Febre do Nilo Ocidental: entenda a doença, os sintomas e onde há maior risco

Doença é transmitida principalmente por mosquitos infectados e pode provocar desde quadros leves até inflamações graves no sistema nervoso
Febre do Nilo – MS/Divulgação

A confirmação dos primeiros casos humanos de febre do Nilo Ocidental em São Paulo voltou a chamar atenção para uma doença ainda pouco conhecida no Brasil. Leia em TVT News.

A infecção é provocada pelo vírus do Nilo Ocidental, um arbovírus transmitido principalmente pela picada de mosquitos infectados, sobretudo os do gênero Culex, conhecidos popularmente como pernilongos.

Em geral, a infecção não provoca sintomas. Quando eles aparecem, a manifestação costuma ser leve, mas uma parcela dos pacientes pode desenvolver complicações neurológicas graves, como encefalite, meningite e paralisia flácida aguda.

A doença não é transmitida diretamente de uma pessoa para outra por meio da picada de um mosquito que tenha picado uma pessoa infectada. O ciclo principal envolve aves silvestres e mosquitos.

As aves funcionam como hospedeiras amplificadoras do vírus: ao serem infectadas, podem transmitir o vírus aos mosquitos que se alimentam de seu sangue. Esses insetos, por sua vez, podem infectar seres humanos e outros animais.

Humanos e equídeos, como cavalos, são considerados hospedeiros acidentais e terminais. Isso significa que, após a infecção, a quantidade de vírus presente no organismo e o período de circulação geralmente não são suficientes para que um mosquito se infecte ao picá-los e dê continuidade ao ciclo.

São Paulo confirma primeiros casos humanos

O estado de São Paulo confirmou dois casos de febre do Nilo Ocidental. Segundo o Centro de Vigilância Epidemiológica Prof. Alexandre Vranjac (CVE-SP), da Secretaria de Estado da Saúde, os pacientes são uma mulher de 34 anos, de Ribeirão Preto, e uma jovem de 18 anos, de São José do Rio Preto.

A paciente de Ribeirão Preto relatou uma viagem recente para a região amazônica e já se recuperou. A moradora de São José do Rio Preto permanece sob cuidados médicos.

Os dois casos foram confirmados por exames laboratoriais realizados pelo Instituto Adolfo Lutz. As equipes de saúde ainda investigam onde ocorreu a infecção, informação importante para identificar possíveis áreas de circulação do vírus e orientar as ações de vigilância e prevenção.

De acordo com a diretora do CVE-SP, Tatiana Lang D’Agostini, a confirmação dos casos reforça a necessidade de acompanhamento epidemiológico permanente.

Além dos registros paulistas, o Ministério da Saúde informou a confirmação de dois casos em Santa Catarina. Um deles resultou na morte de uma mulher de 77 anos, moradora de Imbituba. O outro paciente, de 56 anos e residente em Caçador, apresentou manifestações neurológicas, foi internado e posteriormente recebeu alta. Também há registro de um caso provável no Piauí.

Quais são os locais de maior risco?

A presença do vírus está relacionada ao ciclo entre aves silvestres e mosquitos. Por isso, o risco de exposição tende a ser maior em áreas rurais e silvestres onde esses animais e vetores estão presentes.

A atenção também deve ser reforçada entre pessoas que trabalham ou passam longos períodos ao ar livre. Entre os grupos que podem ter maior exposição estão agricultores, jardineiros, trabalhadores da construção civil, médicos veterinários, agrônomos, zootecnistas, biólogos, paisagistas e entomologistas.

O risco não significa que todas as pessoas que vivem ou trabalham nessas regiões serão infectadas. A transmissão depende da presença do vírus, de mosquitos capazes de transmiti-lo e das condições ambientais que favoreçam o contato entre os vetores e a população.

A vigilância de animais também tem importância para identificar áreas onde o vírus pode estar circulando. Adoecimento ou morte de aves silvestres e de equídeos acompanhados de sintomas neurológicos são eventos que devem ser comunicados aos serviços de saúde.

Quais são os sintomas?

Estima-se que aproximadamente 20% das pessoas infectadas desenvolvam sintomas. Na maior parte desses casos, as manifestações são leves.

Entre os sinais mais comuns estão febre de início súbito, mal-estar, dor de cabeça, dores musculares, dor nos olhos, falta de apetite, náuseas, vômitos, manchas na pele e aumento dos gânglios linfáticos.

Em uma parcela bem menor dos infectados, a doença pode atingir o sistema nervoso. A estimativa é de que cerca de uma em cada 150 pessoas infectadas desenvolva uma forma neurológica grave.

Nessas situações, podem surgir confusão mental, alteração do nível de consciência, fraqueza muscular, tremores, convulsões e paralisia. Encefalite e meningite também estão entre as possíveis complicações.

A ocorrência de sintomas neurológicos associados a um quadro febril exige avaliação médica imediata, principalmente quando existe histórico de exposição a áreas onde o vírus ou seus vetores possam estar presentes.

Como é feito o diagnóstico?

A confirmação depende da avaliação clínica e de exames laboratoriais. Um dos exames utilizados é a pesquisa de anticorpos IgM contra o vírus do Nilo Ocidental, realizada em amostras de sangue ou de líquido cefalorraquidiano.

Também podem ser empregados métodos moleculares, como o RT-PCR, além de outras técnicas laboratoriais. O diagnóstico pode apresentar dificuldades porque existem outras doenças com manifestações semelhantes, entre elas dengue, febre amarela, Zika, chikungunya, leptospirose e algumas infecções que também afetam o sistema nervoso.

Por isso, informações sobre sintomas, histórico de deslocamentos e possível exposição a mosquitos são importantes para orientar a investigação.

Não há vacina disponível para humanos no Brasil

Não existe, atualmente, vacina recomendada no Brasil para prevenção da febre do Nilo Ocidental em seres humanos, nem tratamento antiviral específico.

Nos quadros leves, o atendimento é voltado ao controle dos sintomas, com repouso, hidratação e acompanhamento médico. Quando há comprometimento neurológico, pode ser necessária internação hospitalar e, nos casos mais graves, atendimento em UTI, com suporte respiratório, reposição de líquidos e tratamento das complicações.

A prevenção depende principalmente da redução da exposição aos mosquitos. O uso de repelente, telas em portas e janelas e roupas que reduzam a área de pele exposta pode ajudar, especialmente para quem permanece em áreas rurais ou ao ar livre.

Também é importante evitar recipientes que acumulem água e contribuir para a melhoria das condições ambientais. O controle dos mosquitos envolve ações do poder público para eliminar criadouros, melhorar o saneamento e realizar o manejo ambiental adequado.

No caso do Culex, medidas de saneamento são especialmente relevantes, já que esses mosquitos podem se reproduzir em ambientes com água contaminada, como fossas, lagoas poluídas e remansos de rios.

A identificação de animais mortos ou doentes com sintomas neurológicos também pode contribuir para a vigilância. A população e profissionais de diferentes áreas podem registrar ocorrências envolvendo aves silvestres e equídeos pelo aplicativo SISS-Geo, ferramenta que permite o encaminhamento das informações aos diferentes níveis do Sistema Único de Saúde.

Com os primeiros casos humanos confirmados em São Paulo e registros recentes em Santa Catarina, a investigação sobre a origem das infecções e a circulação do vírus ganha importância para orientar medidas de prevenção e proteger tanto a população quanto os animais.

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