Brasil sai de campo e vai para as urnas: como futebol e política se relacionam? 

Como dois eventos que mexem com paixões nacionais, e são separados por apenas três meses, escancaram desigualdades e sonhos
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Foto: Brasil é derrota pela seleção da Noruega por 2x1 em oitavas de final da Copa do Mundo./ Foto: Nelson Terme / CBF

No dia 4 de outubro os brasileiros vão às urnas escolher o próximo presidente do país, após serem eliminados pela Noruega, nas oitavas da final da Copa do Mundo. A TVT News conversou com autores de livros sobre futebol para entender como um campo influencia o outro.   

Para o jornalista Leandro Iamin, que prepara o livro de crônicas “Todo o futebol que houver nessa vida”, ganhar a copa não significa que tudo vai ficar como está, porque o povo está feliz e, perder não significa que o povo vai querer mudanças, mas uma coisa é fato: o resultado mexe com o humor das pessoas.  

“Quando eu falo humor, eu não falo um humor mais simples, mas a parte mais profunda desse humor que está na sensação de bem-estar, na sensação de você estar em um país que te representa”, disse.  

Na história das últimas eleições, o Brasil perdeu a Copa de 2006 e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito. A seleção também perdeu a Copa de 2010 e a presidenta Dilma Rousseff foi eleita e reeleita em 2014, após o Brasil perder de 7×1 para a Alemanha

Para Fábio Luís, autor do livro “Saudades do que Nunca Fomos”, o 7×1 foi um episódio que calou fundo na sensibilidade brasileira, porque foi diferente da eliminação que o país viveu na Copa de 1950, também sediada em solo brasileiro.  

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Para Fabio Luís, Copa de 1950 foi vivida como uma tristeza, diferentemente, de derrota em 2014. Foto: Fifa

“A Copa de 1950 foi vivida como uma tristeza, e a emoção em torno da tristeza foi o silêncio. A emoção em torno do 7×1 foi uma fabricação de memes, uma indisposição afetiva para construir um país todos juntos, que foi expressada na abertura da copa quando a presidenta foi xingada no estádio”, afirmou.  

Luís defende que futebol é uma coisa, e política, é outra. “Mas eu acho que tem vasos comunicantes do ponto de vista do afetivo, dos sentimentos. A vergonha daquela derrota, ela é que nem você jogar álcool no fogo, atiça uma disposição afetiva odiosa.”  

Em 2011, quando o Brasil se preparava para ser sede da copa, Ronaldo foi questionado se os brasileiros não preferiam hospitais e respondeu. “Sem estádio não se faz Copa, amigo. Não se faz Copa do Mundo com hospital. Tem que fazer estádio”.   

Para Iamin, o futebol prevê a igualdade porque todo mundo tem direito a um goleiro, a bola é a mesma, pode jogar descalço, mas a Copa do Mundo, sediada no Brasil em 2014, lembrou a desigualdade. “Um país, desse tamanho e com a história que tem, carrega muitos ressentimentos. Ressentimentos que vem da desigualdade. E a Copa do Mundo, ela é um evento de natureza luxuosa”.  

Cooptação da amarelinha   

A camisa amarela passou a ser a oficial da Seleção Brasileira após a derrota na final de 1950, na derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã. Na época, foi lançado um concurso nacional vencido pelo gaúcho Aldyr Garcia Schlee, um desenhista então com 18 anos – que depois veio a se tornar jornalista e escritor.  

Nos protestos que culminaram no impeachment da presidenta Dilma, mais de um milhão de manifestantes ligados à direita ocuparam as ruas com símbolos nacionais como a bandeira do Brasil e a camisa da seleção.    

O jornalista Iamin avalia que a camisa da seleção não representa conservadorismo por si. “A seleção demorou muito para ganhar uma Copa do Mundo, perdeu a primeira Copa do Mundo em casa em 1950. O Brasil demorou muito mais que a Argentina para começar a ganhar, então, [a camisa] deveria ser um símbolo, de resistência, um pertencimento bonito”, avaliou.  

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Camisa verde e amarela foi cooptada pela extrema-direita em prostestos a favor do golpe contra presidenta Dilma Rousseff. Foto: José Cruz/ Agência Brasil.

O autor de “Saudade do que não Fomos” acredita que a camisa catalisa um movimento de recuperar o Brasil dos que, na cabeça da extrema direita, o usurparam. “A camisa da seleção vai ser então vestida como um time dos patriotas autoescalados na missão de recuperar o Brasil das mãos daqueles que o usurparam.”   

Iamin explica que o futebol é uma cena de guerra e uma encenação lúdica de questões patrióticas. “Você tenta conquistar espaço do adversário, precisa aniquilar, tem um território em comum onde você vai traçando várias fronteiras, na lateral, no meio, na defesa, no ataque”.    

Ele ainda chama a atenção que a torcida gosta geralmente do jogador “guerreiro”, e que a encenação também está nos uniformes com as cores das bandeiras. “O patriotismo, que quase nunca é totalmente saudável no nosso dia-a-dia, na hora da Copa do Mundo, se torna uma coisa bem-vinda, saudável. Uma coisa que não tem que não tem grandes implicações”.  

