Uefa aprova boicote à Fifa e pressiona Infantino a desistir de plano para Copa do Mundo

Entidade europeia de futebol afirma que a Copa do Mundo não deve ser submetida à participação de investidores privados e ameraça abandonar torneios da Fifa
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O presidente da FIFA, Gianni Infantino, posa com o troféu da Copa do Mundo da FIFA de 2026 após o sorteio da repescagem europeia para a Copa do Mundo da FIFA de 2026, na Casa do Futebol da FIFA, em Zurique, em 20 de novembro de 2025. (Foto de Fabrice COFFRINI / AFP)

A Uefa aprovou, junto às 55 federações nacionais filiadas à entidade, a possibilidade de boicotar competições organizadas pela Fifa caso o presidente Gianni Infantino mantenha o projeto de transferir parte dos ativos comerciais da Copa do Mundo para investidores privados. Leia em TVT News.

A decisão foi tomada em uma reunião de emergência realizada nesta quinta-feira (30) e representa a reação mais contundente da Europa desde que a proposta foi apresentada.

Segundo o posicionamento aprovado pelas associações europeias, nenhuma seleção vinculada à Uefa participará de torneios da Fifa enquanto o plano permanecer em discussão, a menos que ele seja integralmente abandonado e a entidade apresente garantias de que não abrirá a propriedade comercial de suas competições a investidores privados.

Caso a medida seja levada adiante, o impacto poderá atingir diretamente a Copa do Mundo. Países como Inglaterra, França, Espanha, Alemanha, Itália e Portugal ficariam de fora dos torneios organizados pela Fifa, comprometendo tanto o nível técnico da competição quanto sua atratividade esportiva e econômica.

Infantino que vender a Copa do Mundo?

A reação europeia ocorre após a divulgação do projeto conduzido por Gianni Infantino para criar uma empresa responsável por administrar os ativos comerciais das principais competições da Fifa.

A proposta prevê que essa subsidiária concentre direitos de transmissão, patrocínio, licenciamento e outras receitas relacionadas aos torneios internacionais, permitindo posteriormente a venda de uma participação minoritária para investidores privados.

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Embora a Fifa sustente que manteria o controle da governança esportiva, a iniciativa provocou forte resistência entre dirigentes europeus. Para a Uefa, a proposta ultrapassa limites considerados históricos na administração do futebol internacional e foi elaborada sem o debate prévio com as principais entidades envolvidas.

Criação da Fifa Forward Enterprise (FFE)

O projeto apresentado por Gianni Infantino prevê a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), uma empresa subsidiária que concentraria a gestão dos ativos comerciais da Fifa, como os direitos de transmissão e afins.

Na etapa seguinte, a proposta autoriza a venda de uma participação minoritária dessa empresa para investidores privados. Segundo a Fifa, a governança esportiva permaneceria sob controle da entidade, enquanto o ingresso de novos recursos ampliaria a capacidade de investimento no desenvolvimento do futebol mundial.

Infantino tem apresentado a iniciativa como uma forma de ampliar o financiamento destinado às associações nacionais. De acordo com o projeto, após a conclusão da operação financeira, cada uma das 211 federações filiadas à Fifa teria acesso a um aporte inicial de até US$ 20 milhões, valor que poderia chegar a US$ 40 milhões ao longo do programa para investimentos em infraestrutura, formação de atletas e fortalecimento das federações.

O modelo, porém, abre espaço para uma mudança significativa na forma como os principais ativos econômicos do futebol internacional passariam a ser administrados.

Embora a Fifa afirme que manterá o controle institucional das competições, críticos da proposta apontam que a entrada de investidores privados cria novos interesses econômicos sobre um patrimônio construído ao longo de décadas pelas federações nacionais e pelas confederações continentais.

O que diz a Uefa sobre o plano de Infantino

Em comunicado, a confederação europeia afirmou que determinadas decisões não podem ser tratadas exclusivamente sob a lógica comercial.

Na avaliação da entidade, a Copa do Mundo constitui um patrimônio do futebol internacional e sua estrutura não deve ser submetida a modelos de participação privada que possam alterar a forma de gestão da principal competição da modalidade.

A Uefa também criticou a condução do processo por parte da Fifa. Segundo a entidade, o projeto foi apresentado sem consultas amplas às confederações continentais e às federações nacionais, o que aumentou a insatisfação entre os dirigentes europeus.

A entidade sustenta que a Copa do Mundo pertence ao futebol e que não deve ser submetida a modelos de propriedade privada, posição que norteia a decisão de aprovar o boicote enquanto a proposta continuar em discussão.

Proposta pode avançar apesar do posicionamento da Uefa

Apesar da posição adotada pela Europa, a proposta ainda poderá avançar. Isso porque o estatuto da Fifa estabelece que mudanças desse tipo dependem da aprovação da maioria simples das 211 associações nacionais que integram a entidade.

Como Gianni Infantino consolidou uma ampla base de apoio ao longo de seus anos na presidência, principalmente entre federações da África, da Ásia e das Américas, a iniciativa continua com possibilidade de ser aprovada mesmo sem o respaldo da Uefa.

Outro ponto que ampliou a tensão foi o prazo estabelecido pela presidência da Fifa para que as associações nacionais deliberem sobre a proposta. Segundo documentos encaminhados às federações, as entidades têm 53 dias para manifestar sua posição.

Países que rejeitarem o novo modelo deixam de receber grande parte dos recursos previstos

Ainda de acordo com o plano apresentado, países que rejeitarem o novo modelo poderão deixar de receber parte significativa dos recursos previstos nos programas de financiamento da Fifa, mecanismo que financia projetos de desenvolvimento do futebol em diversos continentes.

A decisão europeia ocorre em um momento de calendário intenso para as seleções nacionais. Caso o impasse não seja resolvido antes do encerramento do prazo estipulado pela Fifa, os primeiros reflexos poderão atingir competições internacionais programadas para os próximos meses, incluindo torneios das categorias de base e partidas das eliminatórias organizadas pela entidade.

Estaria Trump por trás da proposta de Infantino?

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Trump e Infantino em encontro. Foto: Casa Branca

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Outro elemento que tem chamado atenção é a articulação política em torno do projeto. As negociações para captação de investimentos privados envolvem a Thrive Capital, fundo comandado por Josh Kushner, cunhado de Ivanka Trump, filha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A Fifa também informa que o executivo Greg Maffei atua como consultor comercial na iniciativa.

A aproximação entre Infantino e Trump vem sendo construída nos últimos anos. Nesse período, a Fifa abriu um escritório na Trump Tower, em Nova York, concedeu ao presidente norte-americano um prêmio criado pela entidade e manteve interlocução frequente com o governo dos Estados Unidos, país que será uma das sedes da Copa do Mundo de 2026.

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