Flávio Bolsonaro divulga carta golpista

Carta de Flávio Bolsonaro ignora derrota nas urnas, se compara a Guaidó e tenta transformar fuga em exílio político
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Flavio Bolsonaro desembarca de uma aeronave após chegar ao Aeroporto Executivo de Opa-Locka, em Miami, Flórida, no dia 28 de outubro de 2026. O candidato presidencial de direita derrotado, Flavio Bolsonaro, desembarcou hoje de um avião particular na Flórida — fato presenciado pela AFP —, apesar de uma ordem judicial que o proibia de deixar o país. Sua aeronave pousou no Aeroporto Executivo de Opa-Locka, nos arredores de Miami, vinda da Argentina e com uma escala no Equador, em meio a especulações que circulavam há dias sobre o seu paradeiro. (Foto de Ricardo ARDUENGO / AFP)

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos, divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e afirma ter sido vítima de “fraude eleitoral”.

O texto, enviado por aliados, é uma peça de propaganda política que tenta converter uma derrota eleitoral incontestável em uma suposta perseguição, aproximando o senador de figuras como o venezuelano Juan Guaidó. A fuga de Flávio Bolsonaro ocorreu horas após ele descumprir a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para entregar seus passaportes.

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O que a carta golpista de Flávio Bolsonaro diz — e por que cada argumento não se sustenta

A carta de Flávio Bolsonaro se organiza em torno de quatro eixos principais, todos frágeis do ponto de vista factual e jurídico.

  • “Fraude eleitoral” e “10 milhões de votos”: o senador afirma que uma “impossibilidade matemática” permitiu que Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos entre turnos. A explicação é eleitoral, não fraudulenta: Lula cresceu 10,29 milhões de votos porque houve queda na abstenção (de 21,08% para 19,22%, a menor em 20 anos) e redução de votos brancos e nulos.

  • Os boletins das 499.205 urnas do 2º turno de 2026 estão publicados (cada seção eleitoral tem uma urna e um boletim). Quem somar os votos de todos eles chega exatamente ao resultado oficial do TSE, em todos os municípios e nas cidades do exterior.

Cerca de 2,9 milhões de eleitores que não foram às urnas no primeiro turno compareceram no segundo, e a redução de brancos e nulos acrescentou outros 4,8 milhões de votos válidos. Flávio também cresceu (3,68 milhões), mas em proporção menor. Não há “impossibilidade matemática”: há comparecimento e transferência de votos.

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Resultado final do TSE com Lula reeleito

  • “Decisão do STF por cima do TSE”: o senador alega que uma decisão do Supremo estendeu a votação “no apagar das luzes”. A prorrogação do horário em locais com filas é um procedimento administrativo previsto e não altera o cômputo de votos já depositados. A alegação de “nulidade” não encontra amparo em nenhuma decisão do TSE ou do STF que tenha anulado votos ou alterado o resultado.

  • “Perseguição política” e “juiz suspeito”: Flávio Bolsonaro chama Alexandre de Moraes de “juiz implicado em escândalo” e diz que a ordem para entrega dos passaportes foi um “sequestro”.

O senador é alvo de dois inquéritos no STF — um sobre lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e bets, e outro sobre o financiamento do filme “Dark Horse” com recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A ordem de Moraes decorre desses inquéritos, não de uma suposta perseguição política.

  • “Não fugi, saí pelo Brasil”: a carta afirma que o senador deixou o país para “liderar a oposição” e não por temor à prisão. No entanto, Flávio Bolsonaro cruzou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27), horas depois de descumprir o prazo para entregar os passaportes, e embarcou em um jato privado com a família.

A saída foi clandestina, sem registro nos postos de migração, e ele não comunicou às autoridades brasileiras. O discurso de “exílio político” não se sustenta diante do descumprimento de uma ordem judicial.

Nem mesmo Flávio acredita na carta e publica outra versão

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou uma nova versão de sua carta e mudou as frases em que se autoproclamava presidente do Brasil. No novo documento, Flávio se define como “o líder do Brasil”, e não mais como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Essa foi a única alteração promovida pelo ex-presidenciável. Ele manteve o Brazil com Z e o brasão com o nome antigo do Brasil.

