Doméstica assina escritura de mansão de Angra associada a Flávio Bolsonaro, mostra reportagem

Lídia Mazelli presidia negócios de Willer Tomaz, incluindo mansão em Angra e empresa de bets; ela nega conhecer o advogado
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A empregada doméstica e a mansão em que ela aparece na escritura. Fotos: ICL Notícias/Reprodução

Os jornalistas Paulo Motoryn e Alice Maciel, na newsletter Noites Húngaras, em parceria com o ICL Notícias, fizeram uma reportagem que mostra uma doméstica presidindo, no papel, empresas de investigado na fraude do INSS ligado a Flávio Bolsonaro. Entenda com a TVT News.

Durante um ano e meio, Lídia Maria Figueiredo Mazelli, 61 anos, trabalhou no escritório do advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL). Desde que deixou o emprego, em setembro de 2020, passou a responder, ao menos no papel, como dirigente de 14 empresas ligadas ao antigo patrão. Entre os negócios está uma empresa relacionada à mansão em Angra dos Reis associada a Flávio Bolsonaro.

O que a reportagem mostra sobre Lídia Mazelli e os negócios de Willer Tomaz

  • Documentação mostra que Lídia Mazelli preside negócios imobiliários, de aviação e do setor de apostas de Willer Tomaz, embora tenha sido localizada vivendo de forma simples no Distrito Federal.
  • Lídia Mazelli foi localizada na periferia do DF e negou conhecer Willer Tomaz. Ela afirmou aos jornalistas que trabalha como doméstica e disse desconhecer que seu nome aparecesse à frente das empresas.
  • Veja também o vídeo de Fábio Porchat, que aborda relações entre a Igreja Batista da Lagoinha, o Banco Master, Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro na série “Revelando”.

Doméstica preside no papel empresas de investigado na fraude do INSS ligado a Flávio Bolsonaro

Segundo a investigação publicada pelo ICL Notícias e pela newsletter Noites Húngaras, Lídia Maria Figueiredo Mazelli, de 61 anos, trabalhou por cerca de um ano e meio no escritório de Willer Tomaz. O vínculo formal com o escritório Willer Tomaz Advogados ocorreu entre março de 2019 e setembro de 2020.

Depois do encerramento do contrato de trabalho, documentos consultados pelos jornalistas mostram que Lídia passou a aparecer em cargos de direção de empresas relacionadas ao advogado.

A reportagem identificou seu nome em 14 empresas, incluindo negócios relacionados a imóveis, aviação, comunicação, investimentos, mineração e meios de pagamento. Uma dessas empresas opera um hangar para jatos executivos em Brasília. Outra, a RioPag, atua no processamento de pagamentos de casas de apostas credenciadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).

Willer Tomaz foi alvo de busca e apreensão em agosto, no âmbito da Operação Sem Desconto, da PF. A operação investiga suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS.

O advogado, por meio de sua assessoria, nega envolvimento nas fraudes e afirma que a premissa da reportagem sobre Lídia é falsa. Segundo a defesa, ela seria administradora de empresas, formada há mais de 20 anos e com experiência em cargos de gestão.

De funcionária a presidente dos negócios de Willer Tomaz

Os registros trabalhistas consultados pela reportagem indicam que Lídia teve vínculo formal com o escritório de Tomaz até 1º de setembro de 2020. Quatro dias depois, em 5 de setembro, ela já aparecia como dirigente da Jet Line Locação e Serviços Aéreos.

Na mesma época, passou a integrar a direção da WT Administração de Imóveis e Bens. Segundo os documentos levantados, Lídia permaneceu ligada às duas empresas até 2024.

O nome dela também apareceu nos registros de empresas como Difusora Comunicação, Embrasis, Jota Comunicação, Rádio Caxias, Carbon Cer, Alcazar, RioPag, Friponor, Capital Pretium, Neoverde e Ícaro Aviation.

Antes de trabalhar no escritório, Lídia havia sido representada judicialmente pelo próprio Willer Tomaz em um processo de inventário. Em 2019, ela declarou nos autos que não tinha condições de arcar com custas e honorários sem comprometer seu sustento e afirmou ser “pessoa pobre na acepção jurídica do termo”.

Procurada pela reportagem, Lídia afirmou que trabalha como doméstica e negou conhecer Willer Tomaz. Também disse não saber por que seu nome aparecia nos registros empresariais.

Inicialmente, a assessoria de Tomaz afirmou que a mulher encontrada pelos jornalistas não era a administradora das empresas. Depois de ser confrontada com documentos, mudou a versão e reconheceu que se tratava de Lídia. A defesa passou a afirmar que ela ocupa cargos de gestão e que não teria trabalhado como doméstica para o grupo.

Lídia, Tomaz, Flávio e a disputa polêmica pela mansão de Angra

Como diretora-presidente da WT Administração de Imóveis e Bens, Lídia assinou documentos relacionados à disputa judicial pela posse de uma mansão na Ilha Comprida, em Angra dos Reis.

O imóvel, avaliado em cerca de R$ 10 milhões, havia sido comprado em 2020 pela Sport 70, empresa ligada ao jogador Richarlison. Em 2022, uma decisão judicial transferiu a posse da propriedade para uma empresa de Willer Tomaz. O processo foi encerrado em junho de 2025, com decisão favorável ao advogado.

Flávio Bolsonaro não era parte do processo, mas foi arrolado como testemunha pelos advogados ligados ao jogador. Segundo a reportagem, o senador esteve na mansão duas vezes antes de a empresa de Tomaz obter a posse.

