Melhora na aprovação do governo e desgaste de Flávio apontam favoritismo de Lula

Analistas da FESPSP abordam nova pesquisa Quaest que registra virada na avaliação da gestão federal e queda acentuada do candidato do PL
Melhora na aprovação do governo e desgaste de Flávio apontam favoritismo de Lula "Vemos um movimento lento, mas permanente, favorável ao presidente Lula", afirma analista. Foto: Ricardo Stuckert/PR TVT News
"Vemos um movimento lento, mas permanente, favorável ao presidente Lula", afirma analista. Foto: Ricardo Stuckert/PR

A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest de julho aponta uma inflexão decisiva no cenário eleitoral, caracterizada pela combinação inédita entre a recuperação da popularidade do governo federal e o enfraquecimento político do senador Flávio Bolsonaro.

Segundo analistas da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), essa dinâmica relacional reposiciona o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em situação mais favorável à reeleição do que no início do ano. O movimento é impulsionado pela melhora nos indicadores de aprovação da gestão e por uma sequência de crises na campanha de oposição, resultando em uma liderança de 45% de Lula contra 37% de Flávio Bolsonaro nas simulações de segundo turno. Saiba mais na TVT News.

A principal força da candidatura de Lula no momento reside no avanço de sua aprovação institucional, que superou a desaprovação pela primeira vez desde dezembro de 2024 (48% a 47%. “A construção do favoritismo de um candidato à reeleição na pré-campanha e no início da campanha reside mais na aprovação e na avaliação do seu governo do que na intenção de voto”, explica Aldo Fornazieri, cientista político e coordenador do curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP.

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Aprovação do governo Lula na pesquisa Quaest de 15 de julho de 2026

Para o especialista, “o principal esforço do governo e do comando da campanha de Lula deve consistir na persistência em buscar o crescimento da avaliação positiva da gestão”, tendência que já se reflete no emparelhamento da avaliação positiva com a negativa em 36%.

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“Vemos um movimento lento, mas permanente, desde abril, favorável ao presidente Lula e negativo para o senador Flávio Bolsonaro”, analisa Beto Vasques, coordenador do Labop (Laboratório de Opinião Pública da FESPSP). Em sua visão, os números refletem uma dinâmica de voto relacional entre os dois candidatos em que a melhora de um explica a piora do outro, com destaque para o Sudeste, onde a desaprovação recuou de 19% para 6%, e entre o eleitorado feminino, público no qual “a reprovação de 4% virou aprovação de 6%”.

O recuo do principal candidato da oposição reflete o impacto cumulativo de denúncias éticas e fraturas em sua base aliada. De acordo com Hilton Fernandes, cientista político e pesquisador do Labop FESPSP, “o desgaste de Flávio Bolsonaro com o caso Dark Horse diminui sua credibilidade e coloca em cheque as críticas ao governo Lula”. Vasques corrobora o diagnóstico ao sinalizar o peso dos episódios recentes:

“O recado dos eleitores na pesquisa Quaest é claro: independentes e a direita não bolsonarista reagiram negativamente à série de más notícias no entorno da campanha do senador neste período: Dark Horse, Tarifaço e a briga com Michelle”.

A deterioração da imagem de Flávio provocou uma visível perda de musculatura eleitoral em segmentos de centro e de direita moderada. “Enquanto Lula amplia sua capacidade de atrair o eleitorado independente, Flávio perde apoio na direita moderada sem que esses votos migrem diretamente para o presidente”, aponta o cientista político e pesquisador do Labop, Jairo Pimentel. Esse fenômeno resultou no aumento do índice de indecisos gerais (de 5% para 11%) e na desmobilização parcial da direita não bolsonarista, cuja intenção de voto em Flávio caiu de 88% para 74%, migrando majoritariamente para votos brancos, nulos ou abstenções.

Apesar do cenário mais promissor para o Palácio do Planalto, os especialistas alertam que a disputa presidencial de 2026 continua em aberto. Hilton Fernandes destaca o desempenho de Renan Santos no cenário de segundo turno, especialmente no grupo de direita não bolsonarista, que “parece ver em Renan um candidato mais firme que Flávio”.

