Em greve há 21 dias, o que os professores da cidade de SP querem?

Assembleia da terça-feira (19) decide pela manutenção do movimento, mesmo sob ameaça de corte salarial.
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Ansiedade, depressão e síndrome de Burnout foram os transtornos mentais mais citados pelos professores da cidade em uma pesquisa realizada em 2025. Foto: Rafael Sampaio

A greve deflagrada pelos profissionais da educação da cidade de São Paulo iniciou-se no dia 29 de abril. Embora questões salariais façam parte das reivindicações, docentes afirmam que lutam também por melhores condições de trabalho, pela implementação de ações voltadas à saúde dos educadores e pela garantia da segurança no exercício da profissão. Uma nova assembleia foi marcada para quinta-feira (21). Leia em TVT News.

Professores da cidade de São Paulo seguem em greve, mesmo com ameaça de corte salarial

Por Rafael Sampaio, estagiário, sob supervisão do jornalista Alexandre Barbosa

Sem acordo com os servidores da educação, no dia 13, a prefeitura encaminhou e obteve aprovação da câmara de vereadores da cidade de um reajuste de 3,51%, parcelado em duas vezes (a primeira de 2%, com efeito imediato; e a segunda parcela de 1,51% a ser aplicada em 2027).

O percentual aplicado é inferior à inflação do período. O IPCA acumulado nos últimos 12 meses foi de 4,39%, segundo o IBGE. Além da insatisfação com o reajuste aplicado, professores e demais profissionais da educação insistem que as reivindicações são mais amplas.

Uma nova assembleia foi marcada para a quinta-feira (21). Neste mesmo dia, uma ação de dissídio coletivo impetrada pela prefeitura e que trata da abusividade da greve vai ser julgada no Tribunal de Justiça da capital.

Mais de 80% dos professores da cidade de SP relatam problemas de saúde mental

Ansiedade, depressão e síndrome de Burnout foram os transtornos mentais mais citados pelos professores da cidade em uma pesquisa realizada em 2025. O estudo foi liderado pela pesquisadora Lucí Ana Santos da Cunha, doutoranda da Faculdade de Saúde Pública da USP. Para o trabalho, a pesquisadora entrevistou mais de 2.500 professores e contou com o auxílio do Centro de Estatística Aplicada do Instituto de Matemática e Estatística da USP para o tratamento estatístico dos dados levantados.

A pesquisa também mostrou que 63,5% dos docentes entrevistados licenciaram-se do trabalho por motivos de saúde no período de 12 meses anteriores à entrevista. As causas mais comuns dos afastamentos foram pressão alta (17%), diabetes (5%) e problemas ortopédicos (5%). Os profissionais da educação da cidade não dispõem de plano de saúde.

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A prefeitura alega que os educadores podem usar os serviços do HSPM (Hospital do Servidor Público Municipal); contudo, a instituição sofre com a falta de investimentos. Vagas limitadas para consultas, longas esperas e falta de médicos tornam o atendimento no HSPM difícil. Em abril deste ano, um alagamento interditou um andar inteiro do hospital.

Claudio Fonseca, presidente do Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem) afirma “queremos que a prefeitura formalize com prazos e datas a implementação de ações voltadas ao cuidado da saúde física e mental de quem trabalha na educação”.

Um dos pontos reivindicados é a implementação de um programa de saúde ocupacional voltado aos professores. Esse programa seria elaborado considerando as especificidades da função docente com intuito de analisar e de propor ações para minimizar as razões de adoecimento físico e mental.

Salas superlotadas, ausência de recursos materiais, violência nas escolas e excesso de burocracias são alguns dos fatores de adoecimento apontados pelos docentes. O presidente do Sinpeem alega que não bastasse a falta de compromisso real com a saúde do professor, a prefeitura “ataca aqueles que adoeceram”. Desde o ano passado, a prefeitura de São Paulo tenta reduzir o salário dos professores afastados há mais de 30 dias e dos readaptados por razões médicas.

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Salas superlotadas, ausência de recursos materiais, violência nas escolas e excesso de burocracias são alguns dos fatores de adoecimento apontados pelos professores da cidade de SP. Foto: Divulgação/Aprofem

A prefeitura alega que esses profissionais não teriam direito a uma parcela de cerca de 30% dos vencimentos mensais referente à formação docente. A última investida da prefeitura nesse tema foi a própria lei que trata do reajuste salarial. Nela, um artigo aprovado pela câmara dos vereadores, ratifica a redução salarial de educadores adoecidos.

Vereadores chamam professores de vagabundos

A violência contra quem trabalha na educação não ocorre apenas nas escolas. Pelo segundo ano seguido, vereadores paulistanos sobem à tribuna da Câmara para gritar com entusiasmo ofensas contra os professores da cidade. “Somos vagabundos porque estamos de greve, mas só estamos de greve porque não somos ouvidos”, diz a professora de História Anita Maria.

O sindicato dos educadores afirma que as reivindicações sobre saúde mental, segurança e condições de trabalho não são novas. São pedidos realizados reiteradamente já há alguns anos. As negociações da pauta deste ano começaram em novembro de 2025. Apesar das inúmeras conversas e encontros entre os representantes do governo e dos educadores, “nada de concreto é realizado”, afirma o presidente do Sinpeem.

Diante de um cenário alarmante, a greve é o último recurso; justificam os docentes ouvidos nesta reportagem. Ouvir os professores parece ser necessário já que os indicadores educacionais atingidos pelas escolas da cidade não são animadores.

A nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) das escolas paulistanas foi de 5,6 para os anos iniciais (1º ao 5º) e de 4,8 para os anos finais (6º ao 9º). Ambas as notas são inferiores a meta estabelecida pelo MEC para a cidade de São Paulo (Ministério da Educação). O Ideb varia de 0 a 10, sendo a nota 6 considerada a mínima adequada para as escolas brasileiras. 

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