A porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos para a língua portuguesa, Amanda Roberson, procurou reduzir as tensões provocadas pela decisão de Washington de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Em entrevistas concedidas à CNN Brasil, ela afirmou que os Estados Unidos pretendem manter a cooperação com o Brasil no combate ao crime organizado, mas também deixou claro que a medida integra uma estratégia mais ampla do governo de Donald Trump para ampliar a ofensiva contra grupos que considera ameaças à segurança norte-americana. Saiba mais na TVT News.
As declarações foram dadas poucos dias depois da reação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que classificou como inaceitável qualquer tentativa de interferência estrangeira em assuntos internos brasileiros e alertou para riscos à soberania nacional decorrentes da nova política adotada por Washington.
Ao ser questionada sobre os efeitos da classificação do PCC e do CV e sobre eventuais impactos para o Brasil, Roberson enfatizou que a intenção dos Estados Unidos não é romper os canais de colaboração existentes entre os dois países.
“Claro que vamos continuar colaborando com as autoridades brasileiras. Entendemos que a colaboração e a cooperação são importantes para poder enfrentar esses grupos que estão afetando comunidades brasileiras e americanas também”, afirmou.
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A declaração busca responder às preocupações manifestadas por integrantes do governo brasileiro e especialistas em segurança pública, que avaliam que a nova classificação pode alterar a dinâmica da cooperação bilateral e abrir espaço para medidas unilaterais dos Estados Unidos.
Apesar do discurso conciliador, a porta-voz reforçou que Washington espera uma atuação ainda mais agressiva das autoridades brasileiras no combate às facções.
“Incentivamos o governo brasileiro a também tomar medidas mais rigorosas para frear as atividades desses grupos”, declarou.
A observação ocorre em um momento em que o governo Lula tem destacado ações recentes de enfrentamento ao crime organizado. O Planalto lembra que o Congresso aprovou uma nova legislação de combate às facções e milícias, com penas que podem chegar a 80 anos de prisão, além da implementação do programa Brasil contra o Crime Organizado, voltado à desarticulação financeira e operacional dessas organizações.
As entrevistas também evidenciaram que a classificação do PCC e do CV não se limita a uma medida administrativa isolada, mas integra uma estratégia geopolítica mais ampla da gestão Trump.
Segundo Roberson, a decisão está alinhada à política anunciada pelo presidente norte-americano desde o início de seu novo mandato.
“O presidente Trump deixou muito claro desde o início do seu mandato que ele vai utilizar todas as ferramentas à nossa disposição para combater esses grupos criminosos que estão atuando na nossa região e para proteger a segurança dos Estados Unidos”, afirmou.
Em seguida, ela resumiu de forma direta o objetivo da política adotada pela Casa Branca.
“O presidente Trump está atuando para eliminar estes grupos.”
A declaração reforçou as preocupações levantadas por autoridades brasileiras e especialistas, que veem na nova classificação uma ampliação significativa do alcance das ações norte-americanas sobre temas ligados à segurança pública na América Latina.
A legislação dos Estados Unidos permite que organizações enquadradas como terroristas sejam alvo de uma série de medidas, incluindo bloqueio de ativos, restrições financeiras, sanções econômicas e investigações com alcance internacional. O temor manifestado por integrantes do governo brasileiro é que essas ferramentas possam produzir efeitos indiretos sobre empresas, instituições financeiras e operações econômicas legítimas no Brasil.
Outro tema abordado por Roberson foi a suspeita de que a decisão tenha sido influenciada pela recente visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos.
A classificação do PCC e do CV foi anunciada apenas dois dias após encontros de Flávio Bolsonaro com Donald Trump e integrantes do governo norte-americano em Washington. O episódio alimentou críticas do Palácio do Planalto, que acusa integrantes da família Bolsonaro de buscar apoio externo para pressionar o governo brasileiro.
Porta-voz rejeita influência de Flávio
Questionada sobre a possível relação entre os fatos, a porta-voz rejeitou qualquer interferência do parlamentar brasileiro na decisão.
“A única pessoa que toma decisões pelos Estados Unidos é o presidente Trump e sua equipe, o secretário Marco Rubio”, afirmou.
Segundo ela, a medida decorre exclusivamente das prioridades definidas pela atual administração republicana.
Na última sexta-feira (29), a porta-voz também procurou afastar interpretações de que a nova política norte-americana possa representar algum tipo de ingerência sobre o processo político brasileiro.
“O presidente do Brasil é decisão dos brasileiros”, declarou em entrevista à GloboNews.
A fala ocorreu em resposta a questionamentos sobre possíveis repercussões políticas da aproximação entre integrantes da família Bolsonaro e a Casa Branca.
Ao mesmo tempo, Roberson confirmou que o enquadramento das facções brasileiras está inserido em uma estratégia regional mais abrangente de combate ao chamado narcoterrorismo.
Segundo ela, PCC e CV fazem parte de um conjunto de 17 organizações criminosas consideradas prioritárias pelos Estados Unidos em todo o hemisfério ocidental.
“Essa ação não foi tomada só contra esses dois grupos, mas é parte de uma estratégia abrangente que os Estados Unidos estão desenvolvendo agora para eliminar o narcoterrorismo e esses grupos violentos na região”, afirmou.
A referência ao narcoterrorismo chama atenção porque esse conceito já foi utilizado em diferentes momentos da política externa norte-americana para justificar ações de segurança além de suas fronteiras. É justamente esse histórico que alimenta as preocupações de setores do governo brasileiro, diplomatas e especialistas em segurança sobre os possíveis desdobramentos futuros da medida.
Enquanto Washington insiste que pretende fortalecer a cooperação com o Brasil, o governo Lula sustenta que o combate ao crime organizado deve ocorrer com base no respeito à soberania nacional e por meio de mecanismos de colaboração entre Estados independentes. Nesse contexto, as declarações de Amanda Roberson buscaram reduzir o desgaste diplomático provocado pela decisão, mas também deixaram claro que a administração Trump não pretende recuar da estratégia que colocou PCC e Comando Vermelho no centro de sua política regional de combate ao chamado narcoterrorismo.
