O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu nesta sexta-feira (29) à decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Durante anúncio de investimentos da Petrobras em Sergipe, Lula afirmou que o Brasil não aceitará interferências externas e fez um duro discurso em defesa da soberania nacional. Veja os detalhes na TVT News.
“Não brinquem com a soberania desse país, não brinquem com a democracia, não duvidem das coisas que nós fazemos aqui nesse país”, declarou o presidente.
A medida foi anunciada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, com aval do presidente Donald Trump. A classificação passa a valer a partir de 5 de junho e enquadra as facções brasileiras na legislação antiterrorismo dos Estados Unidos.
Durante o discurso, Lula reconheceu que PCC e Comando Vermelho promovem terror nas periferias brasileiras, mas criticou a forma como os EUA tratam o tema. “O Trump quer um ‘Osama Bin Laden’, mas nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá”, afirmou. O presidente também lembrou que grande parte das armas usadas pelo crime organizado no Brasil entra no país por contrabando vindo dos Estados Unidos.
Cobrança por extradições
Lula afirmou que já discutiu o combate ao crime organizado diretamente com Donald Trump e aproveitou para cobrar a extradição de brasileiros que vivem em território americano.
“Vamos começar por entregar o Ramagem, que está condenado a 16 anos e está escondido lá”, disse o presidente, referindo-se ao ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento na trama golpista que pretendia impedir sua posse em 2023.
O presidente também citou o contrabandista Ricardo Magro, apontado como residente em Miami. “Quer combater o crime organizado? Me entregue os criminosos que estão lá nos Estados Unidos”, declarou.
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Governo brasileiro emite nota “é deplorável que a família Bolsonaro defenda intervenção no Brasil”
Leia a nota completa emitida pelo governo brasileiro sobre a designação do PCC e CV como organizações terroristas
O Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as demais facções e milícias que praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro.
O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional.
A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros.
É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país.
Aprovamos recentemente uma lei de combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a maior prevista em toda a legislação brasileira. O Governo do Brasil conduz o programa “Brasil contra o Crime Organizado”, que combate as facções e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima.
O crime organizado não respeita fronteiras e seu combate exige ação conjunta. Construímos, ao longo de décadas, parcerias com vários países, inclusive com os Estados Unidos. O Brasil apresentou em 16 de abril deste ano, ao Departamento de Estado dos EUA, uma proposta focada na inteligência e na cooperação internacional que inclui ampliação dos controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas enviadas ao Brasil.
Qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e a nossa economia.
Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros.
Em resumo, trata-se de possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país.
A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança.
Governo do Brasil
Críticas aos Bolsonaro
Lula ainda direcionou críticas à família Bolsonaro, especialmente ao senador Flávio Bolsonaro, que buscou apoio norte-americano para pressionar o Brasil.
“Um filho de um bolsonarista, que é candidato à eleição aqui neste país, não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria e ir aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil”, afirmou.
Segundo Lula, Flávio Boslonaro e seu clã estariam incomodados com a possibilidade de sua reeleição em 2026. “Eles sabem que eu vou ganhar outra vez as eleições para a Presidência da República”, disse.
O presidente também ironizou a postura de integrantes do bolsonarismo. “Se ele [Flávio Bolsonaro] fosse pedir intervenção para prender milicianos, eles ficavam presos lá”, declarou.
Temor sobre recursos naturais
Ao comentar a postura dos Estados Unidos, Lula demonstrou preocupação com possíveis interesses estrangeiros sobre riquezas brasileiras, como minerais estratégicos, petróleo e a Amazônia.
“Temos terras raras, petróleo, muito ouro, diamante, a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, 12% da água doce do planeta… Daqui a pouco ele [Trump] diz: ‘A Amazônia é nossa’”, afirmou.
O presidente ressaltou que o Brasil mantém disposição para combater o crime organizado sem necessidade de tutela internacional. Como exemplo, citou a proposta de emenda constitucional da Segurança Pública, em tramitação no Senado, além da criação de um Ministério da Segurança Pública.
“Se quiserem combater o crime organizado, não precisa pedir ajuda pra ninguém. Aprova a PEC da Segurança Pública que no mês seguinte terá o Ministério da Segurança Pública”, concluiu.
Medida gera tensão diplomática
A classificação das facções como organizações terroristas pode abrir margem para operações extraterritoriais de inteligência e até ações militares unilaterais sob a justificativa de combate ao narcoterrorismo.
Integrantes do governo brasileiro também apontam riscos econômicos, como bloqueio de ativos, restrições financeiras e aumento da insegurança jurídica para empresas brasileiras que atuam no mercado norte-americano.
O Palácio do Planalto sustenta que PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas voltadas ao lucro por meio do tráfico de drogas e armas, sem motivação ideológica, política ou religiosa, características tradicionalmente associada ao terrorismo internacional.

