Governo Bolsonaro tentou vender respiradores no exterior em meio à pandemia, revela ICL

Enquanto UTIs lotavam, governo Bolsonaro mobilizava embaixadas para vender respiradores no exterior
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Documentos revelam que governo Bolsonaro tentou vender respiradores no exterior durante a pandemia, enquanto o país batia recorde de mortes - (Foto de Mustafa Ciftci / ANADOLU AGENCY / Anadolu via AFP)

O governo de Jair Bolsonaro tentou abrir mercado no exterior para respiradores produzidos no Brasil durante um dos períodos mais críticos da pandemia de Covid-19.

Em 17 de junho de 2020, o Itamaraty, então comandado por Ernesto Araújo, acionou dez embaixadas para identificar potenciais compradores, estimar quantos aparelhos poderiam ser vendidos e preparar uma ação de promoção comercial.

A revelação é da reportagem de Cleber Lourenço e Jamil Chade, publicada pelo ICL Notícias, baseada em um lote de telegramas diplomáticos obtido pela Fiquem Sabendo por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

A circular reservada que determinou a busca por compradores foi classificada pelo próprio Itamaraty como “urgentíssimo” — no mesmo dia em que o Brasil registrou 1.269 mortes por Covid-19 em 24 horas.

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A crueldade da extrema direita durante a pandemia: o que revelam os documentos

A reportagem do ICL, assinada por Cleber Lourenço e Jamil Chade, escancara uma das faces mais perversas da gestão Bolsonaro no enfrentamento à pandemia.

Os telegramas diplomáticos mostram que, enquanto o país acumulava 46.510 óbitos e mais de 955 mil casos confirmados, e seis estados tinham ocupação superior a 80% nos leitos de UTI, o governo federal mobilizava a máquina pública para buscar compradores de respiradores no exterior.

  • Data da ofensiva comercial: 17 de junho de 2020, quando o Brasil registrava 1.269 mortes por Covid-19 em apenas 24 horas.
  • Justificativa oficial: o Itamaraty alegou a “possibilidade de que, em breve, a produção brasileira de ventiladores pulmonares supere a demanda interna” — sem apresentar dados, projeções ou estudos que comprovassem esse excedente.
  • Países acionados: embaixadas na Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
  • Contradição com a realidade: até o fim de maio de 2020, apenas 1.612 dos 14,1 mil respiradores previstos em contratos federais haviam sido entregues.
  • Alerta ignorado: informes confidenciais da Abin da mesma época alertavam para a falta de respiradores em Manaus e previam o colapso do sistema de saúde.

Documentos revelam uma das maiores perversidades cometidas pelo governo Bolsonaro durante a pandemia

A descoberta foi possível a partir de um lote de telegramas diplomáticos obtido pela agência de jornalismo de dados Fiquem Sabendo por meio da Lei de Acesso à Informação. Entre os documentos analisados está a circular reservada que determinou a busca por compradores, classificada pelo Itamaraty como “urgentíssimo”.

A determinação era clara: as embaixadas deveriam consultar governos, hospitais e empresas para levantar a “demanda presente e futura” por respiradores brasileiros, incluindo o número de aparelhos desejados e as especificações técnicas exigidas em cada país. Segundo a circular, as informações serviriam para avaliar uma eventual “ação de promoção comercial” dos equipamentos.

O que alegava o governo Bolsonaro para vender respiradores

O Itamaraty justificou a iniciativa diante da “possibilidade de que, em breve, a produção brasileira de ventiladores pulmonares supere a demanda interna”. O telegrama, no entanto, não apresentava dados, projeções ou estudos que comprovassem a existência desse excedente — tratava-se de uma alegação do próprio documento oficial, não de um fato verificado.

A hipótese de sobra de respiradores contrastava com os atrasos na produção e na entrega de equipamentos dentro do próprio país. Estados reclamavam que abriram leitos contando com aparelhos prometidos pelo Ministério da Saúde que não chegaram. A ideia de vender respiradores ia na direção contrária ao que diziam os informes confidenciais da Abin, que alertavam para a falta dos aparelhos em Manaus e previam o colapso do sistema de saúde.

