Reportagem de Girrana T. Rodrigues e Sônia Xavier
A imagem mais comum do trabalhador plataformizado é a de um entregador com uma mochila nas costas, ou a de um motorista de aplicativo, mas eles estão em mais lugares da chamada plataformização do trabalho. Psicólogos, cuidadores e até escritores recorrem às plataformas como meio de entrada no mercado de trabalho ou reinserção profissional.
Dados do IBGE apontam que no 3º trimestre de 2024 o Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços, incluindo aplicativos de transporte de pessoas, de entrega de comida e produtos e de prestação de serviços gerais ou profissionais, o equivalente a 1,9% da população ocupada no setor privado. Em relação a 2022, quando havia 1,3 milhão pessoas nessas ocupações, houve crescimento de mais 335 mil pessoas (25,4%).
Ana Cláudia Moreira Cardoso pesquisadora e pós-doutora em sociologia do trabalho acompanha a plataformização dos trabalhadores nos setores bancário, de saúde e educação. Para ela, a entrada das plataformas nessas profissões foi reforçada pelo cenário da pandemia. “Para as plataformas, isso foi maravilhoso. Porque as pessoas foram naturalizando. Da mesma forma que eu compro uma camiseta pela internet, eu faço um pedido de comida, o pedido de uma aula de inglês para o meu filho ou vou começar a fazer minha terapia pela internet”, avaliou.
O número de desempregados durante a pandemia atingiu seu pico em 2021, quando bateu a marca de 15,2 milhões de desocupados no primeiro trimestre do ano, uma taxa de 14,9%.
Como se estrutura o trabalho plataformizado?
Apesar dos setores terem especificidades, o trabalho plataformizado tem algumas diretrizes. A primeira é a mediação digital. “Essas empresas são o que a gente chama de empresas digitais nativas. Ou seja, elas nascem digitalizadas”. Cardoso explica que é essa estrutura digital que possibilita manter os trabalhadores dispersos e mesmo assim controlados.
Um outro ponto, é que os dados são usados para a empresa rentabilizar, isso pode acontecer por meio da venda de produtos direcionados por informações, ou até com a venda de dados para outras empresas.
A terceira característica comum é que todas as empresas plataformizadas têm uma gestão de metas por meio de algoritmos. “Vai substituindo uma parte da remuneração fixa e ampliando a remuneração variável, que depende das metas dos trabalhadores. Isso já existia, mas, no caso das empresas de plataforma, até por elas terem essa infraestrutura digital, elas fazem essa gestão por metas por meio dos algoritmos, que é muito mais eficaz.”, explica a socióloga. Há ainda um quarto ponto que é a desconsideração da legislação trabalhista.
Pietro Borsari, pesquisador de pós-doutorado da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) no Cesit (Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho do Instituto de Economia) também atribui o crescimento do trabalho precarizado a estrutura produtiva do mercado de trabalho brasileiro, ou seja, o que o Brasil vende e compra do resto do mundo.
“Tem alguns polos de alta complexidade, alto valor agregado, geralmente associado à indústria, mas também pode ser uma indústria extrativa de alto valor agregado, a cadeia de petróleo e gás, produção de equipamentos, maquinários […] do outro lado, que é predominante, você tem uma série de outras formas de se produzir em que se predomina o baixo salário, a baixa qualificação, a falta de profissionalização, de direitos associados, uma certa incerteza em relação aos rendimentos”, avalia o professor.
Para ele, além da conjuntura de aprovação da Reforma Trabalhista em 2017, as plataformas ganham força em um terreno em que a desindustrialização persiste. “Tem algumas teias industriais que se formavam e vão perdendo densidade, outras desaparecem, outras desnacionalizam e são justamente elas que promovem os circuitos produtivos de maior formalidade”, explicou.
Plataformização no cuidado: ausência de dados e invisibilização de gênero
Enquanto no mundo, o trabalho de cuidado abrange o maior número de trabalhadores em empresas-plataforma, no Brasil se sabe pouco sobre essas pessoas. Um trabalho que, historicamente, é atribuído de forma natural às mulheres assume uma nova faceta de invisibilização com a plataformização.
