O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foragido da Justiça brasileira nos Estados Unidos, divulgou nesta quarta-feira (28) uma carta em que se apresenta como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e afirma ter sido vítima de “fraude eleitoral”.
O texto, enviado por aliados, é uma peça de propaganda política que tenta converter uma derrota eleitoral incontestável em uma suposta perseguição, aproximando o senador de figuras como o venezuelano Juan Guaidó. A fuga de Flávio Bolsonaro ocorreu horas após ele descumprir a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para entregar seus passaportes.
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O que a carta golpista de Flávio Bolsonaro diz — e por que cada argumento não se sustenta
A carta de Flávio Bolsonaro se organiza em torno de quatro eixos principais, todos frágeis do ponto de vista factual e jurídico.
- “Fraude eleitoral” e “10 milhões de votos”: o senador afirma que uma “impossibilidade matemática” permitiu que Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos entre turnos. A explicação é eleitoral, não fraudulenta: Lula cresceu 10,29 milhões de votos porque houve queda na abstenção (de 21,08% para 19,22%, a menor em 20 anos) e redução de votos brancos e nulos.
- Os boletins das 499.205 urnas do 2º turno de 2026 estão publicados (cada seção eleitoral tem uma urna e um boletim). Quem somar os votos de todos eles chega exatamente ao resultado oficial do TSE, em todos os municípios e nas cidades do exterior.

Cerca de 2,9 milhões de eleitores que não foram às urnas no primeiro turno compareceram no segundo, e a redução de brancos e nulos acrescentou outros 4,8 milhões de votos válidos. Flávio também cresceu (3,68 milhões), mas em proporção menor. Não há “impossibilidade matemática”: há comparecimento e transferência de votos.

- “Decisão do STF por cima do TSE”: o senador alega que uma decisão do Supremo estendeu a votação “no apagar das luzes”. A prorrogação do horário em locais com filas é um procedimento administrativo previsto e não altera o cômputo de votos já depositados. A alegação de “nulidade” não encontra amparo em nenhuma decisão do TSE ou do STF que tenha anulado votos ou alterado o resultado.
- “Perseguição política” e “juiz suspeito”: Flávio Bolsonaro chama Alexandre de Moraes de “juiz implicado em escândalo” e diz que a ordem para entrega dos passaportes foi um “sequestro”.
O senador é alvo de dois inquéritos no STF — um sobre lavagem de dinheiro envolvendo o advogado Willer Tomaz e bets, e outro sobre o financiamento do filme “Dark Horse” com recursos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A ordem de Moraes decorre desses inquéritos, não de uma suposta perseguição política.
- “Não fugi, saí pelo Brasil”: a carta afirma que o senador deixou o país para “liderar a oposição” e não por temor à prisão. No entanto, Flávio Bolsonaro cruzou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27), horas depois de descumprir o prazo para entregar os passaportes, e embarcou em um jato privado com a família.
A saída foi clandestina, sem registro nos postos de migração, e ele não comunicou às autoridades brasileiras. O discurso de “exílio político” não se sustenta diante do descumprimento de uma ordem judicial.


Nem mesmo Flávio acredita na carta e publica outra versão
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou uma nova versão de sua carta e mudou as frases em que se autoproclamava presidente do Brasil. No novo documento, Flávio se define como “o líder do Brasil”, e não mais como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Essa foi a única alteração promovida pelo ex-presidenciável. Ele manteve o Brazil com Z e o brasão com o nome antigo do Brasil.
O Brasil se chamava Estados Unidos do Brasil (ou República dos Estados Unidos do Brasil) de 1889 a 1967.
- 15 de novembro de 1889: Com a Proclamação da República, a denominação foi adotada oficialmente, inspirada no modelo federativo dos Estados Unidos da América.
- Constituição de 1891: Consolidou formalmente o nome República dos Estados Unidos do Brazil (com “z”).
- 15 de março de 1967: A Constituição promulgada durante a ditadura militar mudou o nome oficial do país para República Federativa do Brasil, alteração que foi reforçada por leis complementares em 1968