A sustentabilidade da melhora eleitoral de Lula enfrenta barreiras concretas na percepção do ambiente econômico pelo cidadão comum. “A recuperação eleitoral do governo parece decorrer mais da dinâmica política da disputa do que de uma melhora consistente na avaliação da economia”, conclui Jairo Pimentel, ressaltando que “a economia continua sendo o principal ponto de vulnerabilidade” oficial devido às queixas persistentes sobre o poder de compra e o preço dos alimentos.

Confira a íntegra das análises da FESPSP sobre a pesquisa Quaest

ALDO FORNAZIERI – Cientista político e coordenador do Curso de Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da FESPSP

A principal novidade da pesquisa Quaest de julho não está na intenção de voto, mas na aprovação do governo Lula. Pela primeira vez desde dezembro de 2024, a avaliação positiva supera a negativa, embora haja um empate técnico: 48% aprovam o governo e 47% o desaprovam.

A construção do favoritismo de um candidato à reeleição na pré-campanha e no início da campanha reside mais na aprovação e na avaliação do seu governo do que na intenção de voto. Assim, o principal esforço do governo e do comando da campanha de Lula deve consistir na persistência em buscar o crescimento da avaliação positiva da gestão.

A avaliação positiva também melhorou: subiu de 34% na pesquisa de junho para 36% agora, configurando um empate com a negativa, que também é de 36%. Já a parcela dos que avaliam o governo como regular é de 27%. Esse crescimento também é uma boa notícia para a campanha lulista.

Nas simulações de segundo turno, Lula abriu uma vantagem de 8 pontos sobre Flávio Bolsonaro. O presidente aparece com 45% contra 37% do candidato bolsonarista.

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A principal novidade da pesquisa Quaest de julho não está na intenção de voto, mas na aprovação do governo Lula. Foto: Ricardo Stuckert

O conjunto de dados reflete duas tendências: o crescimento da avaliação do governo e o da intenção de voto em Lula. Esses movimentos estão ancorados na agenda positiva do governo, lastreada em cerca de 20 iniciativas, a exemplo do Desenrola 2.0, do subsídio aos combustíveis e da revisão da tabela do Imposto de Renda.

Em contrapartida, a campanha de Flávio Bolsonaro aprofunda sua crise interna, que tem seu ponto mais agudo nas desavenças entre ele e sua madrasta, Michelle Bolsonaro. O ataque que os bolsonaristas fazem às mulheres em geral e a Michelle e à senadora Damares Alves, em particular, tem provocado desgastes na campanha, principalmente junto ao eleitorado feminino.

BETO VASQUES – Analista político e coordenador do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

Numa eleição tão acirrada entre dois candidatos já desde o primeiro turno, com uma dinâmica de voto relacional entre eles, a melhora de um explica a piora do outro. Nesse sentido, vemos um movimento lento, mas permanente, desde abril, favorável ao presidente Lula e negativo para o senador Flávio Bolsonaro.

Isso pode ser observado ao se olhar para três indicadores: aprovação do governo, intenção de voto na simulação de segundo turno e rejeição.

Na aprovação do governo, uma diferença negativa de 9 pontos percentuais (52% desaprovavam e 43% aprovavam) virou uma aprovação de 1 ponto (48% aprovam, 47% desaprovam). Isso também vale para a avaliação do governo: em abril, os que avaliavam a gestão de forma positiva eram 11% a menos do que os que a avaliavam negativamente (43% a 31%), e agora encontram-se igualados (36% de positivo e 36% de negativo).

A diferença se dá entre os eleitores independentes, que em abril apontavam uma apreciação negativa de 26 pontos, quando 57% desaprovavam e só 32% aprovavam o governo. Hoje, essa diferença desaparece, e o governo Lula encontra-se em empate nesse segmento, com 45% de aprovação e 45% de reprovação.

