A revelação de uma carta enviada pelo governo de Donald Trump ao Brasil no início de 2026 lança nova luz sobre a escalada da disputa comercial entre Brasília e Washington. Documento obtido com exclusividade pelo jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias, mostra que a Casa Branca condicionou uma eventual redução das tarifas impostas aos produtos brasileiros à adoção de uma ampla agenda de concessões econômicas, comerciais e regulatórias, incluindo medidas para restringir investimentos chineses em setores estratégicos da mineração brasileira. Saiba mais na TVT News.
O conteúdo da proposta reforça a narrativa apresentada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva desde o anúncio do novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros. Na quinta-feira (16), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que, durante as negociações, os Estados Unidos exigiram do Brasil uma verdadeira “capitulação”. A documentação revelada agora indica que a avaliação do Itamaraty correspondia ao teor das exigências apresentadas reservadamente por Washington.
Segundo a carta, assinada pelo representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, o governo brasileiro deveria realizar mudanças profundas em diversos setores da economia antes mesmo de qualquer negociação efetiva sobre as tarifas. Em troca, Washington prometia apenas reduzir a sobretaxa aplicada aos produtos brasileiros. O percentual dessa eventual redução sequer era especificado no documento, aparecendo apenas como “[XX]”.
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A proposta foi encaminhada em 9 de janeiro de 2026, durante o andamento da investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) contra o Brasil. Na correspondência, Greer afirma que recebeu um rascunho de declaração conjunta elaborado pelo governo brasileiro, mas considerou insuficientes as propostas apresentadas por Brasília.
O representante comercial afirma que a política norte-americana não mudaria sem uma “melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA”. Na prática, a carta exigia que o Brasil alterasse políticas públicas, regras regulatórias e até decisões envolvendo investimentos estrangeiros em áreas consideradas estratégicas.
China torna-se alvo central das exigências
Um dos pontos mais sensíveis do documento envolve a relação do Brasil com a China.
Os Estados Unidos exigiram que o governo brasileiro adotasse medidas para limitar investimentos de “atores não orientados pelo mercado” e de “entidades estrangeiras de preocupação” nos setores de mineração, refino e minerais críticos — terminologia utilizada pela diplomacia norte-americana para se referir às empresas chinesas.
Além disso, Washington cobrou que o Brasil revisasse a venda das operações de níquel da Anglo American para a MMG Singapore Resources, subsidiária da estatal chinesa China Minmetals Corporation, e garantisse condições consideradas favoráveis para empresas norte-americanas investirem no setor de minerais estratégicos.
A exigência extrapola o debate comercial e insere a disputa tarifária no contexto da crescente rivalidade geopolítica entre Estados Unidos e China. Ao pressionar o Brasil a restringir investimentos chineses em cadeias ligadas à transição energética, baterias e indústria de defesa, Washington buscava ampliar sua influência sobre recursos considerados essenciais para a economia do futuro.
A revelação também ajuda a explicar a afirmação feita por Mauro Vieira de que o governo brasileiro não aceitou “pretensões desmedidas” apresentadas pelos negociadores norte-americanos.
Mercado brasileiro deveria ser aberto aos produtos americanos
O documento revela ainda que Washington pretendia obter uma abertura praticamente irrestrita do mercado brasileiro para produtos e empresas dos Estados Unidos.
Na agricultura, o Brasil deveria eliminar tarifas incidentes sobre o etanol norte-americano, além de comprometer-se a não restringir produtos relacionados às denominações utilizadas para carnes e queijos.
Na indústria, a exigência era ainda mais ampla: zerar tarifas para produtos químicos, veículos, autopeças, equipamentos médicos, medicamentos e frutos do mar produzidos nos Estados Unidos.
A carta também determinava que o Brasil aceitasse automóveis fabricados segundo as normas federais norte-americanas de segurança veicular sem exigir adaptações adicionais às regulamentações brasileiras.
No setor farmacêutico, Washington pretendia que certificados eletrônicos e autorizações concedidas pela Food and Drug Administration (FDA) fossem automaticamente aceitos pelas autoridades brasileiras, dispensando procedimentos regulatórios nacionais.
Já na indústria aeronáutica, a proposta previa a eliminação de todas as tarifas e barreiras não tarifárias para jatos comerciais produzidos nos Estados Unidos, medida que atingiria diretamente um segmento em que a Embraer disputa mercados internacionais com a Boeing.
Especialistas observam que parte dessas mudanças exigiria inclusive negociações no âmbito do Mercosul, já que diversas tarifas brasileiras fazem parte da Tarifa Externa Comum do bloco.
Pressão também alcançava plataformas digitais
Outro eixo importante da carta envolve as empresas de tecnologia dos Estados Unidos.
Washington exigia que futuras regulações brasileiras sobre plataformas digitais e redes sociais fossem elaboradas após consultas às empresas norte-americanas.
Também cobrava garantias de “tratamento justo” para companhias dos Estados Unidos nas políticas de concorrência e na aplicação de regras sobre conteúdos publicados nas plataformas digitais.
As exigências dialogam diretamente com as críticas feitas posteriormente pelo governo Trump às decisões do Supremo Tribunal Federal envolvendo redes sociais e ao debate brasileiro sobre responsabilização das plataformas digitais.
O documento ainda defendia que o Brasil apoiasse imediatamente uma moratória permanente na Organização Mundial do Comércio para impedir a criação de tarifas sobre transmissões eletrônicas, medida considerada estratégica para as grandes empresas globais de tecnologia.
Revelações reforçam versão apresentada pelo Itamaraty
As exigências reveladas por Jamil Chade também contradizem parte da narrativa adotada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
Após o anúncio do novo tarifaço, Rubio afirmou que o governo Lula não teria negociado de boa-fé com Washington.
Na declaração feita nesta quinta-feira, Mauro Vieira respondeu afirmando que o Brasil participou de mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e telefônicas com autoridades norte-americanas desde março de 2025, incluindo 11 contatos diretos com Rubio e Jamieson Greer.
O chanceler brasileiro sustentou que as exigências apresentadas pelos Estados Unidos iam muito além das questões comerciais formalmente alegadas pelo USTR.
“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações”, afirmou.
Em seguida, resumiu o conteúdo das cobranças com a frase que se tornou um dos principais símbolos da reação brasileira ao tarifaço: “Em outras palavras, exigiam uma capitulação.”
A documentação obtida pelo ICL Notícias reforça essa interpretação ao mostrar que Washington condicionava qualquer flexibilização das tarifas à adoção prévia de uma agenda abrangente de mudanças econômicas, regulatórias e geopolíticas, alcançando desde a política industrial e agrícola até a relação estratégica do Brasil com a China e a condução da regulação do ambiente digital.
As revelações também ampliam o contexto da atual crise comercial entre os dois países. Embora o governo norte-americano tenha justificado oficialmente o novo tarifaço com críticas ao Pix, ao etanol, ao comércio digital e ao combate ao desmatamento, a carta indica que, nas negociações reservadas, os interesses de Washington eram significativamente mais amplos, envolvendo setores estratégicos da economia brasileira e aspectos centrais da soberania nacional.