- “Brasão” na carta de Flávio diz Estados Unidos do Brazil (Brasil com Z), à esquerda e o verdadeiro brasão traz República Federativa do Brasil
Trump diz que não vai se envolver
Trump diz que não vai se “envolver” após Flávio Bolsonaro afirmar em carta golpista que é o “verdadeiro presidente” do Brasil.
“Não vou comentar sobre isso. Não vou me envolve”, disse Trump aos jornalistas.
O teor golpista da carta: Guaidó, Martí e a tentativa de autoproclamação
A carta de Flávio Bolsonaro cita nominalmente Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado, além de José Martí, Rui Barbosa e Charles de Gaulle. A aproximação é deliberada e perigosa: ao colocar Guaidó no mesmo parágrafo que Martí, o senador tenta transformar a autoproclamação de um presidente derrotado em uma tradição histórica de “resistência democrática”.
A comparação com Guaidó é o núcleo do teor golpista. Em 2019, Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela com base em uma interpretação extensiva da Constituição venezuelana e no reconhecimento imediato de governos estrangeiros, notadamente os Estados Unidos.
O resultado foi a tentativa de criar um governo paralelo, com o controle de ativos estatais venezuelanos no exterior, sem qualquer respaldo eleitoral ou institucional interno. Flávio Bolsonaro não é Guaidó: ele perdeu uma eleição com 48,2% dos votos contra 51,8% de Lula, e não há qualquer movimento institucional, militar ou diplomático que sustente uma autoproclamação.
Colocar José Martí na mesma frase que Guaidó é uma inversão histórica. Martí foi um intelectual e revolucionário que lutou pela independência de Cuba no século XIX e morreu em combate; Guaidó é um político que tentou um governo paralelo por meio de reconhecimento estrangeiro.
A carta usa Martí como verniz moral para uma operação de poder que não tem qualquer paralelo com a luta anticolonial. O mesmo vale para Rui Barbosa e De Gaulle: ambos exerceram papéis institucionais reconhecidos em seus países, enquanto Flávio Bolsonaro é um senador foragido que tenta se apresentar como líder de uma oposição que não o reconhece como tal — parte da própria direita, como Tarcísio de Freitas, já reconheceu a vitória de Lula.
A carta, portanto, é uma peça de engenharia política que tenta converter a fuga em “exílio” e a derrota em “resistência”. O objetivo é criar um discurso de governo paralelo que não existe na realidade institucional brasileira.
As fotos da chegada falam mais do que a carta
A carta de Flávio Bolsonaro se apresenta como um manifesto de um líder que “saiu pelo Brasil” para continuar a luta. As imagens da chegada a Miami, porém, contam outra história.
Um exilado político que se apresenta como “verdadeiro presidente eleito” aproveitaria os holofotes, as câmeras e os microfones da imprensa para denunciar, na sua tese, a perseguição política que o teria forçado a deixar o país. O que um exilado político busca é palco.
Flávio Bolsonaro, ao contrário, fez o oposto: desembarcou no aeroporto executivo de Opa-Locka escondido atrás de guarda-chuvas, com o rosto coberto, enquanto um funcionário abria o guarda-chuva para impedir que as câmeras o registrassem.

A família saiu pela pista, em um carro preto que já esperava ao lado do jato, sem passar pelo saguão onde jornalistas aguardavam. Policiais pediram que a imprensa se afastasse.
A cena é a de um criminoso em fuga, não a de um líder político em exílio. A diferença entre um exilado e um foragido está justamente no uso do espaço público: o primeiro quer ser visto; o segundo quer desaparecer. Flávio Bolsonaro escolheu desaparecer.

Os 10 milhões de votos de Lula: o que realmente aconteceu
A explicação para o crescimento de Lula entre o primeiro e o segundo turno é eleitoral e está documentada por dados do TSE.
Lula recebeu 10,29 milhões de votos a mais no segundo turno em relação ao primeiro, um crescimento de 19,1%. Flávio Bolsonaro cresceu 3,68 milhões (6,6%). A diferença de 6,6 milhões na comparação entre os turnos foi o que selou a virada.

O crescimento de Lula se explica por três fatores combinados: (1) queda da abstenção, com 2,9 milhões de eleitores a mais comparecendo às urnas; (2) redução de votos brancos e nulos, que acrescentou 1,83 milhão de votos válidos; e (3) transferência de votos de candidatos eliminados no primeiro turno, que majoritariamente apoiaram Flávio, mas cujos eleitores não migraram integralmente para o senador. Não houve “fraude”: houve comparecimento e voto útil.
Os crimes e investigações que pesam contra Flávio Bolsonaro
A fuga de Flávio Bolsonaro não apaga os processos que ele responde no Supremo Tribunal Federal. O senador é alvo de duas investigações criminais que continuam em tramitação mesmo após a saída do país.
Lavagem de dinheiro e bets: o senador é investigado ao lado do advogado Willer Tomaz por suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo plataformas de apostas esportivas. Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões de Tomaz e quebrou seus sigilos bancário, fiscal e cambial.
Financiamento do filme “Dark Horse”: Flávio Bolsonaro é alvo de inquérito que apura pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção da cinebiografia de Jair Bolsonaro. Conversas reveladas pelo The Intercept mostraram o senador pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar as gravações.
Transações incompatíveis com a renda: Festa com lobistas e prostitutas na pandemia: em julho de 2020, o senador participou de um churrasco em lancha no Lago Paranoá com lobistas da Precisa Medicamentos e garotas de programa, e recebeu um Rolex ao fim do encontro.
Defesa de assassino de criança: como advogado, atuou na defesa do cabo Bruno Delaroli, acusado de matar Ana Clara com tiros de fuzil em 2021, e entrou com recursos que anularam o júri popular.

Ajuda a milicianos: condecorou e destinou emenda a pessoas ligadas ao “Escritório do Crime”, incluindo um condenado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco.
Festa com lobistas e prostitutas na pandemia: em julho de 2020, o senador participou de um churrasco em lancha no Lago Paranoá com lobistas da Precisa Medicamentos e garotas de programa, e recebeu um Rolex ao fim do encontro.

