcada pela troca constante de cartas. O escritor paulista se tornou uma referência para o jovem poeta mineiro, oferecendo críticas, sugestões e incentivo ao longo dos primeiros anos de sua carreira. Essa correspondência acabou registrada como um importante documento da história da literatura brasileira, revelando não apenas discussões sobre poesia, mas também reflexões sobre política, sociedade e o papel do escritor.
Machado de Assis e Joaquim Nabuco: literatura como missão
Outra amizade relevante reuniu dois dos maiores intelectuais brasileiros do século XIX: Machado de Assis e Joaquim Nabuco.
Enquanto Machado consolidava sua posição como um dos principais escritores da língua portuguesa, Nabuco, mesmo sendo monarquista e contrário ao republicanismo, ganhou projeção nacional por sua atuação política e pela defesa da abolição da escravidão. Nas cartas trocadas entre eles, literatura, política e os desafios do Brasil apareciam como temas recorrentes.
Nabuco valorizava profundamente as análises literárias produzidas por Machado de Assis, enquanto o escritor demonstrava respeito pelo compromisso público do amigo.
Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles: a escrita feminina
Entre as mulheres que marcaram a literatura brasileira também nasceu uma amizade.
Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles começaram a ganhar destaque praticamente no mesmo período e enfrentaram um ambiente literário predominantemente masculino. As duas cursaram Direito e se tornaram referências da literatura brasileira, construindo obras reconhecidas nacional e internacionalmente.
A amizade entre elas ficou registrada em entrevistas, encontros e diversas lembranças compartilhadas por Lygia. Um episódio frequentemente citado diz respeito ao conselho dado por Clarice para que a amiga evitasse rir em excesso durante entrevistas porque, segundo ela, muitos homens ainda não levavam mulheres intelectuais a sério.
Mais do que uma observação bem-humorada, a frase refletia as desigualdades enfrentadas por escritoras em uma época na qual o reconhecimento feminino encontrava obstáculos constantes. Clarice também fazia questão de destacar que Lygia não deveria ser considerada uma das melhores escritoras apenas entre mulheres, mas entre todos os grandes autores brasileiros.
Vinicius de Moraes e Toquinho: a amizade e parceria artística

Poucas parcerias musicais brasileiras alcançaram tamanho reconhecimento quanto a formada por Vinicius de Moraes e Toquinho.
Quando começaram a trabalhar juntos, em 1970, Toquinho ainda era um jovem músico. A primeira viagem internacional aconteceu de navio rumo à Argentina, período em que o violonista passou a conhecer mais profundamente o poeta.
Segundo relatos de Toquinho, Vinicius rapidamente transformou a relação profissional em amizade. Durante uma travessia em que o músico passou mal por causa do balanço do navio, Vinicius permaneceu ao seu lado conversando por horas, gesto que marcou o início da convivência entre os dois.
A parceria musical produziu dezenas de canções e espetáculos realizados dentro e fora do Brasil. Toquinho costuma afirmar que ambos cresceram artisticamente durante esse período: Vinicius encontrava um parceiro jovem e talentoso para dar continuidade à sua produção musical, enquanto o violonista passou a trabalhar ao lado de um dos maiores poetas brasileiros.
Também ficaram conhecidas histórias curiosas vividas pelos dois durante viagens internacionais. Em uma delas, Vinicius acreditava ter citado corretamente um verso do poeta chileno Pablo Neruda em uma canção. Ao apresentar a música ao próprio Neruda, descobriu que o trecho, na verdade, pertencia a um tango argentino, situação lembrada por Toquinho com bom humor décadas depois.
A “madrinha” do samba e Zeca Pagodinho

Como não falar da grande “Madrinha do Samba”, Beth Carvalho e um dos maiores sambistas da nossa história, Zeca Pagodinho? Ambos imortalizaram canções em parcerias históricas. Para Arlindo Cruz, compositor de muitas das músicas cantadas por ambos, Beth foi sua melhor intérprete.
