As exportações brasileiras para a União Europeia avançaram nos primeiros nove meses de 2026 e alcançaram US$ 44,2 bilhões. O resultado representa um crescimento de 20% em relação ao mesmo período de 2025. Desse aumento, US$ 6,4 bilhões foram registrados entre maio e setembro, depois da entrada em vigor do acordo comercial entre o Mercosul e o bloco europeu. Leia em TVT News.
Os dados foram apresentados pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) nesta quinta-feira (5), durante o European Day, evento promovido pelo portal Europa Brasil para discutir as relações comerciais entre o Brasil e os países europeus.
Na comparação com os nove primeiros meses do ano passado, o avanço total das vendas brasileiras para a União Europeia foi de US$ 7,4 bilhões. A parcela de US$ 6,4 bilhões registrada nos cinco meses posteriores ao início da vigência do tratado indica uma expansão expressiva das relações comerciais nesse período. Os números, porém, não permitem atribuir exclusivamente ao acordo o crescimento das exportações.
O desempenho também aparece quando são retirados os produtos básicos da conta. Mesmo sem considerar as commodities, as vendas brasileiras para os países europeus cresceram 13% entre janeiro e setembro, sinalizando que a ampliação do comércio não ficou concentrada no setor agropecuário.
Indústria brasileira também pode ampliar participação
A diretora de negócios da ApexBrasil, Marcia Nejaim Galvão de Almeida, destacou que o acordo comercial abre possibilidades para diferentes setores da economia brasileira. Segundo ela, os resultados alcançados até agora envolvem tanto o agronegócio quanto a indústria.
“O acordo não beneficiou apenas o agro, mas também a indústria. Acreditamos que há espaço para todos os tipos de produto. Ainda estamos no início do acordo, mas há espaço para diversificação para pequenas, médias e grandes empresas”, afirmou.
A avaliação aponta para oportunidades de ampliação da presença de empresas brasileiras no mercado europeu, inclusive negócios de pequeno e médio porte. A diversificação das exportações pode permitir que mais segmentos produtivos participem das relações comerciais entre os dois blocos.
A participação europeia no comércio exterior brasileiro, entretanto, ainda está abaixo da registrada por outros parceiros. De acordo com os dados apresentados pela agência, a União Europeia representa 14% da balança comercial do Brasil. A China, principal parceira comercial do país, responde por 30%.
Para Marcia, essa diferença demonstra que existe espaço para ampliar as vendas brasileiras ao continente europeu. “Isso mostra que há espaço para ampliar as vendas. Estamos começando agora a jogar esse jogo”, avaliou.
Política comercial dos Estados Unidos influenciou aproximação
O acordo entre Mercosul e União Europeia também foi discutido a partir das mudanças no cenário internacional. Sergio Quiroga, presidente da Eurocâmaras, entidade que representa a comunidade empresarial europeia no Brasil, relacionou a aproximação entre os blocos à política comercial adotada pelos Estados Unidos desde o ano passado.
A imposição de tarifas norte-americanas sobre produtos de diferentes países e a imprevisibilidade das decisões comerciais do governo dos Estados Unidos teriam contribuído para criar condições políticas favoráveis à aproximação entre europeus e sul-americanos.
“A imprevisibilidade dos Estados Unidos gerou a União Europeia”, declarou Quiroga durante o evento.
O dirigente também chamou a atenção para a diferença entre o crescimento das exportações brasileiras para a Europa e o movimento no sentido contrário. Até o momento, a entrada de produtos europeus no mercado brasileiro não apresentou uma expansão tão expressiva quanto as vendas do Brasil para o bloco.
Uma das explicações apontadas por Quiroga é que diversas empresas europeias já possuem instalações e operações produtivas no Brasil. Com isso, parte dos produtos comercializados por essas companhias no país não precisa ser importada diretamente da Europa.
Apesar desse cenário, o presidente da Eurocâmaras defendeu uma ampliação das vendas europeias ao mercado brasileiro, que considera uma oportunidade para os negócios do continente.
Exigências para exportar ainda são desafio
O crescimento das vendas não elimina os obstáculos enfrentados por empresas brasileiras interessadas em comercializar seus produtos na União Europeia. As regras para a entrada de mercadorias no mercado europeu exigem atenção e preparação, especialmente em relação às especificações estabelecidas pelas autoridades do bloco.
O diplomata Fernando de Mello Barreto, que participou das negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia, alertou para a complexidade dessas exigências. Segundo ele, há casos de mercadorias que foram enviadas a compradores europeus, mas acabaram retidas nas alfândegas por não atenderem às normas exigidas.
“As exigências europeias são reconhecidamente complicadas, e é necessário estar atento para cumpri-las”, afirmou.
Barreto ressaltou que as empresas precisam conhecer antecipadamente os requisitos aplicáveis aos produtos que pretendem exportar. A falta de adequação às especificações pode impedir que a mercadoria chegue ao comprador, mesmo depois de concluída a negociação comercial.
O alerta tem relevância para empresas de diferentes portes que buscam aproveitar as oportunidades abertas pelo acordo. Além de ampliar a capacidade de produção e encontrar compradores no exterior, os negócios brasileiros precisam se preparar para atender às normas europeias.
Os números apresentados pela ApexBrasil mostram uma expansão das vendas brasileiras para a União Europeia e apontam possibilidades de diversificação da pauta exportadora.
Para transformar esse avanço em uma presença mais ampla e consistente no mercado europeu, o país ainda terá de enfrentar desafios relacionados à adaptação das empresas, ao cumprimento das exigências comerciais e à participação de diferentes setores da economia nas trocas entre os dois blocos.