O deputado federal Chico Alencar afirmou que as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) desempenham um papel relevante no sistema democrático, mas operam inevitavelmente como espaços de disputa política, com decisões seletivas sobre quem investigar. Em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, o parlamentar comentou os desdobramentos da CPI do Crime Organizado no Senado, que apura relações entre agentes públicos, empresas e o sistema financeiro no escândalo envolvendo o Banco Master. Leia em TVT News.
“A CPI, qualquer CPI, é necessariamente um palco de disputa política. Maiorias consolidadas ou eventuais fazem uma seletividade”, afirmou Alencar, ao comentar a rejeição de requerimentos para convocação de nomes relevantes e a quebra de sigilos de investigados. Para ele, é equivocado tratar a CPI como instrumento exclusivo de oposição. “Ela é instrumento do Parlamento, mas tem poderes investigativos limitados, não tem poder judicial de condenação”, explicou.
O deputado destacou que, apesar dessas limitações, as CPIs cumprem uma função importante de dar publicidade aos fatos. “Quando vai lá um suspeito, uma figura proeminente de alguma questão cabeluda, é bom porque pela primeira vez ele vai ou se calar, o que já revela muita coisa, ou falar”, disse. Segundo Alencar, essa dimensão pública diferencia as CPIs de investigações conduzidas pela Polícia Federal ou pelo Ministério Público.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
Sobre o caso do Banco Master, o parlamentar classificou o episódio como um dos mais graves escândalos financeiros recentes. Ele citou estimativas de prejuízos bilionários e a presença de “gente graúda” entre os possíveis envolvidos. “Há estimativas de R$ 12 bilhões e tem muita gente proeminente nesse esquemão”, afirmou. Para Alencar, o avanço das investigações pode depender de delações premiadas. “O que vai fazer avançar mesmo é uma eventual e bem provável delação”, avaliou, mencionando movimentações na defesa de investigados como indicativo dessa possibilidade.
O deputado também criticou o que chamou de “sucessão de desatinos e escândalos” e defendeu punição rigorosa aos responsáveis. Ao mesmo tempo, ressaltou que a condução política das CPIs pode distorcer o foco das investigações. “CPI acaba sendo, por ser palco de disputa política, seletiva: ‘não vamos chamar esse aqui, vamos preservar aquele outro’”, afirmou.
Durante a entrevista, Alencar também alertou para os efeitos negativos da exposição contínua de escândalos e da transformação da política em espetáculo. Ele concordou com a avaliação de que o excesso de denúncias, muitas vezes misturadas a fofocas, pode gerar descrédito generalizado. “Há um perigo muito grande da generalização, e isso leva água para o moinho da antipolítica”, disse.
Segundo o parlamentar, esse ambiente favorece especialmente a extrema direita, que se alimenta do descrédito nas instituições. “O ódio à política gera despolitização e vai se caminhar para soluções baseadas em mitos, figuras salvadoras. Isso não é minimamente civilizatório”, afirmou. Ele também criticou a superficialidade de parte do debate público. “A fofocada, que é muito própria da internet, fica na mediocridade, na superfície”, disse, ao comentar a circulação de rumores sobre a vida pessoal de parlamentares.
Alencar defendeu que é fundamental diferenciar práticas ilícitas de generalizações sobre a classe política. “Não se pode achar que todo deputado é igual”, afirmou, citando casos recentes de parlamentares condenados por desvio de emendas. Para ele, esses episódios devem ser tratados com rigor, mas sem alimentar a ideia de que a política é, por natureza, corrupta.
Nesse sentido, o deputado anunciou que seu partido pretende atuar para impedir que parlamentares condenados continuem exercendo mandato. “É incompatível que, com uma condenação, ainda que em regime semiaberto, venham aqui votar, decidir, discursar”, disse. Ele defendeu o afastamento imediato desses políticos e a abertura de processos no Conselho de Ética.
O parlamentar também criticou o funcionamento do próprio Conselho, relatando episódios recentes que, segundo ele, evidenciam falta de compromisso com a responsabilização. “Tem faltado ética e decoro no Conselho de Ética”, afirmou, ao mencionar tentativas de adiar votações e evitar quórum para análise de casos.
Apesar das críticas, Alencar reiterou a importância das instituições democráticas e da política como instrumento de transformação social. “Não é possível dizer que a corrupção é estrutural e faz parte da política. É possível e necessário fazer política com transparência, voltada para o interesse público”, afirmou.
Para o deputado, o desafio central é garantir que investigações avancem com consistência, sem cair em disputas meramente narrativas ou espetacularização. “O importante é que o escândalo seja desvendado e que quem tiver se deixado levar por esse esquema seja apurado e eventualmente condenado”, concluiu.