O Brasil se chamava Estados Unidos do Brasil (ou República dos Estados Unidos do Brasil) de 1889 a 1967.

  • 15 de novembro de 1889: Com a Proclamação da República, a denominação foi adotada oficialmente, inspirada no modelo federativo dos Estados Unidos da América.
  • Constituição de 1891: Consolidou formalmente o nome República dos Estados Unidos do Brazil (com “z”).
  • 15 de março de 1967: A Constituição promulgada durante a ditadura militar mudou o nome oficial do país para República Federativa do Brasil, alteração que foi reforçada por leis complementares em 1968

  • “Brasão” na carta de Flávio diz Estados Unidos do Brazil (Brasil com Z), à esquerda e o verdadeiro brasão traz República Federativa do Brasil

Trump diz que não vai se envolver

Trump diz que não vai se “envolver” após Flávio Bolsonaro afirmar em carta golpista que é o “verdadeiro presidente” do Brasil.

“Não vou comentar sobre isso. Não vou me envolve”, disse Trump aos jornalistas.

O teor golpista da carta: Guaidó, Martí e a tentativa de autoproclamação

A carta de Flávio Bolsonaro cita nominalmente Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado, além de José Martí, Rui Barbosa e Charles de Gaulle. A aproximação é deliberada e perigosa: ao colocar Guaidó no mesmo parágrafo que Martí, o senador tenta transformar a autoproclamação de um presidente derrotado em uma tradição histórica de “resistência democrática”.

A comparação com Guaidó é o núcleo do teor golpista. Em 2019, Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela com base em uma interpretação extensiva da Constituição venezuelana e no reconhecimento imediato de governos estrangeiros, notadamente os Estados Unidos.

O resultado foi a tentativa de criar um governo paralelo, com o controle de ativos estatais venezuelanos no exterior, sem qualquer respaldo eleitoral ou institucional interno. Flávio Bolsonaro não é Guaidó: ele perdeu uma eleição com 48,2% dos votos contra 51,8% de Lula, e não há qualquer movimento institucional, militar ou diplomático que sustente uma autoproclamação.

Colocar José Martí na mesma frase que Guaidó é uma inversão histórica. Martí foi um intelectual e revolucionário que lutou pela independência de Cuba no século XIX e morreu em combate; Guaidó é um político que tentou um governo paralelo por meio de reconhecimento estrangeiro.

A carta usa Martí como verniz moral para uma operação de poder que não tem qualquer paralelo com a luta anticolonial. O mesmo vale para Rui Barbosa e De Gaulle: ambos exerceram papéis institucionais reconhecidos em seus países, enquanto Flávio Bolsonaro é um senador foragido que tenta se apresentar como líder de uma oposição que não o reconhece como tal — parte da própria direita, como Tarcísio de Freitas, já reconheceu a vitória de Lula.

A carta, portanto, é uma peça de engenharia política que tenta converter a fuga em “exílio” e a derrota em “resistência”. O objetivo é criar um discurso de governo paralelo que não existe na realidade institucional brasileira.

As fotos da chegada falam mais do que a carta

A carta de Flávio Bolsonaro se apresenta como um manifesto de um líder que “saiu pelo Brasil” para continuar a luta. As imagens da chegada a Miami, porém, contam outra história.

Um exilado político que se apresenta como “verdadeiro presidente eleito” aproveitaria os holofotes, as câmeras e os microfones da imprensa para denunciar, na sua tese, a perseguição política que o teria forçado a deixar o país. O que um exilado político busca é palco.

Flávio Bolsonaro, ao contrário, fez o oposto: desembarcou no aeroporto executivo de Opa-Locka escondido atrás de guarda-chuvas, com o rosto coberto, enquanto um funcionário abria o guarda-chuva para impedir que as câmeras o registrassem.

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Pessoas se protegem com guarda-chuvas ao saírem do Aeroporto Executivo de Opa-Locka, logo após a chegada de Flavio Bolsonaro e sua família a Miami, na Flórida, em 28 de outubro de 2026.. (Foto de Ricardo Arduengo / AFP)

A família saiu pela pista, em um carro preto que já esperava ao lado do jato, sem passar pelo saguão onde jornalistas aguardavam. Policiais pediram que a imprensa se afastasse.

