Dirceu: pressão de Trump pode virar rejeição a Flávio Bolsonaro

Ex-ministro afirma que interferência dos EUA é uma “agressão ao Brasil”, critica antipetismo e diz que disputa em São Paulo será decisiva
Na avaliação do petista, associação entre candidatura de Flávio Bolsonaro e interferência estrangeira pode ter efeito negativo. Foto: Divulgação

A prorrogação, por Donald Trump, do estado de emergência nacional em relação ao Brasil pode produzir um efeito contrário ao pretendido pela extrema direita brasileira. Essa é a avaliação do ex-ministro da Casa Civil e candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo, José Dirceu, em entrevista ao TVT News Primeira Edição.

Para ele, a interferência do governo norte-americano na política brasileira, incluindo as manifestações de apoio à família Bolsonaro, tende a provocar rejeição entre setores do eleitorado e pode prejudicar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. Saiba mais na TVT News.

“Na verdade, nós estamos assistindo a uma agressão ao Brasil”, afirmou Dirceu ao comentar a decisão de Trump de estender por mais um ano o estado de emergência relacionado ao país. Segundo ele, a medida representa uma forma de pressão política e econômica sobre o Brasil.

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A declaração ocorreu após a apresentação, durante o programa, da informação de que Trump prorrogou a medida e voltou a acusar o governo brasileiro de perseguir Jair Bolsonaro, seus familiares e apoiadores. O documento também faz críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), embora a renovação, por si só, não estabeleça novas tarifas ou sanções.

Para Dirceu, o movimento de Trump está diretamente relacionado à disputa eleitoral brasileira. “Ele quer eleger o Flávio Bolsonaro, que é um candidato do [Javier] Milei, é um candidato do Trump”, afirmou.

Na avaliação do petista, entretanto, a associação entre a candidatura de Flávio Bolsonaro e a interferência estrangeira pode ter efeito negativo nas urnas. “Não acredito que isso dentro do Brasil se transforme em voto pro Flávio. Vai transformar em rejeição e perda de bases eleitorais”, disse.

Dirceu destacou especialmente setores das classes médias que, segundo ele, podem rejeitar uma intervenção estrangeira na política nacional por defenderem pautas democráticas, ambientais e de direitos humanos.

Trump e os riscos para o Brasil

O ex-ministro também classificou como preocupante a utilização de instrumentos econômicos e financeiros pelos Estados Unidos. Segundo Dirceu, a política de Trump envolve “uso do dólar, das sanções, de bloqueios e guerra” e coloca o Brasil diante de uma situação que exige atenção política.

Ao mesmo tempo, ele ponderou que os efeitos econômicos da pressão norte-americana podem ser administrados pelo Brasil. Citando a diversificação das relações comerciais brasileiras, Dirceu avaliou que o país tem condições de superar os impactos das medidas, como já teria feito diante do primeiro episódio do chamado “tarifaço”.

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Entrevista coletiva de Lula após a reunião do G7: recado a Trump. Imagem: Reprodução/ Agência Gov

Para o candidato petista, o principal desafio, portanto, está na disputa política e eleitoral. “Nós temos que focar na disputa política eleitoral”, afirmou.

Dirceu também relacionou o cenário internacional à necessidade de o Brasil ampliar investimentos em ciência, tecnologia, educação e industrialização. A avaliação converge com o discurso apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem defendido o fortalecimento da capacidade tecnológica brasileira como resposta às disputas entre grandes potências.

Antipetismo tem raízes históricas, diz Dirceu

Outro eixo importante da entrevista foi a análise das origens do antipetismo. Ao ser questionado sobre o peso do antiesquerdismo, do anticomunismo e das pautas de costumes na disputa eleitoral, Dirceu afirmou que a rejeição ao PT antecede a própria fundação do partido.

“O antipetismo existiu mesmo antes do PT existir”, afirmou.

Segundo ele, a origem dessa oposição está relacionada ao próprio nascimento do Partido dos Trabalhadores, construído a partir do movimento sindical, das lutas populares, das comunidades de base e da resistência à ditadura militar.

Dirceu considera que o antipetismo ganhou uma dimensão particularmente forte entre 2013 e 2021, período que, em sua avaliação, foi marcado por intensa disputa política e institucional contra o partido. Ele citou o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva como episódios que, posteriormente, tiveram seus fundamentos questionados ou anulados pela Justiça.

Na avaliação do ex-ministro, apesar da ofensiva contra o PT, o partido manteve uma base social, política e cultural consolidada. Como exemplo, citou a votação de Fernando Haddad em 2018, quando o então candidato petista chegou ao segundo turno mesmo com Lula impedido de disputar a eleição.

“Ter 32 milhões de votos com o Lula preso ilegalmente, injustamente, proibido de fazer campanha, é que nós criamos nesse país uma consciência política”, declarou.