O empresário Antônio Marcos da Silva, que havia vendido o imóvel ao grupo ligado a Richarlison, afirmou à Folha de S.Paulo e ao ICL Notícias que Flávio e Tomaz se apresentavam como sócios durante uma visita à propriedade. A assessoria de Tomaz contesta esse relato e afirma que Flávio Bolsonaro não participou da aquisição nem possui participação no imóvel.

Em fevereiro de 2026, Flávio Bolsonaro comemorou o aniversário da filha em outra mansão na Ilha Comprida, também relacionada a Willer Tomaz. Segundo reportagem do ICL Notícias citada na investigação, a propriedade é administrada pela Prime You, empresa de compartilhamento de bens de luxo ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Lídia Mazelli presidiu empresa dona de ilha em Angra dos Reis

Os negócios nos quais Lídia aparece como dirigente também incluem uma empresa relacionada à Ilha do José André, em Angra dos Reis.

Segundo levantamento citado pelo ICL Notícias e pela newsletter Noites Húngaras, a ilha tem 56 mil metros quadrados e chegou a ser anunciada por R$ 17 milhões em um site especializado em imóveis de luxo.

Lídia assumiu a presidência da Friponor Brasil Turismo, empresa responsável pela propriedade, em novembro de 2023. Cerca de um ano e meio depois, ela assinou um pedido ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para obter informações sobre a possibilidade de instalação de um empreendimento turístico no local. A empresa questionava se poderia ocupar 10% ou 20% da área da ilha.

O tema ganhou outro ponto de conexão com Flávio Bolsonaro. Em agosto de 2026, durante um ato de campanha em Angra dos Reis, o senador defendeu alterações para facilitar o licenciamento de condomínios, grandes empreendimentos e resorts na região. A reportagem aponta que uma eventual mudança poderia beneficiar interesses empresariais ligados a seu amigo Willer Tomaz.

Empregada doméstica ‘participou’ de administração de empresa de apostas

Outra empresa que teve Lídia em seu quadro de administração foi a Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia, atualmente chamada RioPag S/A.

A companhia foi contratada pela Loterj para processar depósitos, pagamentos e saques das casas de apostas credenciadas pelo governo do Rio de Janeiro. O contrato foi estimado em R$ 32 milhões, com duração de cinco anos.

A contratação foi questionada. Segundo informações citadas na reportagem, apenas duas empresas participaram da licitação. A Idea Maker foi desclassificada depois de apresentar uma proposta de repasse de 26% das receitas ao Estado com duas casas decimais, enquanto o edital exigia três.

Com a desclassificação da concorrente, a Pixs permaneceu na disputa. A proposta inicial previa repasse de 20%, mas posteriormente a Loterj acertou uma taxa de 26,455%.

Depois de vencer a licitação, a Pixs transferiu sua sede do Paraná para o Rio de Janeiro e Lídia passou a aparecer em sua direção. A Loterj acusa a RioPag de ter deixado de repassar R$ 20,9 milhões ao Estado, acusação que integra as controvérsias em torno da empresa.

Os elos entre Flávio e Willer

A relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz é pública desde 2021. Durante a CPI da Covid, o senador se referiu ao advogado como “meu amigo Willer Tomaz”. No ano seguinte, Flávio tentou indicar Tomaz para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça, mas a indicação não avançou.

A proximidade continuou nos anos seguintes. Segundo informações citadas pelo ICL Notícias, pela TVT News e por O Globo, a PF identificou pelo menos cinco viagens internacionais feitas pelos dois no primeiro semestre de 2025. Em uma delas, Flávio e Tomaz viajaram com as famílias para a África do Sul e participaram de um safári com o senador Weverton Rocha.

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Advogado próximo de Flávio Bolsonaro foi alvo da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em benefícios do INSS. Foto: Divulgação/Willer Tomaz Advogados Associados.

Outro ponto de contato envolve um imóvel usado por Flávio durante a campanha presidencial de 2026. O apartamento pertencia a uma empresa ligada a Tomaz e, antes disso, havia sido propriedade de Fabiano Zettel, apontado como cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro.

Flávio e Tomaz também aparecem na defesa de um mesmo cliente em uma disputa judicial de R$ 159 milhões no Superior Tribunal de Justiça.

A reportagem ainda cita a abertura do escritório de advocacia de Flávio em Brasília, em 2021. À Agência Pública, Letícia Caetano dos Reis afirmou ter sido indicada por Willer Tomaz para administrar o negócio do senador. Tomaz negou a informação.

Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio de Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Alexandre também é proprietário da Voga Serviços Contábeis, responsável pela contabilidade de empresas de Flávio Bolsonaro.

Em reportagem anterior, a TVT News mostrou que Willer Tomaz foi alvo da Operação Sem Desconto e que a PF apura movimentações financeiras de aproximadamente R$ 45,5 milhões em contas relacionadas ao advogado entre maio e novembro de 2021. A defesa de Tomaz afirma que ele não é investigado por desvios de aposentados e que não possui relação com as fraudes no INSS.

Para entender: veja também o vídeo de Fábio Porchat

O segundo episódio da série “Revelando”, apresentado por Fábio Porchat, aborda relações entre religião, negócios e política envolvendo personagens ligados ao caso do Banco Master.

Intitulado “Grandes Igrejas, Master Negócios”, o episódio parte do casamento de Natália Vorcaro e Fabiano Zettel, realizado sob a bênção do pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha. A produção apresenta conexões entre diferentes personagens, entre eles Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

O episódio está disponível gratuitamente no YouTube. A TVT News também mostrou que o perfil do “Revelando” no Instagram foi retirado temporariamente do ar pela Meta após a repercussão do conteúdo, mas voltou a ficar disponível no mesmo dia.

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