Incêndios na Amazônia são 31% menores que nas últimas 4 décadas

Amazônia registra menor área queimada em 41 anos, com queda do desmatamento e alerta para riscos do El Niño
Queimada ilegal na Floresta Amazônica às margens da rodovia BR-230 (Rodovia Transamazônica), nas proximidades da cidade de Humaitá, no estado do Amazonas, norte do Brasil, em foto registrada em 4 de setembro de 2024. Incêndios florestais atingiram diversas regiões do Brasil por várias semanas, especialmente a Floresta Amazônica, no Norte, e o Pantanal, no Centro-Oeste do país. (Foto: Michael Dantas/AFP)

Dados divulgados pelo MapBiomas mostram que a Amazônia registrou a menor área queimada desde o início da série histórica, em 1985, revertendo o cenário de devastação observado em 2024, quando a seca extrema impulsionou incêndios em larga escala. Leia em TVT News.

Segundo o levantamento, a Amazônia teve 3,1 milhões de hectares queimados em 2025, uma redução expressiva em relação aos 15,8 milhões de hectares registrados no ano anterior. Em todo o país, a área atingida pelo fogo caiu para 12,7 milhões de hectares, o menor patamar desde 2018 e 31% abaixo da média histórica das últimas quatro décadas.

O resultado é considerado relevante porque a Amazônia desempenha papel central na regulação do clima global. A floresta funciona como importante sumidouro de carbono, absorvendo gases de efeito estufa e ajudando a conter o aquecimento do planeta. A redução das queimadas também diminui a emissão de poluentes e contribui para preservar a biodiversidade e os territórios de povos indígenas e comunidades tradicionais.

De acordo com a coordenadora do MapBiomas Fogo e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Ane Alencar, a redução ocorreu por uma combinação de fatores climáticos e ambientais. O atraso do período chuvoso entre 2024 e 2025 impediu a formação das condições normalmente favoráveis à propagação do fogo em diversas regiões.

Outro fator apontado pelos pesquisadores foi a queda do desmatamento, que reduziu as fontes de ignição na floresta. Grande parte das queimadas na Amazônia ocorre após a derrubada da vegetação para abertura de áreas destinadas à agropecuária ou ao garimpo ilegal. Com menos áreas desmatadas, também diminuiu o uso do fogo para limpeza dos terrenos.

Efeito observado nas comunidades rurais

O levantamento ainda destaca um efeito observado nas comunidades rurais após os incêndios descontrolados de 2024. O receio de uma nova temporada de grandes queimadas teria levado produtores e moradores a adotarem maior controle sobre o uso do fogo.

Os números reforçam uma tendência registrada desde o início do atual governo federal. Dados oficiais também indicam que o primeiro semestre de 2026 apresentou a menor taxa de desmatamento da Amazônia na última década. Desde 2023, o governo Lula afirma que trabalha para cumprir a meta de eliminar o desmatamento ilegal até 2030 por meio do fortalecimento da fiscalização ambiental e de ações integradas entre diferentes órgãos públicos.

Apesar do avanço, especialistas alertam que o cenário ainda exige atenção. A Amazônia e o Cerrado continuam concentrando 86% de toda a área queimada no Brasil desde 1985. Em 2025, o Cerrado permaneceu como o bioma com maior área atingida pelo fogo, somando 8,7 milhões de hectares queimados, embora também tenha registrado redução em relação à média histórica.

O Pantanal apresentou a maior queda proporcional entre os biomas, com apenas 121 mil hectares queimados, enquanto a Caatinga foi a exceção, registrando aumento das áreas queimadas em comparação com o ano anterior.

Outro ponto de preocupação está relacionado à recorrência dos incêndios. O MapBiomas aponta que 64% das áreas queimadas no Brasil sofreram mais de um episódio de fogo desde 1985. Na Amazônia, cerca de um terço dessas áreas volta a queimar em até dois anos, intervalo considerado insuficiente para a recuperação da vegetação.

Segundo o pesquisador Luiz Felipe Martenexen, do MapBiomas Fogo e do Ipam, a repetição frequente dos incêndios aumenta a vulnerabilidade da floresta e dificulta sua regeneração natural, favorecendo novos eventos de maior intensidade.

El Niño

Os pesquisadores também chamam atenção para a possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño no segundo semestre. O fenômeno costuma prolongar os períodos de estiagem e elevar as temperaturas, aumentando significativamente o risco de incêndios florestais em diferentes regiões do país.

Para Ane Alencar, a perspectiva reforça a necessidade de manter investimentos em fiscalização, prevenção e combate ao fogo. Segundo a pesquisadora, anos influenciados pelo El Niño costumam apresentar maior extensão das áreas queimadas, exigindo planejamento antecipado dos órgãos ambientais.

O estudo mostra ainda que 71,5% de toda a área atingida pelo fogo nas últimas quatro décadas corresponde à vegetação nativa. Na Amazônia e na Mata Atlântica, entretanto, predominam incêndios em áreas já modificadas pela atividade humana, principalmente pastagens e áreas agrícolas, evidenciando a relação entre desmatamento e queimadas.

Embora os resultados de 2025 representem uma mudança importante em relação ao ano anterior, especialistas destacam que a redução das queimadas precisa ser sustentada por políticas públicas permanentes. A continuidade da fiscalização, da proteção dos territórios tradicionais, da responsabilização por crimes ambientais e do fortalecimento dos órgãos de controle é apontada como fundamental para consolidar essa tendência e reduzir os impactos das mudanças climáticas sobre a Amazônia e os demais biomas brasileiros.

* Com informações da AFP

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