Dirceu também afirmou que a disputa atual ultrapassa o campo eleitoral e envolve valores, comportamento e transformações sociais. Ele mencionou questões como igualdade racial, direitos das mulheres, diversidade, direitos LGBT e proteção ambiental como temas que passaram a ocupar espaço central na sociedade nas últimas décadas.

Para ele, a reação conservadora a essas mudanças é parte de um fenômeno internacional que também se manifesta no Brasil.

Juros, concentração de renda e mercado financeiro

A entrevista também abordou a relação entre o mercado financeiro e as eleições de 2026. Dirceu criticou a política monetária brasileira e defendeu mudanças na estrutura tributária.

Ao comentar dados apresentados pelo programa sobre os lucros dos bancos brasileiros, o ex-ministro fez uma distinção entre a importância do mercado de capitais e aquilo que classificou como “dominância do capital financeiro”.

“O problema do Brasil não é o endividamento das famílias, são juros”, afirmou.

Dirceu criticou especialmente as taxas cobradas no crédito e argumentou que o elevado custo financeiro reduz o poder de compra dos trabalhadores e limita o crescimento econômico.

Para ele, o Brasil tem condições de crescer de forma mais acelerada, desde que consiga ampliar investimentos em infraestrutura, ciência, tecnologia e indústria. O ex-ministro também defendeu uma reforma tributária progressiva como parte de uma transformação estrutural do país.

“Nós estamos assistindo a um suicídio histórico: a concentração de renda, estrutura tributária e o juro alto”, declarou.

Na visão apresentada na entrevista, a questão central não seria a existência de bancos ou do mercado de capitais, mas a concentração da riqueza e a forma como os juros e a tributação afetam a distribuição da renda nacional.

São Paulo será decisivo na eleição presidencial

Ao analisar a pesquisa Genial/Quaest apresentada pelo programa, que apontava Flávio Bolsonaro com 34% e Lula com 30% em São Paulo no primeiro turno, Dirceu relativizou os números e afirmou que a eleição ainda não começou efetivamente.

O levantamento citado também mostrava Tarcísio de Freitas com 41% e Fernando Haddad com 26% na disputa pelo governo paulista.

Para Dirceu, o cenário em São Paulo será decisivo para a eleição presidencial de 2026. Ele lembrou o peso eleitoral do estado e sustentou que um eventual empate entre Lula e seu principal adversário em território paulista teria grande significado para a disputa nacional.

“O empate em São Paulo significa que a eleição está resolvida”, afirmou, ao destacar o peso do estado no eleitorado brasileiro.

O candidato a deputado federal também criticou a administração de Tarcísio de Freitas e citou problemas envolvendo transporte público, privatizações, educação, saúde, universidades e institutos de pesquisa.

Dirceu avaliou ainda que o governador paulista conta com uma imagem positiva construída por setores da imprensa, mas que essa percepção poderá ser confrontada durante a campanha eleitoral.

“Eu acredito que a eleição não começou ainda para governador aqui em São Paulo”, afirmou.

Para ele, a candidatura de Haddad poderá crescer à medida que a campanha apresentar aos eleitores uma avaliação sobre as políticas implementadas pelo atual governo paulista.

“Principal papel nosso é mudar o Congresso Nacional”

Apesar de reconhecer dificuldades e a existência de uma conjuntura internacional marcada por guerras e pela pressão dos Estados Unidos, Dirceu se mostrou confiante na possibilidade de reeleição de Lula.

O petista destacou a composição da base política do presidente e mencionou partidos como PT, PSB, PDT, PSOL, Rede, PCdoB e PV, além de setores de MDB, PSD e União Progressista.

Ele também apontou a necessidade de a esquerda disputar o voto de jovens e trabalhadores que desejam melhorar suas condições de vida, especialmente diante de problemas como emprego de baixa renda, transporte, segurança pública e acesso a serviços.

Para Dirceu, porém, a eleição presidencial não será suficiente para garantir mudanças estruturais. A composição do Congresso Nacional será determinante.

“O principal papel nosso é mudar o Congresso Nacional, é criar uma outra correlação de força dentro do Congresso para permitir as mudanças que o país precisa nos próximos quatro anos”, afirmou.

Aos 80 anos, José Dirceu volta à disputa eleitoral como candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo. Ex-dirigente estudantil, militante da resistência à ditadura militar, fundador do PT e ex-ministro da Casa Civil no primeiro governo Lula, ele encerrou a entrevista ao TVT News Primeira Edição defendendo uma campanha capaz de combinar a disputa presidencial com a reconstrução de uma maioria política no Parlamento.

Em meio à pressão do governo Trump, à polarização política e à disputa pela Presidência e pelos governos estaduais, a avaliação de Dirceu é que 2026 será uma eleição marcada não apenas pela escolha de quem ocupará o Palácio do Planalto, mas também pela definição da correlação de forças que determinará a capacidade do próximo governo de implementar mudanças econômicas e sociais.

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