Irmão de Mendonça foi promovido por Ricardo Nunes após voto do ministro sobre setor funerário

Reportagem do ICL Notícias aponta que Alexandre Mendonça teve sequência de promoções na agência municipal responsável pelos serviços funerários de São Paulo
andre-mendonca-ricardo-nunes-irmao
O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, durante o almoço empresarial do Lide — que debaterá justiça, democracia e o papel dos poderes no Estado brasileiro — no W Hotel São Paulo, na zona oeste da capital paulista, nesta segunda-feira (17). (Foto de Marina Uezima / Brazil Photo Press via AFP)

O irmão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Almeida Mendonça, foi promovido em junho de 2026 ao cargo de secretário-executivo da SP Regula, agência vinculada à Prefeitura de São Paulo. Leia em TVT News.

A promoção ocorreu após o ministro participar, no STF, de um julgamento envolvendo justamente o modelo de concessão dos serviços funerários e cemiteriais da capital paulista, uma das áreas reguladas pela autarquia. As informações foram são da reportagem de Paulo Motoryn, do Noites Húngaras, e Cleber Lourenço, do ICL Notícias.

Alexandre de Almeida Mendonça já integrava os quadros da SP Regula quando André Mendonça analisou a ação no Supremo. A trajetória do irmão do ministro dentro da agência municipal foi marcada por uma rápida sequência de ascensões: ele entrou como gerente em fevereiro de 2024, tornou-se superintendente em julho do mesmo ano e, em junho de 2026, assumiu o posto de secretário-executivo.

A nomeação para o cargo foi formalizada por meio de portaria assinada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).

A SP Regula está diretamente vinculada ao Gabinete do Prefeito e tem entre suas atribuições a regulação e fiscalização de serviços públicos concedidos pela administração municipal.

Entre as áreas sob sua estrutura está o setor de serviços funerários e cemiteriais, que se tornou alvo de disputa judicial no STF após questionamentos sobre os efeitos da privatização e o aumento dos preços cobrados pelos serviços em São Paulo.

Mendonça divergiu de Flávio Dino em ação sobre serviços funerários que favoreciam a prefeitura de SP

A relação entre a atuação do ministro no Supremo e a área regulada pela agência onde seu irmão trabalhava aparece no julgamento de uma ação que questiona aspectos do modelo de concessão dos cemitérios e serviços funerários adotado pela Prefeitura de São Paulo.

O ministro Flávio Dino, relator do processo, havia determinado medidas à Prefeitura e às concessionárias diante dos questionamentos sobre o aumento dos preços dos serviços funerários após a privatização do setor.

A gestão de Ricardo Nunes contestou as determinações e recorreu ao Supremo para tentar derrubá-las.

André Mendonça adotou posição favorável à tese defendida pela Prefeitura. Depois de pedir vista e interromper o julgamento em março de 2025, o ministro abriu divergência em relação ao voto de Flávio Dino.

Mendonça sustentou que a ação não deveria ser aceita pelo STF e votou pela derrubada das medidas determinadas pelo relator. Caso esse entendimento prevalecesse, a Prefeitura e as concessionárias deixariam de cumprir as obrigações impostas no processo.

Naquele período, Alexandre de Almeida Mendonça já ocupava um cargo na SP Regula, agência que regula uma das áreas diretamente relacionadas à discussão judicial.

O julgamento da medida cautelar, porém, não foi concluído. Em abril de 2025, após André Mendonça apresentar sua divergência, o caso foi levado ao plenário físico por um destaque do ministro Gilmar Mendes. Posteriormente, em maio, Luiz Fux pediu vista do processo.

Desde então, a ação continuou sendo objeto de diligências, audiências, manifestações e outras medidas de acompanhamento. Até o momento citado pela reportagem, não havia decisão final sobre o caso.

Irmão de Mendonça: de gerente a secretário-executivo

Os registros do Diário Oficial do Município consultados pelos jornalistas mostram a sequência de promoções de Alexandre dentro da estrutura da SP Regula.

A primeira nomeação localizada ocorreu em fevereiro de 2024, quando ele passou a ocupar o cargo de gerente. Poucos meses depois, em julho daquele ano, foi promovido a superintendente. Em junho de 2026, chegou ao cargo de secretário-executivo.

A Secretaria Executiva integra uma estrutura administrativa que reúne diferentes áreas operacionais da agência, entre elas a Gerência de Serviços Funerários e Cemiteriais.

Registros divulgados pela própria SP Regula mostram Alexandre, já no cargo de secretário-executivo, participando de reuniões com diferentes gerências da autarquia, incluindo representantes da área ligada aos serviços funerários.

A reportagem de Paulo Motoryn e Cleber Lourenço questionou a Prefeitura de São Paulo e a SP Regula sobre os critérios utilizados para as promoções, quem decidiu pela ascensão de Alexandre ao cargo de secretário-executivo e quais eram suas atribuições durante o período em que a ação tramitava no STF.

Prefeitura nega relação entre promoção e atuação no Supremo

Em nota enviada à reportagem, a Prefeitura de São Paulo afirmou ser “irresponsável e sem fundamento” qualquer insinuação de relação entre a atuação de André Mendonça no STF e a contratação ou promoção de seu irmão na SP Regula.

A administração municipal argumentou que a representação e a defesa dos interesses da Prefeitura no Poder Judiciário são atribuições da Procuradoria-Geral do Município (PGM), e não da agência reguladora.

Segundo a nota, Alexandre ingressou na SP Regula após um processo de seleção realizado em 2024, que teria avaliado currículos, experiências profissionais e entrevistas.

A Prefeitura também afirmou que ele é formado em Administração de Empresas e que exerce funções de gestão administrativa. De acordo com a administração de Ricardo Nunes, Alexandre não teria responsabilidade direta pela gestão dos contratos de concessão.

A nota sustenta ainda que a relação sugerida entre a atuação do STF e a trajetória funcional de Alexandre seria “fantasiosa” e sem comprovação.

Nunes distribuiu camisetas em apoio a Mendonça

Durante os atos do Dia da Independência, em São Paulo, no domingo (7), o prefeito Ricardo Nunes distribuiu camisetas com mensagens de apoio ao ministro do STF André Mendonça.

Entre as frases estampadas estavam “#ForçaMendonça” e “O povo brasileiro de bem está com André Mendonça”.

A distribuição ocorreu durante um ato convocado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), marcado por críticas ao Supremo Tribunal Federal e realizado em meio à crise política envolvendo a Corte.

O ICL Notícias também procurou André Mendonça para questionar se o ministro informou, no processo sobre os serviços funerários, que seu irmão ocupava cargo na SP Regula e se avaliou eventual impedimento ou suspeição para participar do julgamento.

Alexandre de Almeida Mendonça também foi procurado para explicar suas atribuições na agência e esclarecer se teve alguma atuação relacionada aos serviços funerários e cemiteriais.

De acordo com a reportagem, o espaço permanece aberto para manifestações.

Assuntos Relacionados