Lula discursa na ONU nesta terça-feira

Presidente brasileiro fará pela 10ª vez o discurso de abertura da Assembleia Geral e deverá abordar Gaza, guerras, crime organizado e relações internacionais
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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura do Debate Geral da 80.ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas. Sede da Assembleia Geral das Nações Unidas, Nova York (EUA) - Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursa nesta terça-feira (22) na abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Esta será a 10ª vez que o presidente brasileiro abre os trabalhos do principal encontro anual da organização. Lula já ocupou a tribuna nas edições de 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2023, 2024 e 2025. Leia em TVT News.

A presença brasileira na abertura segue uma tradição iniciada em 1955. Desde então, o Brasil é o primeiro país a discursar no debate geral, seguido pelo país-sede. A prática está relacionada à atuação de Oswaldo Aranha, que presidiu a Assembleia Geral da ONU em 1947, nos primeiros anos da organização.

Ao longo de mais de duas décadas, alguns temas permaneceram presentes nos discursos de Lula, entre eles a defesa da paz, o combate à fome e a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU. Apesar da permanência dessas questões, a abordagem do presidente mudou conforme o cenário internacional e as prioridades de cada período de governo.

Acompanhe o discurso do Lula no jornal da TVT:

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“Dirijo-me em particular ao secretário das Nações Unidas. Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres
foi testemunha direta dos crescentes desmandos da superpotência. Seu presidente, essa é a décima ocsião em em que abro o debate geral dessa assembleia. Desde que ocupei pela primeira vez essa tribuna em 2003, esse é o momento mais crítico das Nações Unidas.

O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra.

Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exércitos nem arsenais, nunca foi tão pequena.

Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel.

(…)

Lula volta a defender reforma do Conselho de Segurança

A reforma do Conselho de Segurança aparece nos discursos analisados desde a primeira participação de Lula na abertura da Assembleia Geral. Atualmente, o órgão possui cinco membros permanentes, Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França, que têm poder de veto.

Qualquer alteração na Carta da ONU depende do aval desses países, o que está entre os pontos relacionados à discussão sobre mudanças na estrutura da organização.

Em 2003, Lula classificou o papel da ONU na promoção da paz e da justiça como “insubstituível”. Anos depois, o tom mudou. Em 2024, o presidente afirmou que a organização estava cada vez mais “esvaziada e paralisada”. No discurso de 2025, disse que sua autoridade estava “em xeque”.

A mudança também aparece na agenda dos pronunciamentos. Entre 2003 e 2008, Lula abordava temas como os subsídios agrícolas concedidos por países ricos, a Rodada de Doha, os biocombustíveis e os efeitos da crise financeira. A partir de seu retorno à tribuna, em 2023, passaram a ganhar espaço assuntos como a extrema direita, as mudanças climáticas, a regulação das grandes plataformas digitais, a inteligência artificial e a defesa da soberania.

Gaza e os conflitos internacionais

A questão palestina também passou por mudanças na forma como foi abordada por Lula. Em 2004, o presidente afirmou que o povo palestino estava distante de alcançar a autodeterminação. Em 2024, utilizou a expressão “punição coletiva” para se referir à situação em Gaza. No ano seguinte, falou em “genocídio”.

Para o discurso desta terça-feira, a previsão é de que Lula trate das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e da situação em Gaza, dentro de uma abordagem voltada aos conflitos internacionais e ao papel do multilateralismo.

O texto preparado para a fala também deve abordar a soberania nacional e a defesa da democracia. Segundo informações apresentadas por integrantes do governo e diplomatas envolvidos na preparação do discurso, esses temas devem ocupar espaço relevante na manifestação do presidente.

Soberania e relação com os Estados Unidos

A versão mais recente do discurso não faz referência direta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem ao chamado Escudo das Américas, iniciativa de segurança norte-americana na região que é interpretada pelo governo brasileiro como uma reedição do Plano Colômbia, com foco na repressão e no afastamento da China do hemisfério.

Isso não significa, porém, que temas relacionados à relação entre Brasil e Estados Unidos estejam fora da fala. Lula deverá defender a soberania brasileira, repudiar interferências externas e defender a cooperação internacional em áreas de interesse comum.

Nas relações comerciais, a expectativa é de que o presidente critique a adoção unilateral de barreiras tarifárias pelos Estados Unidos. A orientação apresentada para o discurso é evitar que essa crítica se transforme em um confronto direto com o governo norte-americano.

A posição busca combinar a defesa da autonomia brasileira com a tentativa de manter abertas as relações diplomáticas e comerciais com Washington.

Combate ao crime organizado entra na agenda

Outro assunto que ganhou espaço na preparação do discurso é o combate ao crime organizado. Lula deverá defender a cooperação entre países no enfrentamento às organizações criminosas, ao mesmo tempo em que deve sustentar que as políticas de segurança adotadas dentro do território brasileiro precisam respeitar a soberania nacional.

O tema ganhou maior sensibilidade nas relações com os Estados Unidos depois que o governo Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Nesse contexto, o governo brasileiro demonstra preocupação com possíveis iniciativas externas que possam ser interpretadas como interferência em assuntos domésticos. A expectativa é que Lula trate da necessidade de cooperação internacional sem abrir mão da autonomia do Estado brasileiro para definir suas próprias políticas de segurança.

Dez discursos e mudanças no cenário internacional

A participação desta terça-feira será a décima abertura de Assembleia Geral da ONU feita por Lula. Ao longo desse período, seus pronunciamentos acompanharam transformações no cenário internacional e também mudanças na agenda política brasileira.

Temas presentes desde os primeiros discursos, como paz, fome e reforma do Conselho de Segurança, continuam no roteiro. Ao mesmo tempo, questões que ganharam força nos últimos anos, como democracia, soberania, mudanças climáticas, inteligência artificial e regulação das plataformas digitais, passaram a ocupar mais espaço.

Para 2026, a fala deve reunir esses diferentes eixos, com atenção aos conflitos internacionais, à situação em Gaza, à reforma das instituições multilaterais, à defesa da democracia, à soberania dos países e à cooperação no combate ao crime organizado.

Por tradição, após Lula, o segundo discurso da abertura será feito pelo representante dos Estados Unidos, Donald Trump. O encontro desta terça-feira, portanto, também colocará em sequência as manifestações dos presidentes dos dois países sobre temas que envolvem relações internacionais, comércio, segurança e soberania.

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