A Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC) anunciou a suspensão de sua chamada assistência climática à Argentina após declarações do presidente Javier Milei durante a convenção partidária do PL (Partido Liberal), onde a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência foi oficializada.
A entidade comunicou a interrupção por tempo indeterminado das atividades de assistência climática que diz desenvolver no país vizinho desde a década de 1980 e condicionou a retomada da cooperação a um pedido formal de desculpas do governo argentino.
Segundo comunicado divulgado pela fundação nas redes sociais, a decisão foi tomada após Milei fazer ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, durante o evento do PL.
Para a entidade, as declarações representam uma ofensa ao Brasil e motivaram a suspensão imediata da assistência que diz prestar ao território da Argentina.
A fundação reforçou que a interrupção ocorre no momento em que o fenômeno El Niño volta a influenciar as condições climáticas na América do Sul.
Em sua manifestação, a organização declarou que a Argentina permanecerá sem esse acompanhamento enquanto não houver uma retratação oficial por parte do presidente argentino.
A Fundação Cacique Cobra Coral se apresenta como uma instituição voltada à prevenção de desastres naturais por meio de intervenções espirituais e esotéricas.
Criada em 1931 pelo médium Ângelo Scritori, a organização afirma atuar para reduzir os impactos provocados por fenômenos climáticos extremos e sustenta que desenvolve ações em parceria com órgãos públicos e administrações municipais em diferentes regiões do Brasil.
De acordo com a tradição divulgada pela entidade, Scritori incorporava o espírito do Cacique Cobra Coral, personagem ao qual atribui intervenções relacionadas ao equilíbrio climático e à prevenção de eventos extremos. Após sua morte, em 2002, a fundação passou a ser conduzida por sua filha, Adelaide Scritori, mantendo a mesma linha de atuação.
Cooperação com Argentina existiria desde a Guerra das Malvinas
Segundo a própria fundação, a cooperação com a Argentina teria começado durante a Guerra das Malvinas, em 1982, e permanecido ao longo dos primeiros governos democráticos do país após o fim da ditadura militar, período em que teria participado de diferentes ações voltadas ao enfrentamento de problemas climáticos e energéticos.
Entre os episódios citados está uma operação realizada no início de 1989, durante uma grave crise energética enfrentada pelos argentinos.
A fundação sustenta que promoveu uma intervenção espiritual com o objetivo de favorecer a ocorrência de chuvas sobre bacias hidrográficas afetadas pela estiagem, buscando elevar o nível dos reservatórios utilizados para geração de energia elétrica e reduzir os riscos de desabastecimento.
Essas iniciativas fazem parte do conjunto de ações que a entidade denomina “assistência climática”, expressão utilizada para definir intervenções que, segundo sua crença, seriam capazes de influenciar fenômenos meteorológicos e minimizar impactos provocados por secas, tempestades ou outros eventos extremos.
Ao justificar a suspensão dessa atuação, a fundação ressaltou que a relação construída ao longo de mais de quatro décadas ultrapassa governos e administrações, mas afirmou considerar inaceitáveis as declarações recentes do presidente argentino contra autoridades brasileiras.
A decisão foi divulgada poucos dias depois de Milei participar da convenção do Partido Liberal no Brasil, onde fez críticas ao presidente Lula e também ao ministro Alexandre de Moraes.
As falas ampliaram o desgaste diplomático entre Brasília e Buenos Aires, marcado por sucessivos episódios de tensão desde a posse do presidente argentino.
No comunicado, a Fundação Cacique Cobra Coral afirmou que continuará acompanhando as condições meteorológicas na região, mas declarou que não realizará novas ações voltadas especificamente ao território argentino enquanto o impasse permanecer.
Conhecida por afirmar que realiza intervenções para minimizar impactos climáticos em cidades brasileiras, a entidade já anunciou, ao longo das últimas décadas, atuações relacionadas à realização de grandes eventos, períodos de estiagem, enchentes e operações destinadas a favorecer chuvas em regiões afetadas pela seca.
Em diferentes ocasiões, também informou manter cooperação com órgãos públicos e administrações municipais para acompanhamento de fenômenos meteorológicos.
Com a suspensão anunciada nesta semana, a fundação afirma encerrar, ao menos temporariamente, uma parceria que vinha sendo mantida desde o início da redemocratização argentina e que atravessou diferentes governos dos dois países.
A retomada da chamada assistência climática dependerá de uma manifestação formal do governo de Javier Milei em relação às declarações feitas durante o evento político realizado no Brasil.