Democratas retomam o controle do Congresso e impõem derrota histórica a Trump

Democratas conquistaram vitórias em redutos republicanos, como Texas
democratas-eleicoes-eua-partido-democrata-derrota-trump-estados-unidos-talarico-texas-democrata-eleicoes-estados-unidos-eua
O candidato democrata ao Senado dos EUA, James Talarico, discursa após vencer a disputa no Texas, durante um evento de acompanhamento da noite eleitoral (midterm elections) no Long Center for the Performing Arts, em Austin, Texas, no dia 3 de novembro de 2026. O democrata James Talarico venceu, na terça-feira, a disputa para o Senado dos EUA no Texas, conquistando mais uma cadeira para seu partido — um duro golpe para os Republicanos, segundo projeções da mídia. Talarico derrotou o procurador-geral do estado, Ken Paxton, um aliado próximo do presidente Donald Trump, conforme projetaram a NBC News e a CBS News. (Foto de RONALDO SCHEMIDT / AFP)

Da AFP em Washington, Estados Unidos – Os democratas conquistam uma vitória avassaladora na terça-feira (3) nos Estados Unidos e retomaram o controle do Congresso, um revés humilhante para Donald Trump, que compromete os últimos dois anos de sua presidência. Leia em TVT News com reportagem da Agence France-Presse

A oposição conquistou o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, com vitórias na Carolina do Norte, Carolina do Sul, Ohio e em redutos republicanos como Texas, Iowa e Kansas, estado em que os democratas não venciam uma disputa para o Senado desde 1932.

Os democratas prometem abrir investigações sobre o presidente, sua família e seu governo, assim como sobre a conveniência de continuar financiando a guerra no Irã.

“Em vitórias avassaladoras e decisivas, o povo americano repudiou a depravação, a corrupção e a incompetência do fracassado presidente ‘pato manco’ (expressão em inglês para definir um governante em fim de mandato) Donald J. Trump”, disse Ossoff em um discurso enérgico a seus apoiadores após vencer a reeleição no estado sulista da Geórgia.

Trump reconheceu a derrota, em uma conversa com jornalistas do New York Times durante a sombria noite eleitoral.

“Estou absolutamente disposto a aceitar estes resultados”, declarou, segundo o jornal. “Acho que os democratas fizeram um bom trabalho, realmente acho”, afirmou o mandatário de 80 anos em entrevista ao canal Fox News, em tom conciliador. “Eles lutaram de maneira dura”.

Quando as projeções começaram a apontar a vitória democrata, Trump se desvinculou da derrota republicana e escreveu nas redes sociais: “Eu não estava na cédula e, se estivesse, teríamos vencido de maneira AVASSALADORA!”.

Apesar de reconhecer a derrota, Trump postou nas redes sociais um boné vermelho com a palavra “VETO”, em referência à sua capacidade de vetar projetos de lei aprovados pela maioria democrata.

Democratas venceram após o estelionato eleitoral de Trump

Em seus dois primeiros anos de mandato, Trump lançou campanhas militares de sucesso desigual na Venezuela e no Irã, determinou cortes de impostos e assinou dezenas de decretos presidenciais.

Ele admitiu que o conflito com o Irã pode ter contribuído para a derrota de seu partido, mas defendeu a ação militar.

Após a divulgação dos resultados, o principal negociador iraniano nos diálogos com Washington, Mohammad Bagher Ghalibaf, declarou que os americanos votaram “NÃO À GUERRA”.

O resultado nas urnas reflete ainda preocupações com o custo de vida, diante do aumento dos preços dos combustíveis e dos preços dos alimentos.

No clima de insatisfação dos eleitores americanos, o Partido Democrata venceu em redutos republicanos.

No Texas, James Talarico, um pastor presbiteriano, chegou ao Senado com uma vitória esmagadora sobre Ken Paxton, candidato apoiado de maneira entusiasmada por Trump. No mesmo estado, Gina Hinojosa derrotou Gregg Abbott, o republicano que tentava a reeleição para o governo.

No Kansas, Adam Hamilton tornou-se o primeiro democrata a ser eleito para o Senado pelo estado desde 1932, enquanto Iowa escolheu seu primeiro senador democrata desde 2008.

E em Michigan, Abdul El Sayed reivindicou a vitória em uma disputa acirrada que o tornaria o primeiro muçulmano eleito para o Senado.

Sinal de uma mudança decisiva no horizonte político, os republicanos eleitos conquistaram suas vitórias com margens muito menores que em disputas anteriores.

O governador eleito da Flórida, Byron Donalds, o primeiro negro que administrará o estado sulista e solidamente republicano, venceu com uma vantagem de apenas 1,5 ponto. Há quatro anos, seu antecessor Ron DeSantis derrotou o rival democrata com 20 pontos percentuais de diferença.

“MAGA em fuga”

Hakeem Jeffries, líder da bancada democrata que deve assumir o posto de presidente da Câmara dos Representantes, disse em um vídeo que “os extremistas MAGA estão em fuga de uma costa a outra. Donald Trump está abalado neste momento”.

Ele prometeu um trabalho ambicioso no Legislativo, focado na questão do poder aquisitivo, uma das principais queixas do eleitorado.

“As pessoas no Texas sofrem com os preços da gasolina, da crise dos alimentos e da saúde”, disse Kathy Jackoway, que comemorava a vitória de Talarico.

“É uma grande vitória para o Texas, mas também é um triunfo gigante para os Estados Unidos ter James Talarico no Senado para tentar controlar este governo que está fora de controle. Todos sofrem (…) e Trump está ocupado construindo monumentos para ele mesmo”, disse a eleitora à AFP.