Futebol e desigualdade

No livro “Saudades do que nunca fomos”, o autor Fábio Luís, fala sobre o processo de formação nacional e o futebol brasileiro. Ele relembra que, em um país liberto da escravidão, numa realidade entre discriminação e pobreza, a cultura se descortinava com um caminho de inserção e ascensão social.   

Segundo Fábio Luís, o futebol brasileiro e a formação nacional se desencontram porque este esporte apontava para uma integração nacional em potencial que nunca aconteceu fora de campo. “O que estava colocado, em potência, era de o Brasil se formar como nação, o que significa superar a desigualdade, as assimetrias e ser um país que anda com as próprias pernas, que produz sua própria cultura, sua própria economia, só que isso não aconteceu”, afirmou.  

“Poderia Pelé completar a obra da princesa Isabel, como escreveu mais tarde Mario Filho? No futebol e na música, pretos e pobres protagonizavam as maiores realizações culturais desta Nação em formação. A integração dos negros no campo de futebol não encontrava correspondência fora dele, mas continha uma promessa. O futebol não espelhava a sociedade, mas sim sua potência.” (Saudades do que nunca fomos, Luis Fábio, Editora Elefante, 2026).  

O escritor vê o encantamento que o futebol produzia como o desejo de brasileiros – populações oprimidas, racializadas, de passado colonial em todo o mundo – de sonhar e de aspirar com uma vida cujo sentido não está colocado, uma vida que não é vertebrada pela economia, pelo trabalho.  

“Ele permitia, que nem a arte, um deslocamento que entrevê possibilidade de uma sociedade diferente organizada pela poesia e não pela economia. O futebol de clubes, atualmente, não tem mais essa função de soltar desejos, sonhos, fantasias, aspirações. Ele gerou uma espécie de confirmação do que existe”, avaliou. 

Europeização do futebol   

Ainda, segundo Luís, o futebol jogado pelos brasileiros continua a ser competitivo em nível internacional, mas deixou de ter uma característica própria e de produzir encantamento. A avaliação, é de que, de 1980 para cá, um processo de racionalização do jogo transformou os jogadores em atletas de alto rendimento, trouxe a impressão de o campo ser menor e ter mais jogadores.  

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O atacante norueguês Erling Braut Haaland (camisa 9) toca um tambor enquanto a Noruega comemora a vitória na partida das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 entre Brasil e Noruega, no estádio de Nova York/Nova Jersey, em East Rutherford, em 5 de julho de 2026. (Foto de MAURO PIMENTEL / AFP)

“O Brasil deixa de ser produtor de futebol e passa a ser exportador da matéria-prima do esporte, que são os jogadores que vão sendo exportados cada vez mais cedo”.   

Na visão do escritor a consequência é que o futebol da seleção brasileira vai ser cada vez mais europeu. “Como os jogadores são vendidos cada vez mais cedo, é difícil formar time, uma equipe, que joga junto, que nem o Flamengo do Zico, Andrade e o Júnior dos anos 80, o São Paulo do Müller, do Cafu e do Raí dos anos 90”, criticou. 

Depois da copa   

Iamin afirma que não tem como chegar numa Copa com cinco títulos mundiais e ser pragmático a ponto de fingir que isso não mexe com o fundo da nossa alma. “O fato de sempre depois vir uma campanha eleitoral é algo que, no nosso inconsciente, já estamos acostumados, a gente é capaz de separar as coisas. Quem não é capaz de separar isso perde uma chance de se divertir. A eleição vem depois e a eleição traz os seus problemas próprios.”  

Antes da derrota – ainda na fase de 16 avos da final, quando o Brasil derrotou o Japão – o futebol preservou o poder de alterar a rotina dos brasileiros, muitos saíram mais cedo do trabalho e duas horas antes da bola rolar em campo, a estação da Sé, em São Paulo, registrava grande aglomeração de pessoas.  

“A Copa do Mundo preserva o seu poder, como se fosse uma varinha mágica, de suspender o cotidiano do trabalho e transformar aquilo num momento sagrado em que as pessoas vão se encontrar e vão sofrer juntas. De suspender uma segunda-feira inferna num momento de fantasia e encontro. Sim. O Futebol, a Copa do Mundo”, concluiu Luís.   

Livros

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Livro fala sobre o processo de formação nacional e o futebol brasileiro.
  • Título: Saudades do que nunca fomos
  • Autor: Fabio Luís Barbosa dos Santos
  • Edição: Tadeu Breda
  • Revisão: Luiza Brandino e Érico Melo
  • Ilustração da capa: Túlio Cerquize
  • Capa e direção de arte: Bianca Oliveira
  • Diagramação: Daniela Miwa Taira
  • Assistência de arte: Caroline Vapsys
  • Editora Elefante
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Leandro Iamin aproveita Copa para escrever crônicas sobre o presente e o passado.
  • Título: Todo futebol que houver nessa vida (pré-venda)
  • Autor: Leandro Iamin
  • Coordenação editorial: Paulo Junior e Vitor Castro
  • Edição: Marilia Pereira
  • Foto (capa): David Gari / Pexels
  • Editora Mórula

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