Destaque ainda para a variação entre abril e julho:

  • Nas regiões Sudeste (onde a reprovação de 19% caiu para 6%) e Centro-Oeste/Norte (a reprovação caiu de 23% para 3%);
  • Variação favorável ao governo entre mulheres (reprovação de 4% virou aprovação de 6%) e homens (reprovação caiu de 14% para 4%);
  • Variação entre os jovens, público no qual uma reprovação ao governo de 16% se transformou em 25% de aprovação.

Quanto à simulação de segundo turno, o senador, que aparecia 2 pontos à frente de Lula em abril (42% a 40%), agora aparece 8 pontos atrás do atual mandatário (37% a 45%). Neste caso, o destaque vai novamente para o segmento dos eleitores independentes, no qual a intenção de voto no presidente subiu de 26% para 40% no período de abril a julho, e para os eleitores que se definem como de “direita não bolsonarista”, segmento no qual Flávio desabou no período, saindo de 90% para 74% das intenções de voto.

Na rejeição, essa dinâmica relacional entre os votos dos candidatos é ainda mais evidente. Uma rejeição 3% menor do senador em relação ao presidente (52% a 55%) traduziu-se em uma rejeição 7% maior (57% para Flávio contra 50% para Lula). Ou seja, Lula diminuiu sua rejeição em 5%, enquanto Flávio aumentou a sua nos mesmos 5%.

Outro dado que merece destaque aponta para a consolidação do voto na variação entre junho e julho: o presidente cresceu 6 pontos, subindo de 71% para 77% o número de seus eleitores que dizem ter o voto definido, enquanto o senador teve uma queda de 8 pontos, caindo de 70% para 62%, o que indica um risco maior para Flávio no porvir.

O recado dos eleitores na pesquisa Quaest é claro: independentes e a direita não bolsonarista reagiram negativamente à série de más notícias no entorno da campanha do senador neste período: Dark Horse, Tarifaço e a briga com Michelle. Numa eleição tão acirrada, isso foi o suficiente para que o empate técnico — com Flávio numericamente dois pontos à frente no cenário de segundo turno em abril — se transformasse agora na maior diferença a favor do presidente (8%) de todo o ano de 2026.

A melhora na percepção das políticas do governo, como o fim da escala 6×1, a isenção do Imposto de Renda e o Desenrola 2, acompanha as melhoras na avaliação e aprovação da gestão como um todo. Isso indica que, mais do que um maior conhecimento ou o efeito direto dessas políticas na vida dos eleitores, essa melhora pode estar respondendo a uma dinâmica relacional: uma maior indisposição do eleitor com o adversário do governo se traduziria em maior disposição não só para escutar, mas para reinterpretar positivamente as políticas governamentais, bem como a avaliação e a aprovação do governo, refletindo-se na menor rejeição e na maior intenção de voto no presidente Lula.

HILTON FERNANDES – Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

A nova rodada da pesquisa Quaest confirma a queda nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro a partir das denúncias de envolvimento com Daniel Vorcaro, divulgadas em maio. A comparação dos resultados das pesquisas desde maio é consistente com uma diminuição dos votos para além da margem de erro.

A pesquisa também mostra uma melhora constante na percepção positiva do governo Lula, tanto nas avaliações dos entrevistados quanto na intenção de voto no presidente. Parte desse resultado provavelmente se deve às medidas populares tomadas no segundo trimestre já com foco nas eleições, mas é difícil afirmar que surtiriam o mesmo efeito sem o desgaste na imagem de Flávio Bolsonaro, ocorrido no mesmo período.

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Pesquisa Quaest de 15 de julho de 2026

É importante lembrar que Flávio Bolsonaro, como principal opositor do presidente Lula, era responsável por apontar os erros e problemas do governo. Porém, quando foi pego mentindo sobre o caso Dark Horse, sua credibilidade foi fortemente afetada, colocando em dúvida sua conduta e as suas críticas a Lula. Um dado da pesquisa que indica a relação dos resultados com o desgaste de Flávio Bolsonaro é a comparação de cenários de segundo turno, no qual Flávio perde votos de forma contínua entre os eleitores classificados como direita não bolsonarista, enquanto os demais nomes testados mantêm bons resultados nesse grupo.