Foi no disco “Zeca Pagodinho”, em 1998, logo após o clássico “Pixote”, que Zeca e Beth consagrariam a parceria no samba com a música que conta a história de um casal que se separa e que busca a reconcilização. A letra era de ninguém menos que Arlindo e Sombrinha, e se tornou, na voz dos dois, um dos grandes clássicos do samba brasileiro.

“Me cansei de ficar mudo, sem tentar / Sem falar / Mas não posso deixar tudo como está / Como está você?”, abre Zeca cantando para a parceira Beth, que então abre o vocal com com os seguintes versos:
“Tô vivendo por viver / Tô cansada de chorar / Não sei mais o que fazer / Você tem que me ajudar / Tá difícil te esquecer / Impossível não lembrar você // E você como está”.
A conversa entre os dois amantes continua, mas quando abre o refrão, são os dois que cantam: “Vem pros meus braços / Meu amor, meu acalanto”.
Mas a parceria ultrapassa o sucesso e a sensibilidade que ambos tinham para conduzir plateias. Zeca Pagodinho sempre destacou que sua trajetória ganhou novo rumo depois que a cantora apostou em seu talento.
Durante o velório de Beth Carvalho, em 2019, o sambista afirmou que era apenas compositor antes de ser incentivado por ela a gravar suas músicas. Segundo Zeca, Beth abriu portas para inúmeros artistas e ajudou a renovar o samba brasileiro ao longo de várias décadas.
Quando a madrinha estava doente, ele chegou a relembrar em uma conversa com o Bial quando ele, Arlindo e Sombrinha foram visitar a cantora no hospital em Copacabana.
“Falei, e essa cerveja aí? Eu falei, vou levar. Aí eu botei num saco, um saco preto assim. Chegamos no hospital, a segurança me olhou. ‘Pô, Zeca’. Falei, ‘nós vamos visitar a Bete. A Madrinha tá doente, vamos lá ver a Madrinha’. Entramos na enfermaria lá. ‘Ela tem um violão assim’. ‘Caramba, pega o violão.’ Falei, ‘a gente tá cheio de cerveja aqui’. Aonde a gente ia andando assim? Aquele risco de água assim no chão. Aí pegou o violão. Eu, Arlinho e Sombrinha, aí começamos a cantar samba. Veio as enfermeiras. Pegaram o copinho pra gente beber. Aqueles copinhos de coco”.
Sombrinha e Arlindo Cruz fizeram da amizade parte da história do samba
Outra relação marcante nasceu dentro do Fundo de Quintal. Sombrinha e Arlindo Cruz construíram uma parceria no começo dos anos 1980, período em que participaram da renovação do samba carioca.
Ao recordar a morte de Arlindo Cruz, Sombrinha definiu o amigo como um “gênio” e lembrou que a convivência ultrapassava os palcos. Arlindo era padrinho dos três filhos do músico.
Durante mais de quatro décadas, os dois produziram centenas de composições, gravaram discos, participaram de trilhas sonoras e ajudaram a consolidar um estilo que influenciou diferentes gerações de sambistas.
Fora do Fundo de Quintal, a dupla Arlindo e Sombrinha foi responsável por marcar a história do samba brasileiro, com o disco “Da música”, de 1997, “Samba é a Nossa Cara”, de 1998, “Pra ser feliz”, ainda de 98, ou o clássico “Arlindo e Sombrinha” de 2000.
Com letras de chorar, escrevaram sambas sensíveis sobre o mundo e o amor. Impossível não se emocionar ao ouvir “É sempre assim” na voz dos dois.
“É sempre assim / Tem dias que você me trata bem / Saudade de mim / Buscando aquilo que você não tem // É sempre assim / Tem noites que eu não sei o que é dormir / Saudade de mim / Tem noites que você está aqui // É sempre assim / Num segundo vira as costas, vai embora/ Saudade de mim”, quem nunca chorou em uma roda de samba cantando essa?
