EUA afirmam que vão fazer operações por terra contra o tráfico na América Latina

Colômbia autoriza operações conjuntas com os EUA, que ampliam intervenções na região
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Militares panamenhos e americanos participam de um treinamento de manobra de sobrevivência liderado pelo Exército dos Estados Unidos na Escola da Selva, na antiga base militar americana Sherman, em Colón, Panamá, em 22 de outubro de 2025. (Foto de WALTER HURTADO / AFP)

Os Estados Unidos planejam ampliar para o território terrestre a ofensiva militar contra organizações ligadas ao narcotráfico na América Latina. A informação foi divulgada na quarta-feira (12) pelo secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, durante visita ao Panamá. Segundo ele, Washington trabalha com a Colômbia, o Equador e outros países parceiros para realizar operações em terra contra grupos classificados pelo governo dos EUA como organizações terroristas. Saiba mais na TVT News.

A declaração representa uma mudança importante na estratégia adotada pelo governo de Donald Trump. Desde setembro de 2025, as Forças Armadas norte-americanas vêm realizando ataques contra embarcações que Washington afirma estarem envolvidas com o tráfico de drogas no Caribe e no Oceano Pacífico Oriental. As operações já deixaram mais de 200 mortos, segundo os números apresentados nos textos que embasam esta reportagem.

Agora, o governo norte-americano sinaliza que pretende levar a mesma lógica para ações terrestres. Hegseth afirmou que os Estados Unidos estão desenvolvendo, em conjunto com aliados, uma capacidade operacional semelhante à utilizada nos ataques contra as embarcações.

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“Será o mesmo efeito em terra”, afirmou o secretário, ao explicar a estratégia. Segundo ele, o objetivo é atingir organizações que atuem no tráfico de cocaína, no comércio de fentanil e no controle territorial de áreas consideradas estratégicas pelos Estados Unidos.

Colômbia entra na estratégia militar dos EUA

A Colômbia ocupa posição central nos novos planos de Washington. O país passou a integrar recentemente a Coalizão das Américas contra os Cartéis, iniciativa liderada pelos Estados Unidos que reúne 19 países.

Durante a reunião da coalizão, realizada no Panamá, Hegseth afirmou que a Colômbia havia autorizado operações militares conjuntas com os Estados Unidos para combater grupos classificados como terroristas pelo governo norte-americano.

Questionado sobre a possibilidade de ações contra remanescentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e integrantes do Exército de Libertação Nacional (ELN), o secretário respondeu afirmativamente. Segundo ele, organizações incluídas na lista de grupos terroristas dos Estados Unidos podem ser consideradas “alvos legítimos” em operações realizadas em parceria com governos locais.

A aproximação entre Washington e Bogotá ocorre em meio à reorganização da política de segurança dos Estados Unidos para a América Latina. O governo Trump busca ampliar a cooperação militar com governos considerados alinhados à sua estratégia regional e utiliza o combate ao narcotráfico como um dos principais instrumentos dessa política.

A nova coalizão também reúne países como Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Honduras e Peru. Brasil e México, por outro lado, não integram a iniciativa.

PCC e Comando Vermelho são classificados como terroristas

A ofensiva norte-americana também alcança organizações criminosas brasileiras. Em junho, os Estados Unidos incluíram o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) entre as organizações classificadas como terroristas pelo governo norte-americano.

A classificação amplia o alcance das medidas que Washington pode adotar contra integrantes e estruturas financeiras dessas organizações. A declaração de Hegseth, entretanto, também levanta dúvidas sobre até onde a estratégia militar poderá avançar na América Latina.

Ao justificar a possibilidade de ataques, o secretário comparou organizações de narcotráfico a grupos como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda. “Onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo”, afirmou.

A retórica representa uma ruptura com a abordagem tradicional de combate ao tráfico, baseada principalmente em operações policiais, investigações, apreensões, cooperação judicial e processos criminais.

Hegseth afirmou que os Estados Unidos não pretendem necessariamente submeter integrantes dessas organizações a processos judiciais. Segundo ele, Washington pretende utilizar “todas as capacidades” do governo norte-americano para destruir as redes criminosas.

Ataques contra embarcações geram críticas

A expansão da estratégia ocorre enquanto os ataques realizados em águas internacionais são alvo de críticas de parlamentares, juristas e organizações de defesa dos direitos humanos.

O governo Trump sustenta que as embarcações atingidas estavam envolvidas com o tráfico de drogas e passou a considerar os integrantes dessas redes como combatentes ilegais. Os Estados Unidos também informaram ao Congresso que consideram estar em um “conflito armado” contra os cartéis.

Críticos contestam essa interpretação. Entre os questionamentos está a ausência de provas públicas apresentadas pelo governo norte-americano sobre a presença de drogas em algumas das embarcações destruídas ou sobre a ligação dos mortos com organizações criminosas.

Organizações de direitos humanos e especialistas em direito internacional também questionam a legalidade de ataques letais sem julgamento ou possibilidade de defesa. A controvérsia aumenta diante da declaração de Hegseth de que os Estados Unidos pretendem reproduzir em terra a capacidade empregada nas operações marítimas.

Doutrina Monroe volta ao discurso de Washington

As declarações de Hegseth também fazem parte de uma retomada explícita da Doutrina Monroe pela administração Trump.

Criada em 1823, a doutrina estabeleceu historicamente a defesa da primazia dos Estados Unidos sobre o continente americano e foi utilizada, ao longo dos séculos XIX e XX, como justificativa para diferentes formas de intervenção norte-americana na América Latina.

Durante sua passagem pelo Panamá, Hegseth apresentou uma interpretação atualizada dessa política e afirmou que os Estados Unidos pretendem impedir que organizações consideradas terroristas ou potências estrangeiras assumam o controle de áreas estratégicas do continente.

O Canal do Panamá aparece como um dos principais pontos dessa disputa geopolítica. O governo Trump tem demonstrado preocupação com a presença e a influência econômica chinesa na região, enquanto o governo panamenho defende a soberania do país sobre o canal.

Nesse contexto, o combate ao narcotráfico passa a ser associado a uma estratégia mais ampla de segurança e influência regional.

Brasil fica fora da coalizão

O Brasil não participa da Coalizão das Américas contra os Cartéis. A ausência brasileira ocorre ao lado do México, outro país de grande importância na rota internacional do tráfico de drogas.

A estratégia anunciada por Hegseth, porém, pode ter repercussões para toda a América Latina, especialmente porque o secretário afirmou que os alvos poderão estar “onde quer que” as organizações de tráfico atuem.

A inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos acrescenta uma dimensão adicional à questão para o Brasil. Embora não faça parte da coalizão, o país abriga duas das organizações criminosas mais importantes classificadas por Washington.

A expansão das operações militares norte-americanas, portanto, abre um novo capítulo na política de segurança dos Estados Unidos para a América Latina. Ao combinar combate ao narcotráfico, operações militares, classificação de organizações criminosas como terroristas e retomada do discurso da Doutrina Monroe, o governo Trump sinaliza uma atuação mais direta na região.

Para os países latino-americanos, a mudança também coloca em debate os limites da cooperação militar com Washington, a soberania nacional e o respeito ao direito internacional. A principal questão agora é como a promessa de operações terrestres será colocada em prática e quais serão os mecanismos de autorização, controle e responsabilização das forças envolvidas.

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