O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça admitiu ter se reunido com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, após reportagem do jornalista Paulo Motoryn, publicada na newsletter Noites Húngaras, revelar mensagens e áudios que registram a articulação do encontro. Leia em TVT News.
Segundo a apuração, Vorcaro e Mendonça se encontraram em 14 de março de 2025, em São Paulo, em um endereço ligado a um instituto fundado pelo ministro.
Em nota divulgada após a publicação da reportagem, o gabinete de Mendonça afirmou que o ministro recebeu Vorcaro “uma única vez, em março de 2025”, por iniciativa do empresário, e que a conversa se limitou a ouvi-lo. O magistrado também confirmou que, no mesmo mês, recebeu o advogado do banqueiro.
De acordo com a nota, o assunto tratado nas conversas foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo que tramitava no Supremo Tribunal Federal e envolvia créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Mendonça afirmou ainda que, na data do encontro, o processo estava sob pedido de vista de outro ministro.
A existência da reunião havia sido revelada pela reportagem de Paulo Motoryn a partir de mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro.
Advogado Ciro Rocha Soaees e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL) articularam o encontro de Vorcaro e Mendonça
O material mostra que a aproximação entre o banqueiro e o ministro foi articulada durante semanas pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.
Em uma das mensagens, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmou que estava “trabalhando” para o banqueiro enquanto levava o ministro a uma alfaiataria.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco [alfaiataria] agora, pra fazer um terno”, disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.
Ainda segundo os diálogos revelados, o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) teria conversado anteriormente com Mendonça sobre uma situação relacionada ao Banco Central envolvendo o Banco Master.
Uma primeira tentativa de encontro entre Vorcaro e Mendonça foi organizada para fevereiro, mas não ocorreu conforme planejado. As mensagens indicam que uma nova reunião foi marcada para 14 de março, em São Paulo.
Na véspera, Cezinha enviou a Vorcaro o endereço e informou que o encontro com Mendonça estava marcado para as 17h. No dia seguinte, pouco antes do horário previsto, o banqueiro avisou que estava a caminho. Na sequência, o deputado escreveu: “Ministro já está te esperando”.
As mensagens trocadas entre Vorcaro e seu motorista também registram o deslocamento até o endereço. Segundo a reportagem, o banqueiro permaneceu no local por aproximadamente duas horas.
A reunião não ocorreu na sede do Supremo nem em uma dependência do Master

O endereço informado por Cezinha era a Alameda Santos, 647, 16º andar, onde funciona o Instituto ITER, instituição fundada por André Mendonça em 2023. A reunião, portanto, não ocorreu na sede do Supremo Tribunal Federal nem em uma dependência do Banco Master.
A reportagem de Motoryn destaca que as mensagens e áudios não permitem determinar exatamente qual pedido Vorcaro teria levado ao ministro. Também não há, no material divulgado, evidência de que Mendonça tenha interferido no Banco Central, prometido alguma providência, recebido vantagem ou tomado decisão em favor do Banco Master.
O ponto confirmado pela apuração é a realização do encontro e a articulação prévia para que ele acontecesse. Os diálogos mostram ainda que Ciro apresentou sua aproximação com Mendonça como parte de uma atuação em favor de Vorcaro.
Mendonça defende que atuou contra os interesses de Vorcaro no Supremo
Na nota divulgada após a reportagem, Mendonça sustentou que sua atuação no processo foi contrária aos interesses defendidos pelo empresário. “A atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário”, afirmou o gabinete, acrescentando que a posição estaria de acordo com manifestações anteriores de Mendonça em casos semelhantes.
O ministro também afirmou que outros integrantes do STF foram procurados por Vorcaro para tratar do mesmo assunto. Segundo sua assessoria, permanecem nos registros do gabinete os memoriais escritos entregues por ocasião do encontro.
Mendonça declarou ainda que não comentaria diálogos privados envolvendo terceiros. “Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade”, diz o comunicado.
Apuração da reportagem
A reportagem de Paulo Motoryn informa que a apuração foi baseada em mensagens e áudios obtidos de uma fonte e submetidos a verificação de datas, horários, interlocutores e locais. As informações foram cruzadas com registros públicos, incluindo agendas e sessões oficiais do Supremo, e os envolvidos foram procurados antes da publicação.
O caso ganhou repercussão porque o encontro ocorreu em um contexto de aproximação entre Vorcaro e pessoas com acesso ao ministro. As mensagens registram que Ciro Rocha Soares dizia estar atuando em favor do banqueiro e que Cezinha de Madureira participou da organização da reunião.
Até a publicação da reportagem original, Ciro Rocha Soares e Cezinha de Madureira haviam sido procurados para comentar o conteúdo, sem resposta. O espaço permanece aberto para manifestações dos citados.
Leia a nota do gabinete do ministro André Mendonça na íntegra
Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.
Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.
Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.
Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.