A reinvenção da esperança democrática passa pela juventude

A juventude é o termômetro do Brasil; ouvi-la é a única forma de construir uma soberania que faça sentido para o século XXI
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Lula e a esperança. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Artigo de Brenno Almeida, presidente da Fundação Perseu Abramo, sobre necessidade da devida atenção à juventude na formulação de políticas públicas

Há uma velha máxima na política que costuma tratar a juventude como o “amanhã” do país. Para mim, isso sempre me pareceu um erro crasso de perspectiva porque a juventude não é uma promessa guardada em uma gaveta para o amanhã; ela é o termômetro, a energia e a força motriz do Brasil de agora.

Discutir o projeto de nação que queremos passa, obrigatoriamente, por compreender as dores, mas, acima de tudo, as potências e a capacidade de reinvenção que pulsam nos nossos jovens neste exato momento.

A juventude é o termômetro das contradições do Brasil; ouvi-la é a única forma de construir uma soberania que faça sentido para o século XXI.

Abrir as portas dos partidos, dos sindicatos e dos espaços de decisão para as novas gerações não é um ato de benevolência institucional ou uma cota de simpatia, mas um imperativo de sobrevivência democrática e de renovação de nossas esperanças.

A democracia não é um monumento estático, mas um músculo que precisa ser exercitado para não enfraquecer, e a juventude é o oxigênio que mantém esse músculo funcionando. Historicamente, desde a resistência contra a ditadura, a defesa das liberdades sempre teve rostos jovens na linha de frente.

Quando a juventude se afasta da política institucional por achá-la burocrática, o sistema envelhece, perde legitimidade e abre espaço para o silêncio da apatia ou o avanço de discursos autoritários.

Trazer as novas gerações para o centro do poder significa oxigenar o debate público com novos repertórios e urgências que eles lideram com maestria. A sensibilidade para a justiça climática, o antirracismo, a diversidade e o combate às desigualdades regionais ganha contornos muito mais práticos e menos engessados nas mãos dos jovens.

Como movimentos que cumprem o papel histórico de trazer novos termos e formatos para a política, eles dominam a linguagem das redes e das narrativas contemporâneas, conseguindo traduzir pautas complexas e mobilizar a sociedade civil com uma agilidade que as estruturas tradicionais de poder muitas vezes não possuem.

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O Estado voltou a estender a mão para quem quer trabalhar e estudar com dignidade. Foto: Ricardo Stuckert

No entanto, essa inclusão não pode acontecer de forma abstrata, apenas para constar em fotos de palanque. É preciso olhar de perto, com sensibilidade e acolhimento, para a complexa engrenagem social que molda a vida das juventudes brasileiras hoje, redefinindo nosso olhar sobre suas vulnerabilidades.

Compreender a realidade deles é o primeiro passo para transformar a angústia em soluções reais e transformar o futuro em um lugar seguro para se sonhar.

É verdade que o conjunto das nossas juventudes ainda enfrenta desafios imensos, estando na linha de frente das maiores transformações socioeconômicas atuais. Quem acompanha os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do UNICEF sabe o tamanho da nossa responsabilidade: a violência estrutural e o atraso escolar severo ainda afeta mais de 4 milhões de estudantes na educação básica, com um impacto profundo sobre os jovens negros e periféricos.

No mercado de trabalho, o desemprego entre os jovens de 18 a 24 anos historicamente dobra a média nacional registrada pelo IBGE. São os jovens que mais sentem os impactos do desemprego estrutural, da informalidade em aplicativos e do endividamento precoce de famílias inteiras, o que compromete gravemente a autonomia financeira e a saúde mental de quem está começando a vida produtiva.

Mas se a juventude é quem mais sofre com esse cenário, é também ela que lidera os debates sobre o futuro das jornadas profissionais, o esgotamento dos modelos tradicionais, como a discussão em torno da escala 6×1, e a urgência de uma regulação justa para o trabalho em plataformas digitais.

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Lula ao lado dos entregadores de app: políticas públicas pensadas para a melhora da vida da população. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Pensar em um projeto de desenvolvimento econômico sem a perspectiva jovem é um modelo que já nasce obsoleto e propor um projeto de nação significa, necessariamente, criar redes de proteção contra vulnerabilidades, garantindo que o acesso à educação formal se converta em inclusão produtiva real e dignidade, e não em frustração econômica.

Essa pressão diária gera uma inquietação legítima com o amanhã. Na busca por estabilidade, ordem e respostas rápidas diante de um mundo tão volátil, é compreensível que uma parcela significativa da juventude encontre eco em discursos mais conservadores.

Pesquisas de institutos globais como o Ipsos mostram que quase 40% dos rapazes da Geração Z no Brasil têm abraçado visões mais tradicionais. Mas longe de ser um veredito definitivo, esse fenômeno nos mostra um desejo profundo desses jovens por pertencimento, segurança e horizontes claros. A juventude não quer o isolamento da competição feroz; ela quer ferramentas para vencer, e cabe a nós mostrar que o caminho coletivo é muito mais forte e acolhedor.

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O nosso papel hoje é abrir caminhos para que esses sujeitos tenham voz. Foto: Ricardo Stuckert

Para superarmos esse cenário e reconectarmos esses corações com o projeto democrático, a nossa resposta não pode ser burocrática ou nostálgica. É preciso disputar a estética e o conteúdo do futuro com alegria e inovação. Não se pode cometer o erro de trocar a “velha bossa nova” por uma “nova bossa velha”. A nossa velha bossa nova foi aquele momento de frescor que modernizou a nossa leitura de Brasil no passado.

Substituí-la por uma nova bossa velha seria adotar uma roupagem moderna, cheia de algoritmos e redes sociais, mas que repete velhas fórmulas de exclusão. Queremos o novo de verdade: a ruptura criativa, o entusiasmo e a ousadia juvenil ocupando o espaço público.

Ações para a juventude no Governo Federal

E o horizonte já começa a mudar. O atual governo federal tem demonstrado que é possível virar esse jogo com ações concretas e transformadoras. O programa Pé-de-Meia é uma revolução silenciosa que já garante uma poupança de permanência estudantil para mais de 5 milhões de jovens de baixa renda, mudando a realidade do Ensino Médio e mantendo a juventude na escola.

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Pé-de-Meia já beneficiou 4 milhões de alunos e reduziu pela metade a evasão escolar. Foto: Angelo Miguel/MEC

Esse cuidado ganha ainda mais força com a expansão das Escolas de Tempo Integral, que já somam mais de 1,4 milhão de novas vagas pactuadas com estados e municípios, uma estratégia fundamental para afastar o jovem da vulnerabilidade das ruas e da criminalidade nos territórios periféricos. Junto a isso, a busca por direitos e regulamentação para os trabalhadores por aplicativos mostra que o Estado voltou a estender a mão para quem quer trabalhar e estudar com dignidade.

Esse projeto de país, conectado com as aspirações de cada jovem, não será desenhado em gabinetes fechados. Ele já está brilhando na rima do slam, no corre dos entregadores que começam a se organizar por melhorias, na resistência dos estudantes e na criatividade contagiante que transborda das nossas periferias. O nosso papel hoje é abrir caminhos para que esses sujeitos tenham voz, voto e poder real de decisão, garantindo que o Brasil volte a pulsar no ritmo da justiça social, da diversidade e, acima de tudo, de uma esperança inabalável.

Sobre o autor

Brenno Almeida é presidente da Fundação Perseu Abramo desde janeiro de 2026. É bancário, graduado em economista e especialista em Gestão Pública (FCAP/UPE) e Desenvolvimento Regional (Fundaj)


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