Roberto Carlos e Erasmo Carlos
Outra parceria que produziu muita música foi Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
Os dois se conheceram ainda na juventude por intermédio de Tim Maia, aproximaram-se pela paixão comum pelo rock e passaram a escrever canções que marcaram diferentes épocas da música brasileira.
A amizade ganhou projeção nacional durante a Jovem Guarda, movimento cultural que influenciou comportamento, moda e música na década de 1960. Juntos, Roberto e Erasmo assinaram mais de 500 composições, entre elas clássicos como Minha Fama de Mau e É Preciso Saber Viver.
Além da produção artística, a amizade permaneceu ao longo de décadas. Em 1977, Roberto homenageou o amigo com a canção Amigo, composição que se tornou uma das músicas mais conhecidas sobre companheirismo no Brasil.
“Você meu amigo de fé, meu irmão camarada / Sorriso e abraço festivo da minha chegada / Você que me diz as verdades com frases abertas /Amigo você é o mais certo das horas incertas”.
Marília Mendonça, Maiara e Maraisa construíram uma relação de irmandade
No sertanejo, uma das amizades mais lembradas pelo público é a de Marília Mendonça com Maiara e Maraisa.
As três dividiram momentos importantes da carreira e também da vida pessoal. Em entrevistas e homenagens, as irmãs sempre ressaltaram a generosidade da cantora.
Maiara afirmou que Marília jamais deixou de ajudar quem precisava e descreveu a amiga como alguém que sempre oferecia mais do que lhe era pedido. As artistas também relembravam episódios divertidos vividos antes da fama nacional, reforçando a proximidade construída fora dos palcos.
Após a morte de Marília Mendonça, Maiara e Maraisa continuaram prestando homenagens à cantora, destacando o carinho e a amizade que permaneceram como parte importante de suas trajetórias.
Linn da Quebrada e Liniker

Entre as amizades mais representativas da cena cultural brasileira contemporânea está a construída por Linn da Quebrada e Liniker.
As duas se conheceram antes da projeção nacional, dividiram moradia, dificuldades financeiras e o sonho de viver da arte. Também enfrentaram juntas os desafios impostos pela discriminação contra pessoas trans e negras no Brasil.
Em diversas entrevistas, Liniker recordou que Linn literalmente abriu as portas de sua casa quando elas ainda buscavam espaço no cenário musical. Durante esse período, chegaram a enfrentar dificuldades para garantir alimentação e renda.
Com o passar dos anos, ambas conquistaram reconhecimento nacional. Liniker tornou-se uma das principais vozes da música brasileira contemporânea, enquanto Linn consolidou uma carreira marcada pela atuação artística e pela defesa dos direitos da população LGBTQIAPN+.
A amizade voltou a emocionar o público recentemente, quando Linn acompanhou um grande show de Liniker em São Paulo. O encontro foi interpretado por muitos admiradores como símbolo de uma relação construída com solidariedade, afeto e resistência.
E no futebol… O bruxo e o Fenômeno
Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho são um dos exemplos mais conhecidos. Companheiros na conquista da Copa do Mundo de 2002, desenvolveram uma relação baseada em admiração mútua.
Ronaldinho sempre definiu Ronaldo como referência para diferentes gerações de jogadores e afirmou ter orgulho da amizade construída ao longo da carreira. Já Ronaldo costuma chamar o ex-companheiro de “Bruxo”, apelido que se tornou conhecido entre torcedores.
Jude Bellinham e Erling Haaland
Jude Bellingham e Erling Haaland são ex-companheiros de Borussia Dortmund. Hoje em dia, Bellingham joga no Real Madrid e Haalnd no Manchester City e se enfrentaram na Copa do Mundo de 2026 defendendo Inglaterra e Noruega. Mesmo como rivais, a amizade jamais morreu.
Após a vitória inglesa, Bellingham procurou imediatamente Haaland para consolá-lo. Em declaração que repercutiu internacionalmente, afirmou que durante aqueles 90 minutos o rival continuava sendo seu irmão.