No artigo “Plataformas de trabalho de cuidado: um olhar interseccional necessário”, da Revista da Faculdade do Dieese de Ciências dos Trabalho, as pesquisadoras insistem que é importante considerar os marcadores de classe, gênero, étnico-racial, geracional, de sexualidade e de territorialidade na análise do trabalho também em plataformas digitais.
Técnica de enfermagem, Gislene Espessoto iniciou a sua jornada com as plataformas em 2023, quando decidiu finalizar o curso de auxiliar de enfermagem, na época com 37 anos. O primeiro contato com a empresa veio por meio da indicação de uma amiga.
“Eu já queria entrar na área para pegar uma experiência, uma colega minha me chamou para fazer home care. Minha primeira indicação, uma cliente de 82 anos”, lembrou.
Gislene conta que, depois que se cadastrou na plataforma indicada pela amiga, foi chamada para uma entrevista com o responsável e, posteriormente, colocada em contato com a filha da paciente. Como ainda estava no processo de graduação, ela fazia plantões de 12 horas aos fins de semana.
O pagamento, na época, era repassado por esse “gestor” de forma quinzenal. “Então nessa que eu trabalhava, ele recebia R$300 no plantão e quando ele me pagava era R$140, o restante era dele”.
Ao longo dos anos ela passou por outras plataformas, mas conseguiu um emprego celetista de técnica de enfermagem em um hospital, e deixou de atender regularmente pelas plataformas, aceitando propostas esporadicamente.
“Foi o que me ajudou a pagar minhas contas, fazer minhas coisas e até pagar meus cursos, porque realmente ganha muito dinheiro. Eu tirei uns R$5.000,00, R$6.000,00 em pouco tempo”, conclui.

A plataformização também foi o caminho encontrado por João Paulo Cobaixo Ajaj, 41, psicólogo, que concluiu sua segunda graduação em 2024 e precisava se reinserir no mercado de trabalho. “Eu saí da faculdade com dois pacientes da clínica escola, depois de seis meses eu decidi que precisava encher a minha clínica e aí foi que eu fui atrás do Psymeet e de outras plataformas”.
A Psymeet é uma empresa de atendimento psicológico que conecta pacientes e profissionais do campo da saúde mental. O cadastro funciona como uma assinatura, que pode ser mensal, trimestral ou variável. O pacote mantém o perfil ativo para divulgação e para o recebimento de fluxo de pacientes.
João começou a trabalhar com a plataforma no início deste ano e pagou R$534,90 para se cadastrar. “O cadastro é fácil, se tem vaga ou não, aí já é outra história […] se eles não têm vagas, eles te deixam num banco e quando surgem [as vagas], eles entram em contato através do WhatsApp, pelo número que você deixou cadastrado”.
O psicólogo explica que esse mecanismo de lista de espera é para que os profissionais já cadastrados consigam ser divulgados e receber fluxo de pacientes. Os atendimentos psicológicos na Psymeet custam R$30,00. Para atendimentos com médicos de psiquiatria, cada atendimento custa R$70,00, segundo site da plataforma.
Uma vez que o tratamento esteja em curso, é possível que paciente e profissional negociem um novo valor de acordo com a realidade financeira do paciente.
“Acho que é legal democratizar o acesso à saúde mental, mas essa democratização [vem] precarizando os profissionais”, finaliza.
Cat sitter: mais uma ponta do novelo de lã
As raízes do trabalho plataformizado já ultrapassam os cuidados com humanos e chega nos pets. Juliana Nakamura, cat sitter – profissional que assume os cuidados com os felinos enquanto o tutor do animal viaja ou passa o dia fora – há 11 anos também já esteve dentro das plataformas.
O contato com a profissão começou a partir de amigos. “Eu comecei com meu círculo social, como é uma profissão que a gente entra na casa das pessoas, pensei que seria mais seguro eu começar com gente que eu já conhecia. Então, eu comecei primeiro com meu círculo social com amigas e aí as amigas indicaram amigas e aí foi aumentando”.

Com o passar do tempo, Juliana se interessou por uma plataforma que estava começando no mercado, a Pet Anjo. “O que eu achei interessante dessa plataforma, e foi por isso que eu me inscrevi, é que eles passavam um curso para você antes de entrar. Então tinha que fazer o curso, fazer uma prova e aí era qualificado”. A plataforma também oferecia suporte veterinário para casos de emergência com os animais que o trabalhador estivesse responsável.
