Nesta quarta-feira (29), após 4 meses de disputa na justiça, a prefeitura de Ricardo Nunes demoliu o tradicional espaço de cultura negra, o Cruz da Esperança, na Casa Verde, bairro da ZN de São Paulo. O Grêmio Esportivo Cruz da Esperança tinha sua sede no local há quase 50 anos, onde também acontecia o tradicional Samba do Cruz. Leia em TVT News.
A demolição foi decidida na Justiça, que autorizou a reintegração de posse da área para a construção do Parque Municipal Campo de Marte.
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O imóvel do Cruz da Esperança foi fundado em 1958 e nasceu com o samba, futebol de várzea, capoeira e manifestações de religiões de matriz africana. Com o tempo, consagrou-se como um dos principais espaços de encontro da população negra da cidade.
Hoje, equipes tiveram que retirar objetos que ainda estavam no locais, como instrumentos musicais, imagens religiosas, móveis às pressas. Ao fim da tarde, a demolição já estava concluida.
A vereadora Luna Zarattini acompanhou o processo de reintegração de posse do local, denunciando a prefeitura por permitir que um espaço de cultura popular fosse enterrado.
“É uma tristeza o que a gente está vendo no dia de hoje. E a gente sabe que isso tem um objetivo, que é silenciar, calar a voz de quem existe, de quem se expressa, de quem constrói uma identidade. E a identidade construída no Cruz da Esperança é uma identidade preta que está sendo alvo de ataque e estão tentando apagar essa história.”, disse Luna.
A disputa judicial pela permanência do Cruz da Esperança
A disputa judicial entre a Prefeitura de São Paulo e o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança teve início em março, quando a 9ª Vara da Fazenda Pública determinou a reintegração de posse de uma área de aproximadamente 15 mil metros quadrados ocupada pela entidade no Campo de Marte.
Na ação, a prefeitura sustentou que a permanência do clube impedia o avanço das obras do futuro Parque Campo de Marte, instituído em 2024 com a proposta de ampliar os espaços públicos destinados ao lazer, à prática esportiva e à convivência em uma das regiões mais adensadas da capital.
Ao analisar o caso, a Justiça concluiu que a ocupação do terreno era irregular e que o grêmio não detinha direito de posse sobre a área, determinando sua desocupação.
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A decisão, entretanto, foi parcialmente revista após recurso apresentado pelo Cruz da Esperança. O juiz Bruno Santos Montenegro suspendeu a demolição imediata das instalações e concedeu prazo de 60 dias para a saída da associação. Em sua defesa, o clube argumentou que ocupa o local desde 1958, com apoio da comunidade, e que a situação não poderia ser caracterizada como uma invasão recente.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) contra-atacou e recorreu ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Em maio, a Corte restabeleceu a ordem de reintegração de posse e autorizou seu cumprimento imediato, inclusive com apoio policial, caso fosse necessário.
“Infelizmente, nossa luta não foi suficiente para sensibilizar o prefeito Ricardo Nunes juntamente com a concessionária, que não deu a devida importância à preservação da nossa história, da nossa cultura e da nossa relevância da Cruz da Esperança para a comunidade. A demolição ficou prevista para o dia 29 de julho”, publicou o grupo do Samba do Cruz nas redes sociais.
O fim do Samba do Cruz é a perda de uma construção de mais de 60 anos de gerações de famílias negras.