Relembre: número de mortos e internados na pandemia durante o governo Bolsonaro

Os números oficiais já são alarmantes, mas a dimensão real da tragédia é ainda maior. Ao longo de cinco anos, o Brasil teve 39 milhões de casos de Covid-19 confirmados e mais de 714 mil óbitos decorrentes da doença, segundo o painel do Ministério da Saúde. Em 2020, primeiro ano da pandemia, foram 194 mil mortes; em 2021, mais de 424 mil pessoas morreram.

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Covid-19 deixou 149 mil crianças e adolescentes órfãos em 2020 e 2021 – Foto: Altemar Alcantara/Semcom/Prefeitura de Manaus

No entanto, uma atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que a pandemia de Covid-19 matou três vezes mais pessoas entre 2020 e 2023 do que os números oficialmente divulgados. Enquanto os dados oficiais brasileiros estacionaram na marca de 702.116 óbitos confirmados por teste, a metodologia de “mortalidade excedente” aplicada pela OMS indica que o Brasil registrou mais de 628 mil mortes acima do esperado para o período.

A subnotificação e as mortes indiretas — vítimas de outras doenças graves que morreram em função do colapso do sistema de saúde — explicam esse aumento expressivo.

Número de mortos na pandemia de covid-19 no Brasil

O Brasil registrou oficialmente 716.238 mortes e 39.279.090 casos confirmados de COVID-19 desde o início da pandemia até novembro de 2026, de acordo com o Painel Coronavírus Brasil do Ministério da Saúde e registros históricos da Pandemia de COVID-19 no Brasil – Wikipédia.

Resumo dos Dados Oficiais:

  • Total de óbitos acumulados: 716.238 a 716.626 mortes (dados atualizados pelo SUS / Secretarias Estaduais de Saúde).
  • Total de casos acumulados: Mais de 39,2 milhões de diagnósticos confirmados.
  • Ano mais letal: 2021, que concentrou o maior número de vítimas fatais (superando 420 mil mortes naquele ano)

O que provocava a falta de respiradores

A falta de respiradores foi um dos maiores gargalos no atendimento a pacientes graves de Covid-19 no Brasil. Em março de 2020, o pneumologista Luiz Fernando Ferreira Pereira já alertava: “o número de respiradores hoje está no limite”.

Os respiradores são essenciais para casos graves da doença, pois ajudam o corpo a fazer a troca gasosa no pulmão, levando oxigênio e eliminando o gás carbônico do organismo. Como a doença não tinha medicamento específico de comprovada eficácia e segurança, a melhor opção para os casos graves era o uso de respiradores e de medicamentos para prolongar a vida dos pacientes e lhes dar tempo para recuperação.

A escassez foi agravada por uma disputa global por equipamentos. Aviões com 600 mil respiradores artificiais encomendados por um consórcio formado pelos nove estados do Nordeste ficaram retidos no Aeroporto de Miami, nos Estados Unidos.

Faltavam também respiradores e seus componentes, fármacos e insumos para testes e pesquisa. Pelo menos seis estados e diversas prefeituras editaram atos administrativos para requisitar insumos e produtos como respiradores durante a pandemia.

Brasil tinha falta de respiradores – e governo Bolsonaro ainda queria vender

A escassez de respiradores (ventiladores pulmonares) e equipamentos médicos foi um dos maiores gargalos do sistema de saúde brasileiro no início da pandemia de COVID-19, em 2020, conforme apontado em relatórios da revista Veja.

Panorama e Dados Críticos

  • Capacidade inicial: O Brasil contava com cerca de 65.411 respiradores no total (sendo aproximadamente 46.663 no SUS e 18.748 na rede privada), com pouco mais de 61 mil aptos para uso no começo da crise. [1]
  • Desigualdade municipal: Um levantamento do UOL revelou que cerca de 60% dos municípios brasileiros (onde viviam milhões de pessoas) não possuíam nenhum respirador disponível em suas redes locais de saúde em março de 2020.
  • Atrasos e entregas: De acordo com dados veiculados pela CNN Brasil, as compras centralizadas pelo governo federal sofreram grandes atrasos no primeiro semestre de 2020, deixando estados e municípios em situação crítica de lotação de UTIs.

Tentativa de Exportação e Controvérsias

  • Documentos revelados pelo site Fiquem Sabendo indicaram que, em junho de 2020 — período em que o país registrava mais de mil mortes diárias —, o Itamaraty acionou embaixadas para sondar a venda de respiradores produzidos no Brasil para o mercado externo, mesmo com leis internas que restringiam a exportação de insumos médicos.

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