A campanha “Reestatiza Brasil!”, lançada pela Federação Única dos Petroleiros (FUP), defende a reestatização da Petrobras e de ativos estratégicos do setor de energia como caminho para fortalecer a soberania nacional, garantir segurança energética e reduzir a dependência do Brasil do mercado internacional de combustíveis. A iniciativa critica as privatizações realizadas nos últimos anos e afirma que a retomada do controle estatal é fundamental para proteger o abastecimento, preservar empregos e ampliar a capacidade de planejamento econômico do país. Saiba mais na TVT News.
Segundo os organizadores, a proposta vai além da defesa da Petrobras como empresa pública. A campanha sustenta que o país precisa reconstruir uma cadeia integrada de energia, abrangendo desde a exploração e produção de petróleo, passando pelo refino, transporte e distribuição, até a comercialização dos combustíveis. Para a FUP, esse modelo permitiria ampliar a capacidade do Estado de planejar políticas públicas para o setor, reduzir a dependência do mercado internacional e proteger consumidores das oscilações provocadas por conflitos geopolíticos.
A avaliação apresentada pela campanha é de que o amplo programa de privatizações realizado principalmente entre os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro desestruturou parte importante da cadeia nacional de petróleo e gás. De acordo com os dados divulgados, mais de 260 ativos da Petrobras foram vendidos na última década, incluindo empresas consideradas estratégicas, como a BR Distribuidora, a Liquigás, a Gaspetro, refinarias e estruturas de transporte e escoamento de gás natural e derivados.
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Na avaliação da FUP, essas alienações reduziram a capacidade operacional integrada da Petrobras e limitaram a atuação do Estado sobre o abastecimento nacional. O argumento central é que, ao abrir mão de segmentos considerados essenciais, o país perdeu instrumentos para controlar preços, garantir o fornecimento de combustíveis e estimular investimentos industriais em diferentes regiões.
A campanha também relaciona o processo de privatização ao aumento da exposição do Brasil às oscilações do mercado internacional. Para a entidade, a promessa de maior concorrência e redução dos preços dos combustíveis não se concretizou. Em vez disso, afirma, o país passou a conviver com maior dependência de importações de derivados, perda de empregos qualificados, enfraquecimento da indústria nacional e redução da capacidade estatal de planejamento energético.
O lançamento da campanha ocorre em um momento marcado por fortes tensões internacionais envolvendo grandes produtores de petróleo. A escalada dos conflitos no Oriente Médio e os impactos sobre rotas estratégicas de transporte marítimo, como o Estreito de Ormuz, voltaram a colocar a segurança energética entre as principais preocupações dos governos em todo o mundo.
Segundo o material divulgado pela FUP, a recente crise internacional demonstrou a importância da atuação coordenada entre Estado e empresas públicas para reduzir impactos econômicos internos. A entidade destaca que o governo federal adotou medidas emergenciais para conter os efeitos da alta internacional dos combustíveis, entre elas subsídios temporários, desonerações tributárias, mecanismos de cashback, reforço da fiscalização sobre práticas abusivas e tributação extraordinária sobre exportações de petróleo bruto.
Ao mesmo tempo, a Petrobras ampliou a utilização de seu parque de refino, manteve elevados níveis de produção de petróleo e gás e preservou uma política comercial baseada em parâmetros domésticos. Segundo dados citados pela campanha, entre 23 de fevereiro e 8 de junho, enquanto o preço médio do diesel aumentou 23,3% no mercado internacional, a alta registrada no Brasil foi de 13,6%. No caso da gasolina, a média global foi de 17,5%, enquanto no mercado brasileiro a variação ficou em 4,9%, conforme informações da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Para os organizadores, embora essas ações tenham reduzido os impactos imediatos da crise sobre consumidores e empresas, elas não substituem mudanças estruturais. A campanha defende que a reconstrução da integração da cadeia de petróleo e gás é condição necessária para que o país tenha maior autonomia diante de futuras crises internacionais.
Outro argumento utilizado pela FUP é que o Brasil estaria caminhando na direção oposta à observada em diversos países. A campanha cita artigo publicado pelo historiador econômico Nicholas Mulder, da Cornell University, na revista Finance & Development, do Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo o qual cresce internacionalmente uma tendência de nacionalização ou retomada do controle estatal sobre empresas, infraestrutura e recursos naturais considerados estratégicos para a segurança nacional.
Na visão da entidade, esse movimento reflete uma mudança nas políticas econômicas de diferentes governos diante do aumento das disputas geopolíticas, das guerras comerciais e das preocupações com segurança energética. A avaliação é de que o Estado voltou a ocupar papel central na coordenação de investimentos considerados essenciais para o desenvolvimento.
Dados reunidos pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), apresentados pela campanha, mostram que o período de maior volume de desinvestimentos da Petrobras ocorreu entre 2019 e 2023. Nesse intervalo foram vendidos 241 ativos, sendo 2021 o ano com maior número de alienações, totalizando 76 ativos. Já o maior valor financeiro obtido ocorreu em 2019, quando as vendas alcançaram R$ 55,2 bilhões, impulsionadas principalmente pela negociação da Transportadora Associada de Gás (TAG).
Ainda segundo o levantamento, 85,7% dos desinvestimentos concentraram-se nas atividades de exploração e produção de petróleo (upstream), enquanto 59,4% dos ativos vendidos localizavam-se na Região Nordeste. O estudo também aponta desaceleração expressiva das alienações nos últimos anos: em 2024 foi concluída apenas uma venda de ativo, em 2025 ocorreram duas operações e, até o momento, não há registro de novos desinvestimentos realizados pela Petrobras em 2026.
Com a campanha “Reestatiza Brasil!”, a FUP pretende ampliar o debate público sobre o papel das empresas estatais no desenvolvimento nacional e defender que a reconstrução da presença do Estado na cadeia de petróleo e gás seja tratada como parte de uma estratégia de fortalecimento da soberania energética, da política industrial e da capacidade de planejamento econômico do país. Para a federação, garantir o controle público sobre setores considerados estratégicos é condição para enfrentar os desafios impostos por um cenário internacional cada vez mais instável e competitivo.