A cena é a de um criminoso em fuga, não a de um líder político em exílio. A diferença entre um exilado e um foragido está justamente no uso do espaço público: o primeiro quer ser visto; o segundo quer desaparecer. Flávio Bolsonaro escolheu desaparecer.

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Flavio Bolsonaro desembarca de uma aeronave após chegar ao Aeroporto Executivo de Opa-Locka, em Miami, Flórida, no dia 28 de outubro de 2026. (Foto de Ricardo ARDUENGO / AFP)

Os 10 milhões de votos de Lula: o que realmente aconteceu

A explicação para o crescimento de Lula entre o primeiro e o segundo turno é eleitoral e está documentada por dados do TSE.

Lula recebeu 10,29 milhões de votos a mais no segundo turno em relação ao primeiro, um crescimento de 19,1%. Flávio Bolsonaro cresceu 3,68 milhões (6,6%). A diferença de 6,6 milhões na comparação entre os turnos foi o que selou a virada.

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Campanha de Lula teve povo na rua -Foto: Ricardo Stuckert

O crescimento de Lula se explica por três fatores combinados: (1) queda da abstenção, com 2,9 milhões de eleitores a mais comparecendo às urnas; (2) redução de votos brancos e nulos, que acrescentou 1,83 milhão de votos válidos; e (3) transferência de votos de candidatos eliminados no primeiro turno, que majoritariamente apoiaram Flávio, mas cujos eleitores não migraram integralmente para o senador. Não houve “fraude”: houve comparecimento e voto útil.

Os crimes e investigações que pesam contra Flávio Bolsonaro

A fuga de Flávio Bolsonaro não apaga os processos que ele responde no Supremo Tribunal Federal. O senador é alvo de duas investigações criminais que continuam em tramitação mesmo após a saída do país.

Lavagem de dinheiro e bets: o senador é investigado ao lado do advogado Willer Tomaz por suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de apostas esportivas. Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões de Tomaz e quebrou seus sigilos bancário, fiscal e cambial.

Financiamento do filme “Dark Horse”: Flávio Bolsonaro é alvo de inquérito que apura pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Conversas reveladas pelo The Intercept mostraram o senador pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar as gravações.

Transações incompatíveis com a renda: Festa com lobistas e prostitutas na pandemia: em julho de 2020, o senador participou de um churrasco em lancha no Lago Paranoá com lobistas da Precisa Medicamentos e garotas de programa, e recebeu um Rolex ao fim do encontro.

Defesa de assassino de criança: como advogado, atuou na defesa do cabo Bruno Delaroli, acusado de matar Ana Clara com tiros de fuzil em 2021, e entrou com recursos que anularam o júri popular.

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Júri popular do policial militar acusado de matar menina Ana Clara, de cinco anos, em Niterói foi adiado para maio de 2027; senador integrou a defesa e recorreu contra a decisão que determinou o julgamento. Foto: Alexandre Barbosa/TVT News

Ajuda a milicianos: condecorou e destinou emenda a pessoas ligadas ao “Escritório do Crime”, incluindo um condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco.

Festa com lobistas e prostitutas na pandemia: em julho de 2020, o senador participou de um churrasco em lancha no Lago Paranoá com lobistas da Precisa Medicamentos e garotas de programa, e recebeu um Rolex ao fim do encontro.

Flávio Bolsonaro fez festa com prostitutas e lobistas na pandemia, diz Piauí
Reprodução do site crimetarussa.com que traz resumo os crimes em que Flávio Bolsonaro tem o nome envolvido – Imagem: Reprodução
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A aeronave que transportava Flavio Bolsonaro chega ao Aeroporto Executivo Opa-Locka, em Miami, Flórida, no dia 28 de outubro de 2026. O candidato presidencial de direita derrotado no Brasil, Flavio Bolsonaro, desembarcou hoje de um avião particular na Flórida (Foto de Ricardo Arduengo / AFP)

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