Em Atlanta, Gracie Surface disse que votou em Ossoff, uma das promessas do Partido Democrata, porque a política americana precisa de “sangue novo”.

© Agence France-Presse

As consequências da vitória dos democratas nos Estados Unidos

Da AFP em Washington, Estados Unidos – A vitória contundente do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato de terça-feira (3) sobre o Partido Republicano entrega o controle do Congresso à esquerda dos Estados Unidos, o que representa um freio considerável para Donald Trump nos dois anos que lhe restam de mandato.

A partir do momento em que os novos representantes eleitos prestarem juramento em janeiro, os democratas poderão definir a agenda legislativa, influenciar o orçamento federal e abrir investigações parlamentares sobre o presidente republicano e seus aliados.

democratas-eleicoes-eua-partido-democrata-derrota-trump-estados-unidos-talarico-texas-democrata
O candidato democrata ao Senado dos EUA, Abdul El-Sayed, e sua esposa, a Dra. Sarah Jukaku, sobem ao palco após ele declarar vitória durante uma festa na noite das eleições de meio de mandato, realizada no “The Department at Hudson’s”, em Detroit, Michigan, nas primeiras horas de 4 de novembro de 2026. O democrata Abdul El-Sayed afirmou, na madrugada de quarta-feira, que conquistou uma cadeira no Senado dos EUA por Michigan, superando o ex-legislador republicano Mike Rogers — feito que o torna o primeiro muçulmano eleito para a câmara alta do Congresso. “Michigan, nós conseguimos!”, disse El-Sayed em um discurso em seu comitê de campanha em Detroit. (Foto de Jeff Kowalsky / AFP)

Apesar da derrota nas urnas, Trump conservará ampla margem de manobra em vários temas.

Confira uma lista das principais consequências do novo equilíbrio de poderes em Washington:

Desmantelamento de Trump

O líder democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, advertiu antes das eleições que, se o partido recuperasse o controle da instância legislativa, estabeleceria como prioridade a luta contra o custo de vida elevado.

Para isso, Jeffries quer “lutar para reverter os cortes no Medicaid”, um programa de seguro de saúde para americanos de baixa renda que foi reduzido por uma lei emblemática de Trump em 2025.

O líder democrata também afirmou que deseja fazer todo o possível para acabar com a guerra contra o Irã, “que provocou a disparada dos preços dos combustíveis para os americanos”, ao mesmo tempo que reafirmou a prerrogativa constitucional do Congresso, único órgão habilitado a declarar guerra.

Outra prioridade é acabar com as tarifas impostas por Trump sem a aprovação do Congresso. O programa será colocado em prática nas primeiras 100 horas de sua maioria, no início de janeiro, garantiu Jeffries.

Investigações legislativas

Após dois anos acusando Trump, seu governo e os aliados de corrupção em uma escala sem precedentes na história do país, uma das prioridades da nova maioria democrata também será abrir investigações para examinar estes casos.

“Vamos exigir a prestação de contas daqueles que infligiram uma corrupção sem precedentes a este país”, disse na terça-feira Jeffries, o favorito para assumir a presidência da Câmara dos Representantes.

“Liguem para os seus advogados”, advertiu na rede social X o representante democrata Robert García, que pode assumir o comando de uma importante comissão de inquérito.

As investigações conduzidas por comissões legislativas podem resultar em convocações de comparecimento e, em última instância, a processos de impeachment, que podem culminar em uma destituição. Mas estes teriam poucas chances de sucesso, devido à maioria de dois terços exigida no Senado.

“A vida vai ficar bastante desagradável para os membros mais polêmicos do governo Trump, como o secretário de Defesa, Pete Hegseth; o de Segurança Interna, Markwayne Mullin, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent”, opinou Ross Baker, professor de Ciência Política na Universidade Rutgers.

No entanto, após dois processos de impeachment contra Trump durante seu primeiro mandato, os líderes democratas parecem relutantes em iniciar uma terceira tentativa, que poderia mobilizar sua base partidária.

Nomeações em suspenso

Uma particularidade dos Estados Unidos é que as nomeações para os cargos cruciais do governo, assim como as de juízes federais, devem ser aprovadas pelo Senado.

A reconquista da maioria na Câmara Alta permite aos democratas, portanto, bloquear as indicações de Trump para estas posições importantes.

A maioria pode se revelar ainda mais decisiva em caso de renúncia ou morte de um juiz da Suprema Corte. A margem de manobra do presidente republicano para escolher um sucessor ficaria então amplamente limitada.

Limite

Apesar da mudança na correlação de forças no Congresso, Trump preserva importantes ferramentas de poder. Ele poderá usar seu poder de veto para bloquear qualquer lei aprovada pelas duas câmaras. O mecanismo só poderá ser superado com uma votação que obtenha maioria de dois terços nas duas casas legislativas, algo de que os democratas estão muito longe, apesar de sua vitória.

O presidente republicano conserva, além disso, várias prerrogativas do Poder Executivo, em particular sua política migratória, que é alvo de fortes críticas.

Assim como tem feito desde o início de seu segundo mandato, ele deve continuar governando por meio de decretos.

© Agence France-Presse

“Votem como brasileiros”

Durante a terça-feira, influenciadores dos EUA pediam, nas redes sociais, que os norte-americanos votassem como “brasileiros”.

Quando os resultados da vitória dos democratas apareceram, eles agradeceram aos brasileiros pela inspiração.

Leia também

Assuntos Relacionados