Guilherme Boulos (PSOL-SP), ministro da Secretaria-Geral da Presidência, deu início nesta terça-feira (18) a uma série de publicações nas redes sociais com o objetivo de detalhar a relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado Willer Tomaz, apontado como elo entre o candidato do PL e a RioPag, empresa que processa os pagamentos das apostas esportivas e lotéricas autorizadas pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj).
“Flávio Bolsonaro não tem biografia, tem ficha corrida. E hoje vou começar a abrir os arquivos e mostrar pessoas, negócios, casos suspeitos que têm ao redor dele”, afirmou Boulos no primeiro vídeo da série, publicado no YouTube e no X (antigo Twitter). O ministro afirma que a operação movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano em apostas e que a empresa teria obtido o contrato bilionário após uma licitação marcada por supostas irregularidades.
Veja o vídeo de Guilherme Boulos: arquivos de Flávio Bolsonaro
O escândalo da Loterj: contrato milionário e licitação com erro de digitação
O centro da denúncia é um contrato de R$ 32 milhões, com vigência de 60 meses, firmado entre a Loterj e a RioPag (antiga PixS Cobrança e Serviços em Tecnologia) para processar depósitos, pagamentos e saques das operações lotéricas no estado do Rio de Janeiro.
O acordo, herdado do governo de Cláudio Castro (PL), tornou-se uma das principais dores de cabeça da gestão interina de Ricardo Couto.
O contrato está no centro de uma disputa envolvendo R$ 18,5 milhões que estavam sob custódia da empresa.
Em julho, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 20,9 milhões nas contas da Rio Pag. Posteriormente, os R$ 18,5 milhões foram devolvidos, mas a Loterj afirma que ainda existem valores relacionados a juros, correção e multa. A Procuradoria-Geral do Estado prepara medidas para rastrear a movimentação financeira dos recursos.
A Rio Pag contesta a cobrança adicional e afirma que os valores foram aplicados em um fundo de investimentos do Santander com prazo de carência de seis meses. A Loterj questiona a operação porque, segundo o governo estadual, esse tipo de aplicação não estava autorizado no contrato.
Licitação da Loterj também entrou no debate
A contratação da empresa ocorreu após a desclassificação da concorrente Ideia Parks. A proposta da empresa apresentava 26,00%, enquanto o edital exigia três casas decimais. A comissão considerou a diferença motivo para desclassificação, embora o percentual fosse equivalente ao exigido.
Com a saída da concorrente, a então Pixs Cobranças e Serviços em Tecnologia, posteriormente denominada Rio Pag, assumiu o contrato. O episódio passou a ser citado por Boulos como parte dos questionamentos sobre a operação das apostas no estado.
Quem é Willer Tomaz, o advogado amigo de Flávio Bolsonaro
Willer Tomaz é o advogado que, segundo Boulos, atua como representante da RioPag e é apontado como amigo próximo do senador Flávio Bolsonaro. Ele admite representar a companhia, mas nega ter qualquer relação societária ou de gestão com a empresa.
Procurado para explicar o “sumiço” dos R$ 18,5 milhões, Tomaz declarou ao portal Metrópoles que o dinheiro custodiado pela RioPag teria sido aplicado em um fundo de investimentos do Banco Santander que previa uma “trava” de seis meses para os saques — o que justificaria a demora na restituição. A versão, no entanto, causou estranheza na Loterj, já que esse tipo de aplicação não está previsto nem autorizado pelo contrato com a RioPag nem pelo ofício que determinou a custódia dos valores.
Questionado sobre qual fundo do Santander teria recebido o montante, Willer Tomaz afirmou, por meio de nota, que “dados sobre aplicações financeiras, contas bancárias e clientes são protegidos por sigilo legal e não serão divulgados”.
A ligação com Flávio Bolsonaro e a licitação questionada
O episódio citado por Boulos remonta a uma licitação iniciada pela Loterj no fim de 2022 para escolher a empresa responsável pelo processamento dos pagamentos das apostas e dos prêmios. Duas empresas chegaram à disputa: a Idea Maker, que apresentou proposta de repassar 26% de sua remuneração à Loterj, e a PixS (atual RioPag), que ofereceu 20%.
O que chama a atenção, segundo Boulos, é o critério que eliminou a concorrente: a Idea Maker teria sido desclassificada por um suposto erro de digitação — a inclusão de um zero depois da vírgula em um dos documentos. Com a desclassificação, a PixS sagrou-se vencedora do certame, garantindo o contrato de R$ 32 milhões.

“Quando você começar a investigar como essa empresa conseguiu esse negócio, sabe o que vai aparecer? Um amigo pessoal do Flávio Bolsonaro”, disse Boulos no vídeo, antes de apresentar Willer Tomaz. A Loterj afirma que a licitação seguiu o edital e foi validada pelo Tribunal de Justiça e pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
A série de vídeos prometida por Boulos deve trazer novos documentos e revelações sobre outros negócios envolvendo aliados do senador. O ministro afirmou que continuará “abrindo os arquivos” de Flávio Bolsonaro ao longo dos próximos dias.
A investigação sobre a empresa e a atuação de Willer Tomaz ocorre em meio ao debate político sobre a expansão das bets e sobre o modelo adotado pela Loterj para credenciamento e processamento dos pagamentos no estado
Segundo apuração da Revista Fórum, que já denunciou o caso anteriomente, “isso não significa que Flávio Bolsonaro seja sócio da RioPag ou tenha participado da licitação da Loterj. A acusação apresentada por Boulos é de que um amigo próximo do senador integra a estrutura empresarial beneficiada pelo contrato e mantém relações profissionais com personagens envolvidos no processo”.