Cruzamento de dados da última pesquisa Quaest com estudos qualitativos revela que redes paralelas em canais de mensagens, turbinadas pelo noticiário de escândalos recentes, moldam o cenário eleitoral em que o eleitor vota mais por oposição do que pela preferência ideológica. Entenda na TVT News, com análise de especialistas da FESPSP.
Com base em análises das rodadas mais recentes da pesquisa Quaest de 7 de setembro último e de levantamentos qualitativos, especialistas do Labop (Laboratório de Pesquisas de Opinião e Mídias Digitais) da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) opinam que o atual cenário de empate nas urnas entre Lula e Flávio Bolsonaro não é fruto de uma sociedade engajada, mas sim de um eleitorado exausto que se movimenta pelo pragmatismo e pela rejeição.
O eleitor vota muito mais por falta de opção do que por engajamento político ou por preferência, dentro de uma dinâmica impulsionada mais pelas redes de comunicação paralelas do que pela propaganda eleitoral, e mais pelo noticiário do momento do que por indicadores econômicos, avaliam os analistas políticos Beto Vasques e Hilton Fernandes, pesquisadores do Labop.

Confira a análise completa dos especialistas neste vídeo (a reprodução do conteúdo é possível somente com autorização da FESPSP).
Os dados consolidados das pesquisas Quaest de janeiro a setembro deste ano (veja gráficos abaixo) desenham um cenário de estabilidade nos números, com um “triplo empate” na avaliação de intenção de voto, na rejeição e no temor à continuidade de Lula ou à volta do clã Bolsonaro à Presidência, diz Beto Vasques.
Na intenção de voto de segundo turno, o presidente Lula varia em uma banda segura entre 41% e 45%, nesse período, enquanto o senador Flávio flutua entre 37% e 42%, configurando empate técnico. “Esse equilíbrio se repete no sentimento de medo, empatado em 43%, e nas taxas de rejeição, que trazem Lula com 53% e Flávio dois pontos acima, com 55%.”

Para desvendar o que está oculto sob esses números, é fundamental combinar os dados quantitativos com as pesquisas qualitativas, recomenda Hilton Fernandes. Essa combinação revela que a aparente solidez dos candidatos na preferência dos votos não é fruto de engajamento ideológico, mas sim da exaustão e do descontentamento do eleitor.
“Ele vota muito mais por falta de opção do que por engajamento ou por preferência”, o que esvazia o debate programático e faz com que o cidadão ignore propostas, focando muito mais em quem vai contra o candidato que ele rejeita. É a chamada síndrome do “menos pior”.
A piora na avaliação do governo traz outra novidade que precisa ser avaliada para além dos números. Historicamente, o governante que disputa a reeleição tende a melhorar sua aprovação após o início do horário eleitoral devido à divulgação de seus feitos.

“O que acontece agora é uma assimetria na comunicação. Enquanto o governo foca em discursos tradicionais na TV, o eleitorado é bombardeado massivamente por conteúdos altamente negativos e memes em serviços de mensageria privada de baixo monitoramento, como WhatsApp e Telegram”, explica Hilton.
“A percepção pública do governo é moldada de forma paralela, tornando-se consideravelmente pior do que a realidade dos indicadores econômicos mostra”.
Reverter essa avaliação negativa pode ser a chave capaz de alterar a situação desfavorável de Lula para o segundo turno, cuja dinâmica de vitória dependerá crucialmente da migração de votos. É nesse aspecto que a última pesquisa Quaest de 7 de setembro traz novidades.
Segundo o levantamento, no primeiro turno, Lula sustenta uma vantagem de 7 pontos sobre Flávio (36% a 29%), diferença que se transforma em empate técnico (41%) no cenário final de segundo turno — cinco dos sete pontos dessa diferença vêm justamente das migrações dos candidatos menores.
Para entender as pesquisas: análise da Quaest
Contratada pelo jornal O Globo e pela TV Globo, a pesquisa ouviu presencialmente 2.004 pessoas entre os dias 3 e 6 de setembro. O levantamento apresenta margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. O estudo está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-01720/2026.

Ao afunilar a disputa, o eleitorado remanescente de candidaturas menores e de nomes como Cury (que chegou a 11%, mas voltou para 8% na última rodada) adota um comportamento pragmático. Isso porque o eleitorado que decidirá o pleito no segundo turno é composto por uma fatia pendular altamente permeável à agenda do noticiário e suscetível ao “teto prático” determinado pelos fatos políticos, principalmente da semana decisiva que antecede o pleito.
O destino desses votos flutuantes responderá diretamente à pauta que dominar o debate público nacional na reta final, diz Beto. “Se os dias que antecedem a votação forem monopolizados por discussões envolvendo o Judiciário e os ministros do Supremo Tribunal Federal, o cenário gera prejuízos para Lula e favorece Flávio, da mesma forma que o foco no caso Lulinha também desidrata o atual presidente; em contrapartida, se a agenda focar no caso Dark Horse, o impacto negativo recai diretamente sobre Flávio”.

Essa alta volatilidade do eleitor pendular pode ser medida pelo sentimento de aturdimento diante da recente crise do STF, segundo levantamento qualitativo realizado pelo Instituto Democracia em Xeque, em 5 de setembro último.
A dinâmica de decisão do eleitor deve ser afetada também por variáveis demográficas de abstenção nas urnas, onde a ausência de idosos e pessoas de baixa escolaridade prejudica a base governista, enquanto o afastamento do eleitorado masculino enfraquece a oposição, conclui Beto.
Diante do tabuleiro desenhado pelas pesquisas, caso o governo não consiga reverter a percepção digital negativa para atrair essa parcela suscetível ao noticiário, a migração desses votos flutuantes ocorrerá de forma previsível em direção aos polos, guiada não pela aderência a um projeto de futuro, mas pela urgência do eleitor em vetar o polo que mais rejeita na cabine de votação.
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