Merece atenção o desempenho do candidato Renan Santos, que parece melhorar sua performance na esteira do desgaste de Flávio Bolsonaro. É possível que os eleitores mais radicais da direita não bolsonarista já estejam migrando para um candidato que não apresente as mesmas fraquezas para esse grupo.

JAIRO PIMENTEL – Cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP

A nova rodada da pesquisa Genial/Quaest indica uma inflexão importante no cenário eleitoral. O principal destaque não é apenas a liderança de Lula nas intenções de voto, mas a combinação entre a melhora dos indicadores do governo e a perda de desempenho de Flávio Bolsonaro, tornando o quadro mais favorável ao presidente do que nos últimos meses.

A aprovação do governo chega a 48%, empatando tecnicamente com a desaprovação (47%) — o melhor resultado do ano. O avanço parece refletir tanto a boa recepção de medidas como a ampliação da isenção do Imposto de Renda e o Desenrola 2.0 quanto o desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro durante a crise do tarifaço de Donald Trump. Pesquisas anteriores da própria Quaest já haviam mostrado maior concordância dos eleitores com a narrativa de Lula sobre esse episódio.

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Pergunta da pesquisa Quaest de 15 de julho de 2026: O que te dá mais medo hoje: mais um governo Lula ou a família Bolsonaro voltar ao poder?

No primeiro turno, Lula alcança 40% das intenções de voto, seu melhor desempenho na série, enquanto Flávio Bolsonaro recua para 28%, ampliando a vantagem para 12 pontos. O dado mais relevante é que essa perda de Flávio não foi absorvida por outros candidatos de oposição. Desde maio, nenhum adversário apresentou crescimento consistente; o principal movimento foi o aumento dos indecisos, que passaram de 5% para 11%. O mesmo padrão aparece no segundo turno, no qual Lula amplia a vantagem para oito pontos (45% a 37%), indicando que o presidente cresce ao mesmo tempo em que o candidato do PL perde capacidade de expandir sua candidatura.

A análise por segmentos ajuda a explicar essa dinâmica no segundo turno. Entre os eleitores independentes, Lula avançou de 29% para 40% entre maio e julho, enquanto Flávio caiu de 35% para 27%. Nesse grupo, a parcela que declarava voto em branco, nulo ou abstenção também diminuiu de 31% para 26%, sugerindo que parte desse eleitorado passou a se definir em favor do presidente.

Já entre a direita não bolsonarista, o movimento foi distinto: Flávio recuou de 88% para 74%, mas Lula permaneceu praticamente estável, oscilando de 6% para 8%. Nesse segmento, o principal crescimento ocorreu entre os que passaram a declarar voto em branco, nulo ou abstenção, saltando de 5% para 15%. Em outras palavras, enquanto Lula amplia sua capacidade de atrair o eleitorado independente, Flávio perde apoio na direita moderada sem que esses votos migrem diretamente para o presidente, sinalizando um aumento da desmobilização e da indecisão nesse campo político.

A pesquisa espontânea reforça essa tendência: Lula alcança 26%, o maior percentual da série, enquanto Flávio cai para 14%. Além disso, 65% dos entrevistados afirmam que seu voto é definitivo, sendo esse percentual maior entre os eleitores de Lula (77%) do que entre os de Flávio (62%), o que indica uma base atualmente mais consolidada.


Apesar da melhora política, a percepção econômica permanece predominantemente negativa. A maioria dos brasileiros ainda afirma que a economia piorou, que os preços dos alimentos continuam elevados e que o poder de compra diminuiu. Isso indica que a recuperação eleitoral do governo parece decorrer mais da dinâmica política da disputa do que de uma melhora consistente na avaliação da economia.

Em síntese, a pesquisa mostra um cenário hoje mais favorável à reeleição de Lula do que no início do ano. A recuperação do presidente decorre da combinação entre ganhos próprios em segmentos estratégicos e dificuldades enfrentadas por seu principal adversário. Ainda assim, a eleição permanece aberta, pois a economia continua sendo o principal ponto de vulnerabilidade do governo e ainda há um contingente relevante de eleitores sem alinhamento definitivo às candidaturas.

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