Dentro da plataforma os tutores deixavam avaliações e comentários sobre o trabalho da profissional, assim novos interessados conseguiam entrar em contato com ela.
Juliana trabalhou por meio do site por dois anos. Decidiu sair quando notou excessos de descontos automáticos nas visitas diárias. ” Por exemplo, uma visita por dia era o valor que eu cobrava, eu ganhava só os 70%. Se a pessoa desejasse duas, três visitas por dia, automaticamente, entrava um desconto e eu ganhava R$ 30 por visita, o que é muito baixo. E não tinha como eu tirar essa opção, então eu tinha que falar para o cliente que eu não estava aceitando mais que uma visita, porque senão já caía muito o valor”.
Outro fator importante na decisão de Juliana foi a falta de flexibilidade para escolha da região onde ela iria atender. ” A região também era automática, não era eu que definia. Então eles me colocavam para uns lugares que eu não queria ir”.
Atualmente ela possui sua própria cartela de clientes. ” Hoje já é meio que automático. Como as pessoas já me conhecem, já vão indicando. Então, chega cliente por indicação e pelo Google, por causa do cadastro do Google Business”, contou.
Durante o período em que Juliana trabalhou na plataforma Pet Anjo a empresa ainda não era administrada pela Cobasi. A compra foi realizada em maio de 2021.
Entre livros e algoritmo
A plataformização também alcança setores como a literatura. A escritora, Bruna Paiva, 28 anos, conta que vende seu trabalho por meio da Amazon há 8 anos.
Na plataforma os escritores podem escolher modalidades de remuneração: ganhar 70% dos lucros da venda, com a condição de exclusividade da plataforma por meio do KDP Select – programa gratuito e opcional da Kindle Direct Publishing que ajuda autores a divulgarem seus e-books – ou um pagamento de royalties de 30%.
Uma outra forma é a disponibilização do livro no Kindle Unlimited – um serviço de assinatura de livros digitais da Amazon que funciona como biblioteca online, em que O autor recebe por página lida.
“Todo mês eles contabilizam a quantidade de assinantes e a partir da quantidade de assinantes, eles fazem uma conta que pagam por página lida, mas é menos de um centavo”.
A escritora aponta que apesar das baixas remunerações, a plataforma também possibilita a democratização do acesso à publicação.
Além da questão do lucro, outra questão sinalizada pela autora é dificuldade na divulgação e destaque do trabalho “você precisa dar uma batalhada para ser visto, você precisa aparecer ali dentro para se destacar no meio da multidão e fazer com que o seu livro tenha leitores suficientes para que você ganhe uma renda legal”.
Nós entramos em contato com a Amazon para saber a quantidade de autores plataformizados no site, entretanto a plataforma não disponibilizou os dados.
Futuro do mercado de trabalho com a plataformização
Borsari afirma que apesar da impressão de que tudo é trabalho plataformizado, a quantidade de pessoas nesse tipo de emprego pode ser mais baixa do que se imagina. ” Se a gente pegar esses outros casos é verdade, eles crescem, tem uma capilaridade, atinge cada vez mais outros setores. Por isso, pode ser que um dia seja significativo, mas a realidade concreta é que hoje, digamos, 12 anos depois do começo das plataformas, a gente tem menos de 1,6 milhão de pessoas, com um mercado de trabalho de 110 milhões de pessoas”, opinou.

Já a socióloga Cardoso acredita na regulamentação a partir da pressão dos trabalhadores. “As empresas é óbvio que vão se recusar […] nenhuma empresa quer que o trabalhador tenha direito, nem empresa digital nativa e nem empresa tradicional. Então, não adianta a gente esperar da empresa. Quem tem que ter essa ação é o Estado”, concluiu.
Todos os trabalhadores entrevistados contribuem pela Previdência por meio do MEI (Microempreendedor Individual) e se preocupam com a aposentadoria. A contribuição com a Previdência nesta modalidade dá direito a uma aposentadoria por idade, sendo 62 anos para mulheres e 65 anos para homens, com exigência de 15 anos de contribuição. O valor dessa aposentadoria é de uma salário mínimo, atualmente, R$1512.